Os corpos e os incorpóreos no estoicismo

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A física estoica atribuía corporeidade à todas as coisas, mesmo à alma e às virtudes (fonte da foto)

Por Diogo da Luz

OS CORPOS

A física estoica diverge da ideia que se tem de física na contemporaneidade. Ela envolve, dentre outros, o estudo da interação entre corpos (sṓmata), sendo estes definidos como os que têm a capacidade de agir e de sofrer ação; há também a possibilidade de um corpo somente agir (como o lógos[1]) ou somente sofrer ação (como a matéria). Os corpos são os únicos entes que existem verdadeiramente, e interagem através da relação de causalidade.

Um exemplo de interação entre corpos pode ser encontrado em Sêneca. Segundo ele, o bem é um corpo, pois move e, de certa maneira, dá forma e conteúdo às almas. As almas são também corpos, visto que agem e são suscetíveis à ação. Desse modo, as virtudes são igualmente corpóreas, assim como as paixões e as doenças da alma. São corpóreas, por exemplo, tanto a inveja e a crueldade quanto a alegria e a sinceridade[2].

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O que promete e o que requer de nós o estoicismo

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O que mais belo há no estoicismo é sua visão do Cosmos como um grande ser vivo (fonte da foto)

Por Aldo Dinucci*

Eu não sou sábio e (que tua maledicência seja satisfeita) não o serei. Exige de mim,  portanto, não que eu seja igual aos bons, mas unicamente melhor que os maus. Basta-me a cada dia cortar algum de meus vícios e refrear meus desvarios.

Essa citação é de Sêneca, em seu diálogo Da vida Feliz (XVII, 3) e trata-se de uma profissão socrática de ignorância. Como todos sabem, é princípio básico da sabedoria do Sócrates da Apologia de Sócrates, de Platão, a afirmação de que a sabedoria de todo humano é pouco ou nada se comparada à sabedoria divina. Ora, pra que serve dizer a si mesmo a cada dia que nada se sabe? Serve, creio eu, para evitar que se caia na ilusão de possuir portentosa sabedoria. Serve para ter bem claro na mente que todo conhecimento humano, o que inclui nossos estudos sobre estoicismo ou o que for, é uma aventura errante.

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As meditações diárias, 1: A meditação matinal ou prospectiva

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Exercício matinal: os pitagóricos saúdam a aurora em tela de Fiódor Bronnikov (1827-1902) (fonte da foto)

 

Por Donato Ferrara

Nota: Este artigo tem por objetivo citar e discutir com alguma minúcia as passagens dos escritos estoicos (e de outras escolas) em que se fala da meditação que abria o dia de um prokópton. Por tal motivo, a parte teórica e histórica deste texto tem uma extensão razoável. Aos que desejem um tratamento mais imediato do tema, peço irem diretamente à seção “Resumo prático”. Foram fundamentais para mim a seleção de citações do Daily Stoic e a do Stoic Journey, além do capítulo “O exame de consciência entre os antigos”, da obra Estudos morais sobre a Antiguidade, de B.-C. Martha.

TEORIA E HISTÓRIA

A prática da meditação matinal ou prospectiva, na qual o aspirante à sabedoria se preparava para o dia que principiava teve sua origem, ao que parece, no pitagorismo. Jâmblico (ca. 245-325), filósofo neoplatônico, observa que os discípulos de Pitágoras faziam caminhadas solitárias pela manhã, indo a lugares ermos e sagrados para seus exercícios de contemplação. Eles não consideravam aconselhável entrar em contato com outros indivíduos antes de seus instantes de recolhimento matutino (cf. Vida de Pitágoras, XXI). Em outro ponto da mesma obra, Jâmblico anota o seguinte:

Eles [os pitagóricos] tinham de acordar antes do nascer do sol… Tinham de adorar o sol nascente. Pitágoras ordenava-lhes que nada fizessem sem deliberação ou discussão prévias — planejando, pela manhã, o que seria feito mais tarde e revisitando, à noite, as ações do dia, o que servia ao duplo propósito de fortalecer a memória e avaliar a conduta. (Vida de Pitágoras, XXXV)

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Manual de Epicteto, 3: Do bom uso dos afetos

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Mais cedo ou menos cedo, tudo o que amamos se perderá irreparavelmente (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Sobre cada uma das coisas que seduzem, tanto as que se prestam ao uso quanto as que são amadas, lembra[-te] de dizer de que qualidade ela é, começando a partir das menores coisas. Caso ames um vaso de argila, [diz] que “Eu amo um vaso de argila”, pois se ele se quebrar, não te inquietarás. Quando beijares ternamente teu filho ou tua mulher, [diz] que beijas um ser humano, pois se morrerem, não te inquietarás.

Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien

COMENTÁRIO

A tranquilidade prometida pelo estoicismo tem um nível alto de exigência. Não nos é difícil constatar, ocasionalmente, a fragilidade de tudo quanto nos cerca: temos ciência de que nos movemos em um mundo de coisas transitórias e de que nossa própria vida se inscreve nessa categoria de coisas. A sabedoria popular está repleta de ditados que dão conta da impermanência e mesmo da precariedade da existência como um todo. A questão é que tais momentos em que vemos as coisas de maneira clara permanecem raros como lampejos; dificilmente temos a disposição de revisitá-los com a constância necessária para atingirmos uma clarividência genuína.

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“Verdades duras e felicidade” — John Sellars*

© Direitos autorais reservados.

Traduzido e reproduzido com a permissão do autor (texto original).

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Encarar as verdades duras e compreender a Natureza (fonte da foto)

Não pude estar presente ao evento da Stoicon em Nova York, realizado em outubro de 2016, mas eis um primeiro rascunho bruto do que teria sido ali minha contribuição.

Há um podcast australiano, encontrável online, que tem por título “Philosophy can ruin your life” [“A filosofia pode arruinar a sua vida”]. O motivo por detrás do título deliberadamente provocador é, suponho, lançar um desafio ao modo como alguns vêm tentando cooptar a filosofia para aquilo que às vezes é chamado de “indústria da felicidade”. Existe uma variedade de meios pelos quais a filosofia pode tornar as pessoas infelizes. A ignorância, diz o ditado, é uma bênção; com frequência as pessoas forjam para si narrativas e explicações fictícias para se sentirem melhor quanto à vida que levam e ao lugar que têm no mundo. Em contraste com isso, as verdades filosóficas — até o ponto em que alguma delas de fato possa ser encontrada — podem revelar-se bem pouco reconfortantes.

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