Manual de Epicteto, 3: Do bom uso dos afetos

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Mais cedo ou menos cedo, tudo o que amamos se perderá irreparavelmente (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Sobre cada uma das coisas que seduzem, tanto as que se prestam ao uso quanto as que são amadas, lembra[-te] de dizer de que qualidade ela é, começando a partir das menores coisas. Caso ames um vaso de argila, [diz] que “Eu amo um vaso de argila”, pois se ele se quebrar, não te inquietarás. Quando beijares ternamente teu filho ou tua mulher, [diz] que beijas um ser humano, pois se morrerem, não te inquietarás.

Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien

COMENTÁRIO

A tranquilidade prometida pelo estoicismo tem um nível alto de exigência. Não nos é difícil constatar, ocasionalmente, a fragilidade de tudo quanto nos cerca: temos ciência de que nos movemos em um mundo de coisas transitórias e de que nossa própria vida se inscreve nessa categoria de coisas. A sabedoria popular está repleta de ditados que dão conta da impermanência e mesmo da precariedade da existência como um todo. A questão é que tais momentos em que vemos as coisas de maneira clara permanecem raros como lampejos; dificilmente temos a disposição de revisitá-los com a constância necessária para atingirmos uma clarividência genuína.

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“Os votos do estoico” — Massimo Pigliucci*

© Direitos autorais reservados.

Traduzido e reproduzido com a permissão do autor (texto original).

Zenão

Nota do tradutor: O texto que se lê a seguir é a tradução de um original (“The Stoic Pledge”) escrito por Massimo Pigliucci no qual se formulam certos princípios que o aspirante estoico à sabedoria (o prokópton) deveria ter sempre em mente. Embora voltado a pessoas que estejam há mais tempo praticando o estoicismo (é observação do próprio autor), creio que qualquer um possa tirar proveito destes votos, a serem periodicamente enunciados e renovados de si para si. Cada um pode tomar a liberdade de adicionar ou suprimir votos, se assim o quiser, ou suplementar os já existentes com citações que lhe falem mais de perto. Eu, por exemplo, criei a minha própria versão deste juramento, acrescentando itens que tratam da necessidade de se evitar a ira, de ver-se como parte do cosmos e de meditar cotidianamente na morte. Conheçam-se a si próprios e divirtam-se! 

Como prokópton comprometo-me a seguir estes preceitos e regras de conduta:

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Manual de Epicteto, 2: O propósito do desejo e da repulsa

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A Fortuna não tem deferência nenhuma pelo que buscamos obter ou evitar (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

1. Lembra que o propósito do desejo é obter o que se deseja, [e] o propósito da repulsa é não se deparar com o que se evita. Quem falha no desejo é não afortunado. Quem se depara com o que evita é desafortunado. Caso, entre as coisas que são teus encargos, somente rejeites as que são contrárias à natureza, não te depararás com nenhuma coisa que evitas. Caso rejeites a doença, a morte ou a pobreza serás desafortunado. 2. Então retira a repulsa de todas as coisas que não sejam encargos nossos e transfere-a para as coisas que, sendo encargos nossos, são contrárias à natureza. Por ora, suspende por completo o desejo, pois se desejares alguma das coisas que não sejam encargos nossos, necessariamente não serás afortunado. Das coisas que são encargos nossos, todas quantas seria belo desejar, nenhuma está ao teu alcance ainda. Assim, faz uso somente do impulso e do refreamento, sem excesso, com reserva e sem constrangimento.

Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien

COMENTÁRIO

O Manual de Epicteto é um verdadeiro vade-mecum para quem aspira à sabedoria estoica. No trecho que acabamos de ler, comparece novamente a forma imperativa do verbo lembrar: “lembra”, mémnēso. Epicteto esperava que os alunos de sua escola interiorizassem as regras e explicações por ele dadas ao longo das aulas, mas não ignorava a tendência humana ao esquecimento das coisas essenciais. Também nós, nascidos muitos séculos depois, precisamos meditar e nos exercitar com frequência para termos sempre ao alcance da memória um preceito que nos ajude a decidir como agir bem em circunstâncias difíceis ou pouco claras.

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