As meditações diárias, 2: A meditação noturna ou retrospectiva

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Filósofo com o livro aberto, tela de Salomon de Koninck (1609-1656) (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Nota: Este artigo dá sequência à nossa discussão sobre as meditações matinais dos estoicos. Mais uma vez, há uma parte histórica e teórica, um tanto mais alentada, e outra voltada à prática (“Resumo prático”), a que você pode ir se desejar ler um tratamento mais direto do tema. Além disso, reconheço minha dívida para com algumas fontes, como esta entrada do Daily Stoic, este post do Modern Stoicism e este do Stoic Journey; também novamente útil foi o capítulo “O exame de consciência entre os antigos”, do livro Estudos morais sobre a Antiguidade, de B.-C. Martha. Um conhecimento sólido só pode ser construído quando nos apoiamos no bom trabalho dos outros e lhes damos o reconhecimento devido.

TEORIA E HISTÓRIA

O exercício estoico da meditação noturna também parece ter-se derivado de técnicas do pitagorismo. A esse respeito, os Versos de ouro, recolha de leis ou preceitos anônima que condensa a sabedoria dos seguidores do filósofo de Samos, diz-nos o seguinte:

Não permita que o doce sono cerre-lhe os olhos,

sem ter repassado consigo o que você fez durante o dia:

Em que errei? O que fiz? Omiti-me em algo que deveria ter feito?

Considere todas as suas ações desde a primeira, sem esquecer nenhuma.

Castigue-se pelas ações más e regozije-se pelas boas.

Versos de ouro, v. 40-44

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As meditações diárias, 1: A meditação matinal ou prospectiva

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Exercício matinal: os pitagóricos saúdam a aurora em tela de Fiódor Bronnikov (1827-1902) (fonte da foto)

 

Por Donato Ferrara

Nota: Este artigo tem por objetivo citar e discutir com alguma minúcia as passagens dos escritos estoicos (e de outras escolas) em que se fala da meditação que abria o dia de um prokópton. Por tal motivo, a parte teórica e histórica deste texto tem uma extensão razoável. Aos que desejem um tratamento mais imediato do tema, peço irem diretamente à seção “Resumo prático”. Foram fundamentais para mim a seleção de citações do Daily Stoic e a do Stoic Journey, além do capítulo “O exame de consciência entre os antigos”, da obra Estudos morais sobre a Antiguidade, de B.-C. Martha.

TEORIA E HISTÓRIA

A prática da meditação matinal ou prospectiva, na qual o aspirante à sabedoria se preparava para o dia que principiava teve sua origem, ao que parece, no pitagorismo. Jâmblico (ca. 245-325), filósofo neoplatônico, observa que os discípulos de Pitágoras faziam caminhadas solitárias pela manhã, indo a lugares ermos e sagrados para seus exercícios de contemplação. Eles não consideravam aconselhável entrar em contato com outros indivíduos antes de seus instantes de recolhimento matutino (cf. Vida de Pitágoras, XXI). Em outro ponto da mesma obra, Jâmblico anota o seguinte:

Eles [os pitagóricos] tinham de acordar antes do nascer do sol… Tinham de adorar o sol nascente. Pitágoras ordenava-lhes que nada fizessem sem deliberação ou discussão prévias — planejando, pela manhã, o que seria feito mais tarde e revisitando, à noite, as ações do dia, o que servia ao duplo propósito de fortalecer a memória e avaliar a conduta. (Vida de Pitágoras, XXXV)

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Notas estoicas, 1: Cleanto de Assos e as virtudes asininas

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Cleanto tomou o asno como um animal que conotava resistência e perseverança (fonte da foto)

[Cleanto] era muito aplicado, mas não tinha grandes dons naturais, sendo de intelecto exageradamente lento. Foi por isso que Tímon [de Fliunte, filósofo cético discípulo de Pirro] disse a seu respeito [parodiando a Ilíada, III, 232-234]:

Quem é esse carneiro que por entre as fileiras

dos homens avança, esse ser obtuso, amante de versos,

massa rochosa e pusilânime, natural de Assos?

Ele suportava pacientemente as zombarias de seus condiscípulos. Ao ser chamado de asno, não se incomodava com isso, dizendo ser o único que podia carregar os fardos que Zenão lhe punha em cima. (Diógenes Laércio, Vidas e opiniões dos filósofos ilustres, VII, 5: 170)

Principal discípulo de Zenão de Cítio e segundo diretor da escola estoica, Cleanto de Assos (ca. 330 – ca. 230 a.C.) não passou para a história como um renovador da filosofia ou um criador de conceitos. Diz-se que foi na juventude um atleta pobre (talvez um lutador) que chegou a Atenas com apenas quatro dracmas. Muito trabalhador, sujeitava-se a uma ocupação bastante humilde — era o responsável pela irrigação de um jardim — durante a noite, de onde tirava o sustento para as necessidades básicas e para as aulas de filosofia na escola de Zenão, a que assistia de dia. Vivia com tamanha frugalidade que chegava a ter economias, dizendo ser capaz de alimentar outro Cleanto com o pouco que ganhava, se tal fosse preciso.

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Sêneca diante da morte

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Sêneca é pranteado por seus amigos em tela de Manuel Domínguez Sánchez (1840-1906) (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Lúcio Aneu Sêneca era homem de grandes defeitos. Assumidamente, aliás. Sobre sua atuação como político e a conveniência de sua filosofia com a vida que levou, as opiniões sempre divergiram bastante. Homem vastamente rico, não foram poucos os que o acusaram de hipocrisia por dizer, como estoico, que os bens materiais eram coisa indiferente — embora nenhum contemporâneo tenha afirmado que vivesse em fasto escandaloso. Sua proximidade com Nero tornava-o detestável a boa parte do Senado; fora preceptor do futuro imperador, a pedido da mãe deste, Agripina, e enquanto teve ascendência sobre o jovem monarca, nos primeiros anos do reinado, o Império teve boa administração. As relações entre imperador e seu antigo mestre deterioram-se progressivamente, à medida que o caráter tirânico de Nero tornou-se mais e mais manifesto. Sêneca, entretanto, continuou gravitando em torno do poder imperial, talvez por pensar que fosse possível mitigar a crueldade do soberano por meio de sua influência — no que falhou redondamente. Em 62, com a morte de Sexto Afrânio Burro, chefe da guarda pretoriana, o imperador sentiu-se ainda mais confortável para eliminar agentes políticos incômodos. A descoberta da conspiração de Caio Calpúrnio Pisão, três anos depois, deu a Nero o pretexto que faltava para livrar-se de Sêneca e de outras figuras proeminentes.

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Manual de Epicteto, 4: Antecipação das contrariedades e tranquilidade

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Em um mundo de multidões, são múltiplos os entraves e contratempos; saibamos antecipá-los (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Quando estiveres prestes a empreender alguma ação, recorda-te de que qualidade ela é. Se fores aos banhos, considera o que acontece na sala de banho: pessoas que espirram água, empurram, insultam, roubam. Empreenderás a ação com mais segurança se assim disseres prontamente: “Quero banhar-me e manter a minha escolha segundo a natureza”. E do mesmo modo para cada ação. Pois se houver algum entrave ao banho, terás à mão que “Eu não queria unicamente banhar-me, mas também manter minha escolha segundo a natureza — e não a manterei se me irritar com os acontecimentos”.

Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien

COMENTÁRIO

A consolidação do Império Romano significou muitas coisas. Dentre elas, a emergência das multidões. Entre os séculos I e II, a capital do Império contava cerca de 1 milhão de habitantes, e os domínios romanos como um todo tinham entre 40 e 70 milhões de pessoas, de acordo com estimativas modernas. Pode não parecer muito, mas em se tratando de tempos antigos são cifras colossais. Boa parte dos escritos desse período dá conta desses fatos: há ali descrições vivas das massas que se movimentavam pelos mercados, pelos teatros, pelos templos, pelas termas, pelos fóruns, pelas casernas, pelos jardins públicos e, claro, pelos circos romanos. A realidade imperial era bastante semelhante à nossa em diversos aspectos — apenas a escala era diferente.

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A “visão do alto”, um exemplo de meditação estoica

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As Plêiades, conjunto estelar na constelação de Touro, a cerca de 440 anos-luz da Terra (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

A filosofia antiga fazia uso de práticas de condicionamento mental tão refinadas quanto variadas. Os escritos que chegaram até nós trazem muitas marcas dessa maneira de conceber o caminho para a sabedoria, embora nos faltem instruções mais precisas do modo como tais exercícios eram levados a termo pelos filósofos. Graças ao trabalho de Pierre Hadot (1922-2010), contudo, parte dessa dificuldade foi sanada, e já é possível reconstituir em linhas gerais alguns dos exercícios espirituais dos antigos.

Certas anotações de Marco Aurélio em seu “diário filosófico” (as Meditações) consistem em uma exortação íntima a imaginar as coisas humanas e terrestres a partir de uma perspectiva longínqua: o imperador-filósofo entregava-se à tarefa de visualizar tudo quanto existe colocando-se para fora do tempo e do espaço por alguns minutos. Por meio do contraste entre a pequenez dos problemas, ambições, desejos e medos que Marco Aurélio reconhecia em si e em seus semelhantes e a vastidão do cosmos e da eternidade, cultivava-se a tranquilidade estoica:

Você pode eliminar muitas das coisas supérfluas que o incomodam, as quais residem unicamente em seu julgamento. E imediatamente abrirá para si um espaço grande e vasto, abarcando com o pensamento o universo inteiro, contemplando a eternidade do tempo e refletindo sobre a mudança rápida das coisas enquanto partes: quão breve o lapso do nascimento à dissolução, quão vasto o abismo do tempo antes do seu nascimento, quão igualmente infinito é o que há depois da sua dissolução. (Meditações, IX, 32)

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Como falar da filosofia estoica a um amigo

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É radical o compromisso dos estoicos com a vida prática — o resto não passa de palavrório (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

“facere docet philosophia, non dicere”

— Sêneca

Admito que não tenho a mínima ideia do modo como seria possível fazer o tópico “estoicismo” brotar no meio de uma conversa que se dê em, digamos, condições normais de temperatura e pressão. Não temos o hábito de discorrer sobre figuras históricas, correntes de pensamento ou exigências éticas, antigas ou atuais, quando na presença de amigos. Além disso, imersos em nossos cotidianos, é para espairecer ou nos atualizar dos últimos eventos na vida dos que estão longe que nos dedicamos a uns bons dedos de prosa. Excepcionalmente, quando um dos pares se sente oprimido por uma angústia, a conversa gira em torno de uma confissão e uma opinião “externa”, interessada no bem do outro.

Contudo, as amizades têm uma dimensão ética incontornável: supomos que nossos amigos sejam confiáveis e que valorizem mais ou menos as mesmas coisas que nós. Ninguém toma por amigo um indivíduo que não dê mostras de alguma solidez moral, que não esteja razoavelmente à altura do que julgamos ser o nosso caráter. Quanto maior a atenção dada a tais questões, maior a exigência relativamente aos que desfrutam de nossa amizade — e maiores as retribuições da intimidade compartilhada. Quem se importa com o aperfeiçoamento pessoal, por exemplo, dificilmente admitirá um sujeito de costumes dúbios no rol dos amigos e se verá obrigado a abandonar certas relações ao longo da vida.

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“Crescendo como estoico: Uma educação filosófica voltada para o caráter, a persistência e a garra” — Leah Goldrick*

© Direitos autorais reservados.

Traduzido e reproduzido com a permissão da autora (texto original).

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Instilar nas crianças um senso de nobreza pode protegê-las de erros que embaraçam a vida (fonte da foto)

A verdade desagradável é que muitos estudantes ao redor do mundo jamais receberão nenhum tipo que seja de educação filosófica. Em geral, a filosofia é vista como um exercício inútil, reservado a eruditos em suas torres de marfim. A inclusão dessa matéria nos currículos das crianças em idade de escola primária é rara, especialmente nos Estados Unidos, e alguns acadêmicos questionam se pré-adolescentes têm mesmo a capacidade de investigação filosófica.

Essa asserção baseia-se provavelmente na premissa de que a filosofia é, em última análise, mais teórica do que prática. Ela negligencia o potencial que pais e responsáveis argutos têm de ensinar a crianças pequenas como uma perspectiva filosófica pode tornar suas vidas felizes e providas de significado.

Onde os pais podem encontrar um roteiro de aprendizado capaz de ajudar as crianças a desenvolver um caráter forte e lidar com os desafios que a vida inevitavelmente lhes lançará no caminho? E se a fórmula em questão for algo já existente e capaz de apresentar as crianças pequenas à filosofia dentro de casa, por meio de atividades práticas e do diálogo?

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“Os votos do estoico” — Massimo Pigliucci*

© Direitos autorais reservados.

Traduzido e reproduzido com a permissão do autor (texto original).

Zenão

Nota do tradutor: O texto que se lê a seguir é a tradução de um original (“The Stoic Pledge”) escrito por Massimo Pigliucci no qual se formulam certos princípios que o aspirante estoico à sabedoria (o prokópton) deveria ter sempre em mente. Embora voltado a pessoas que estejam há mais tempo praticando o estoicismo (é observação do próprio autor), creio que qualquer um possa tirar proveito destes votos, a serem periodicamente enunciados e renovados de si para si. Cada um pode tomar a liberdade de adicionar ou suprimir votos, se assim o quiser, ou suplementar os já existentes com citações que lhe falem mais de perto. Eu, por exemplo, criei a minha própria versão deste juramento, acrescentando itens que tratam da necessidade de se evitar a ira, de ver-se como parte do cosmos e de meditar cotidianamente na morte. Conheçam-se a si próprios e divirtam-se! 

Como prokópton comprometo-me a seguir estes preceitos e regras de conduta:

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Manual de Epicteto, 2: O propósito do desejo e da repulsa

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A Fortuna não tem deferência nenhuma pelo que buscamos obter ou evitar (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

1. Lembra que o propósito do desejo é obter o que se deseja, [e] o propósito da repulsa é não se deparar com o que se evita. Quem falha no desejo é não afortunado. Quem se depara com o que evita é desafortunado. Caso, entre as coisas que são teus encargos, somente rejeites as que são contrárias à natureza, não te depararás com nenhuma coisa que evitas. Caso rejeites a doença, a morte ou a pobreza serás desafortunado. 2. Então retira a repulsa de todas as coisas que não sejam encargos nossos e transfere-a para as coisas que, sendo encargos nossos, são contrárias à natureza. Por ora, suspende por completo o desejo, pois se desejares alguma das coisas que não sejam encargos nossos, necessariamente não serás afortunado. Das coisas que são encargos nossos, todas quantas seria belo desejar, nenhuma está ao teu alcance ainda. Assim, faz uso somente do impulso e do refreamento, sem excesso, com reserva e sem constrangimento.

Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien

COMENTÁRIO

O Manual de Epicteto é um verdadeiro vade-mecum para quem aspira à sabedoria estoica. No trecho que acabamos de ler, comparece novamente a forma imperativa do verbo lembrar: “lembra”, mémnēso. Epicteto esperava que os alunos de sua escola interiorizassem as regras e explicações por ele dadas ao longo das aulas, mas não ignorava a tendência humana ao esquecimento das coisas essenciais. Também nós, nascidos muitos séculos depois, precisamos meditar e nos exercitar com frequência para termos sempre ao alcance da memória um preceito que nos ajude a decidir como agir bem em circunstâncias difíceis ou pouco claras.

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