Manual de Epicteto, 4: Antecipação das contrariedades e tranquilidade

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Em um mundo de multidões, são múltiplos os entraves e contratempos; saibamos antecipá-los (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Quando estiveres prestes a empreender alguma ação, recorda-te de que qualidade ela é. Se fores aos banhos, considera o que acontece na sala de banho: pessoas que espirram água, empurram, insultam, roubam. Empreenderás a ação com mais segurança se assim disseres prontamente: “Quero banhar-me e manter a minha escolha segundo a natureza”. E do mesmo modo para cada ação. Pois se houver algum entrave ao banho, terás à mão que “Eu não queria unicamente banhar-me, mas também manter minha escolha segundo a natureza — e não a manterei se me irritar com os acontecimentos”.

Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien

COMENTÁRIO

A consolidação do Império Romano significou muitas coisas. Dentre elas, a emergência das multidões. Entre os séculos I e II, a capital do Império contava cerca de 1 milhão de habitantes, e os domínios romanos como um todo tinham entre 40 e 70 milhões de pessoas, de acordo com estimativas modernas. Pode não parecer muito, mas em se tratando de tempos antigos são cifras colossais. Boa parte dos escritos desse período dá conta desses fatos: há ali descrições vivas das massas que se movimentavam pelos mercados, pelos teatros, pelos templos, pelas termas, pelos fóruns, pelas casernas, pelos jardins públicos e, claro, pelos circos romanos. A realidade imperial era bastante semelhante à nossa em diversos aspectos — apenas a escala era diferente.

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Manual de Epicteto, 3: Do bom uso dos afetos

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Mais cedo ou menos cedo, tudo o que amamos se perderá irreparavelmente (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Sobre cada uma das coisas que seduzem, tanto as que se prestam ao uso quanto as que são amadas, lembra[-te] de dizer de que qualidade ela é, começando a partir das menores coisas. Caso ames um vaso de argila, [diz] que “Eu amo um vaso de argila”, pois se ele se quebrar, não te inquietarás. Quando beijares ternamente teu filho ou tua mulher, [diz] que beijas um ser humano, pois se morrerem, não te inquietarás.

Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien

COMENTÁRIO

A tranquilidade prometida pelo estoicismo tem um nível alto de exigência. Não nos é difícil constatar, ocasionalmente, a fragilidade de tudo quanto nos cerca: temos ciência de que nos movemos em um mundo de coisas transitórias e de que nossa própria vida se inscreve nessa categoria de coisas. A sabedoria popular está repleta de ditados que dão conta da impermanência e mesmo da precariedade da existência como um todo. A questão é que tais momentos em que vemos as coisas de maneira clara permanecem raros como lampejos; dificilmente temos a disposição de revisitá-los com a constância necessária para atingirmos uma clarividência genuína.

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“Verdades duras e felicidade” — John Sellars*

© Direitos autorais reservados.

Traduzido e reproduzido com a permissão do autor (texto original).

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Encarar as verdades duras e compreender a Natureza (fonte da foto)

Não pude estar presente ao evento da Stoicon em Nova York, realizado em outubro de 2016, mas eis um primeiro rascunho bruto do que teria sido ali minha contribuição.

Há um podcast australiano, encontrável online, que tem por título “Philosophy can ruin your life” [“A filosofia pode arruinar a sua vida”]. O motivo por detrás do título deliberadamente provocador é, suponho, lançar um desafio ao modo como alguns vêm tentando cooptar a filosofia para aquilo que às vezes é chamado de “indústria da felicidade”. Existe uma variedade de meios pelos quais a filosofia pode tornar as pessoas infelizes. A ignorância, diz o ditado, é uma bênção; com frequência as pessoas forjam para si narrativas e explicações fictícias para se sentirem melhor quanto à vida que levam e ao lugar que têm no mundo. Em contraste com isso, as verdades filosóficas — até o ponto em que alguma delas de fato possa ser encontrada — podem revelar-se bem pouco reconfortantes.

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