Manual de Epicteto, 5: A inquietação deriva das opiniões

Morte de Sócrates
Com tranquilidade, Sócrates bebe a cicuta em quadro de Charles Alphonse du Fresnoy (1611-1668) (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

(a) As coisas não inquietam os homens, mas as opiniões sobre as coisas. Por exemplo: a morte nada tem de terrível, ou também a Sócrates teria se afigurado assim, mas é a opinião a respeito da morte — de que ela é terrível — que é terrível! Então, quando se nos apresentarem entraves, ou nos inquietarmos, ou nos afligirmos, jamais consideraremos outra coisa a causa senão nós mesmos — isto é: as nossas próprias opiniões.

(b) É ação de quem não se educou acusar os outros pelas coisas que ele próprio faz erroneamente. De quem começou a se educar, acusar a si próprio. De quem já se educou, não acusar os outros nem a si próprio.

Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien

COMENTÁRIO

Ao lermos o que Epicteto diz neste ponto do Manual, é possível que experimentemos duas reações interiores, em sequência e contraditórias. A primeira delas é de concordância com o enunciado geral: é fácil convencer-se de que não são as coisas que nos afetam, e sim nossas opiniões a respeito delas, ainda mais se temos em mente que as pessoas, confrontadas com situações iguais, acabam reagindo de maneiras diferentes. Assim, a um parece insuportável um tratamento dentário doloroso e complexo, a outro suportável; um dá cabo rapidamente do rato que lhe apareceu em casa, outro se paralisa com medo ou nojo do roedor; um consegue concentrar-se no meio de uma sala barulhenta, outro se sente incomodado com a algazarra. Percepções diferentes produzem ações também diferentes.

Nossa segunda reação, contudo, põe em xeque o assentimento que demos à primeira proposição ou afirmativa: “a morte nada tem de terrível” (ho thánatos oudèn deinón). Como assim? Haverá constante humana mais universalmente observável do que o medo da morte? Qual de nós não teme a morte? Quem não deseja preservar-se a si mesmo pelo maior tempo possível? Dando-se a um contrassenso tão flagrante, o estoicismo de Epicteto nos aparece sob uma luz particularmente negativa: como uma filosofia inumana, se não risível.

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Notas estoicas, 4: O estoicismo e as relações familiares

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É inútil (e desgastante) tentar controlar nossos parentes, mas não a maneira como os tratamos (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

O homem de bem não se desentende com ninguém de sua própria iniciativa e, tanto quanto pode, impede os outros de fazê-lo. A vida de Sócrates nos fornece também um exemplo deste fato: ele não somente evitava brigar com os demais, mas também impedia o desentendimento entre outros. Veja no Banquete de Xenofonte quantos conflitos ele apaziguou; por quanto tempo ele suportou Trasímaco, Polo e Cálicles; como ele tolerava sua esposa e até o filho, que buscava refutá-lo com sofismas. Pois ele se lembrava sempre de que nenhum homem tem poder sobre a faculdade diretora de outro. Não desejou, portanto, nada que dele mesmo não fosse. E o que era isso? Não era fazer alguém agir em conformidade com a natureza (pois é coisa que pertence a outrem), mas, enquanto os outros tratam o que é deles como lhes apraz, manter-se em um estado conforme com a natureza, limitar-se a seus próprios atos de modo que os outros se ponham, por seu turno, em conformidade com a natureza. Eis o que é sempre objetivo do homem de bem. Será o de tornar-se pretor? Não, mas se esse posto lhe cabe em sorte, ele conserva intacta sua faculdade diretora em tal circunstância. Será o de casar-se? Não, mas se lhe é dado casar-se, ele se mantém em um estado de conformidade com a natureza em tal circunstância. Porém, se ele quisesse que um filho ou uma esposa não cometesse erros, estaria querendo que aquilo que pertence a outrem não pertencesse a outrem. E ser instruído [na filosofia] é exatamente isto: aprender aquilo que é próprio de si e o que é de outro. (Epicteto, Diatribes, IV, 5: 1-7)

Uma das características distintivas das relações familiares é que elas não se baseiam no poder de eleição dos indivíduos, sendo totalmente independentes de nossas escolhas (ou quase sempre assim). Trata-se de uma realidade tão fundamental que, se quiséssemos definir o ser humano em chave biológico-filosófica, poderíamos ser levados à constatação de que todo e qualquer um de nós é filho de duas outras pessoas, um pai e uma mãe, ainda que possamos não vir a conhecê-los. O homem é sempre aquele ser que é filho de alguém. Acresce a isso o fato de que muitos de nós têm ainda irmãos e poderão vir a tornar-se progenitores um dia, o que cria uma rede complexa de relações que inclui, para além do núcleo doméstico mais convencional, avós, tios, primos, sobrinhos e — por que não? — irmãos de criação. Em tal configuração, uma multiplicidade de conflitos razoavelmente duradouros pode surgir. E, como ninguém o ignora, eles não podem ser resolvidos como os de outra natureza: não é possível pedir demissão de sua própria família, nem mudar-se dela como se muda de casa, nem contratar parentes que nos sejam mais satisfatórios. Arbitrariedade das arbitrariedades da Fortuna, a família é um grande laboratório da tolerância — ao menos para aqueles que têm mais horror às lamúrias que aos obstáculos que a vida cria.

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Notas estoicas, 1: Cleanto de Assos e as virtudes asininas

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Cleanto tomou o asno como um animal que conotava resistência e perseverança (fonte da foto)

[Cleanto] era muito aplicado, mas não tinha grandes dons naturais, sendo de intelecto exageradamente lento. Foi por isso que Tímon [de Fliunte, filósofo cético discípulo de Pirro] disse a seu respeito [parodiando a Ilíada, III, 232-234]:

Quem é esse carneiro que por entre as fileiras

dos homens avança, esse ser obtuso, amante de versos,

massa rochosa e pusilânime, natural de Assos?

Ele suportava pacientemente as zombarias de seus condiscípulos. Ao ser chamado de asno, não se incomodava com isso, dizendo ser o único que podia carregar os fardos que Zenão lhe punha em cima. (Diógenes Laércio, Vidas e opiniões dos filósofos ilustres, VII, 5: 170)

Principal discípulo de Zenão de Cítio e segundo diretor da escola estoica, Cleanto de Assos (ca. 330 – ca. 230 a.C.) não passou para a história como um renovador da filosofia ou um criador de conceitos. Diz-se que foi na juventude um atleta pobre (talvez um lutador) que chegou a Atenas com apenas quatro dracmas. Muito trabalhador, sujeitava-se a uma ocupação bastante humilde — era o responsável pela irrigação de um jardim — durante a noite, de onde tirava o sustento para as necessidades básicas e para as aulas de filosofia na escola de Zenão, a que assistia de dia. Vivia com tamanha frugalidade que chegava a ter economias, dizendo ser capaz de alimentar outro Cleanto com o pouco que ganhava, se tal fosse preciso.

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