Catão de Útica diante da morte

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Catão enterra a espada em seu peito em tela de Jean-Paul Laurens (1838-1921) (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

A vida e a morte de Marco Pórcio Catão, o Jovem, confundem-se em tal grau com os últimos lances da República romana que é impossível entender a figura fora do contexto histórico que a forjou — assim como é impossível compreender tal contexto sem a menção ao papel de Catão. Bisneto homônimo de outro Catão (234-149), dito o Velho, que fora o severo censor romano durante a Segunda Guerra Púnica (218-201 a.C.), ele nasceu em Roma no ano de 95 e faleceu em 46 antes de Cristo na cidade de Útica, próxima a Cartago (região da atual Tunísia). Por ter morrido ali, naquela praça-forte africana que era o último reduto dos defensores da República, seus admiradores próximos passaram a chamá-lo de Catão de Útica ou Catão Uticense, seguindo uma tradição que atrelava a denominação da localidade em que se dera o falecimento de uma pessoa ilustre ao próprio nome dela.

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Manual de Epicteto, 5: A inquietação deriva das opiniões

Morte de Sócrates
Com tranquilidade, Sócrates bebe a cicuta em quadro de Charles Alphonse du Fresnoy (1611-1668) (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

(a) As coisas não inquietam os homens, mas as opiniões sobre as coisas. Por exemplo: a morte nada tem de terrível, ou também a Sócrates teria se afigurado assim, mas é a opinião a respeito da morte — de que ela é terrível — que é terrível! Então, quando se nos apresentarem entraves, ou nos inquietarmos, ou nos afligirmos, jamais consideraremos outra coisa a causa senão nós mesmos — isto é: as nossas próprias opiniões.

(b) É ação de quem não se educou acusar os outros pelas coisas que ele próprio faz erroneamente. De quem começou a se educar, acusar a si próprio. De quem já se educou, não acusar os outros nem a si próprio.

Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien

COMENTÁRIO

Ao lermos o que Epicteto diz neste ponto do Manual, é possível que experimentemos duas reações interiores, em sequência e contraditórias. A primeira delas é de concordância com o enunciado geral: é fácil convencer-se de que não são as coisas que nos afetam, e sim nossas opiniões a respeito delas, ainda mais se temos em mente que as pessoas, confrontadas com situações iguais, acabam reagindo de maneiras diferentes. Assim, a um parece insuportável um tratamento dentário doloroso e complexo, a outro suportável; um dá cabo rapidamente do rato que lhe apareceu em casa, outro se paralisa com medo ou nojo do roedor; um consegue concentrar-se no meio de uma sala barulhenta, outro se sente incomodado com a algazarra. Percepções diferentes produzem ações também diferentes.

Nossa segunda reação, contudo, põe em xeque o assentimento que demos à primeira proposição ou afirmativa: “a morte nada tem de terrível” (ho thánatos oudèn deinón). Como assim? Haverá constante humana mais universalmente observável do que o medo da morte? Qual de nós não teme a morte? Quem não deseja preservar-se a si mesmo pelo maior tempo possível? Dando-se a um contrassenso tão flagrante, o estoicismo de Epicteto nos aparece sob uma luz particularmente negativa: como uma filosofia inumana, se não risível.

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Marco Aurélio diante da morte

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Tendo Cômodo à mão esquerda, Marco Aurélio diz as últimas palavras em tela de Delacroix (1798-1863) (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

O período compreendido entre 161 e 180 foi dos mais atribulados da história romana. Marco Aurélio, assumindo o trono depois da morte de Antonino Pio, em 7 de março, herdou do pai adotivo um império com problemas administrativos advindos de seu gigantismo e assediado por povos estrangeiros em muitas fronteiras. Para a tarefa de governar, ele fez-se coroar ao lado de Lúcio Vero, seu irmão por adoção, o qual viveu até 169. Pensando apenas nos episódios militares de maior relevo, em muitos dos quais Marco Aurélio tomou parte pessoalmente, vemos que houve guerras contra os partos entre 161 e 166, problemas com os germânicos de 167 em diante, batalhas contra os marcomanos a partir de 168 — estes chegaram às portas da Itália, junto com os quados, dois anos depois, e só foram derrotados em 172. O soberano de Roma ainda teve de medir-se com os iáziges nômades em 174, além de garantir a pacificação de suas tropas orientais quando Avídio Cássio, seu principal general, tentou rebelar-se e tomar o poder, sendo morto em 175. O império também foi sacudido por calamidades, como uma grande inundação do Tibre por volta de 162, surtos de peste que se sucederam entre 165 e 180, havendo, de mais a mais, terremotos na cidade de Esmirna (Ásia Menor) em 178.

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Sêneca diante da morte

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Sêneca é pranteado por seus amigos em tela de Manuel Domínguez Sánchez (1840-1906) (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Lúcio Aneu Sêneca era homem de grandes defeitos. Assumidamente, aliás. Sobre sua atuação como político e a conveniência de sua filosofia com a vida que levou, as opiniões sempre divergiram bastante. Homem vastamente rico, não foram poucos os que o acusaram de hipocrisia por dizer, como estoico, que os bens materiais eram coisa indiferente — embora nenhum contemporâneo tenha afirmado que vivesse em fasto escandaloso. Sua proximidade com Nero tornava-o detestável a boa parte do Senado; fora preceptor do futuro imperador, a pedido da mãe deste, Agripina, e enquanto teve ascendência sobre o jovem monarca, nos primeiros anos do reinado, o Império teve boa administração. As relações entre imperador e seu antigo mestre deterioram-se progressivamente, à medida que o caráter tirânico de Nero tornou-se mais e mais manifesto. Sêneca, entretanto, continuou gravitando em torno do poder imperial, talvez por pensar que fosse possível mitigar a crueldade do soberano por meio de sua influência — no que falhou redondamente. Em 62, com a morte de Sexto Afrânio Burro, chefe da guarda pretoriana, o imperador sentiu-se ainda mais confortável para eliminar agentes políticos incômodos. A descoberta da conspiração de Caio Calpúrnio Pisão, três anos depois, deu a Nero o pretexto que faltava para livrar-se de Sêneca e de outras figuras proeminentes.

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Manual de Epicteto, 3: Do bom uso dos afetos

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Mais cedo ou menos cedo, tudo o que amamos se perderá irreparavelmente (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Sobre cada uma das coisas que seduzem, tanto as que se prestam ao uso quanto as que são amadas, lembra[-te] de dizer de que qualidade ela é, começando a partir das menores coisas. Caso ames um vaso de argila, [diz] que “Eu amo um vaso de argila”, pois se ele se quebrar, não te inquietarás. Quando beijares ternamente teu filho ou tua mulher, [diz] que beijas um ser humano, pois se morrerem, não te inquietarás.

Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien

COMENTÁRIO

A tranquilidade prometida pelo estoicismo tem um nível alto de exigência. Não nos é difícil constatar, ocasionalmente, a fragilidade de tudo quanto nos cerca: temos ciência de que nos movemos em um mundo de coisas transitórias e de que nossa própria vida se inscreve nessa categoria de coisas. A sabedoria popular está repleta de ditados que dão conta da impermanência e mesmo da precariedade da existência como um todo. A questão é que tais momentos em que vemos as coisas de maneira clara permanecem raros como lampejos; dificilmente temos a disposição de revisitá-los com a constância necessária para atingirmos uma clarividência genuína.

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“Verdades duras e felicidade” — John Sellars*

© Direitos autorais reservados.

Traduzido e reproduzido com a permissão do autor (texto original).

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Encarar as verdades duras e compreender a Natureza (fonte da foto)

Não pude estar presente ao evento da Stoicon em Nova York, realizado em outubro de 2016, mas eis um primeiro rascunho bruto do que teria sido ali minha contribuição.

Há um podcast australiano, encontrável online, que tem por título “Philosophy can ruin your life” [“A filosofia pode arruinar a sua vida”]. O motivo por detrás do título deliberadamente provocador é, suponho, lançar um desafio ao modo como alguns vêm tentando cooptar a filosofia para aquilo que às vezes é chamado de “indústria da felicidade”. Existe uma variedade de meios pelos quais a filosofia pode tornar as pessoas infelizes. A ignorância, diz o ditado, é uma bênção; com frequência as pessoas forjam para si narrativas e explicações fictícias para se sentirem melhor quanto à vida que levam e ao lugar que têm no mundo. Em contraste com isso, as verdades filosóficas — até o ponto em que alguma delas de fato possa ser encontrada — podem revelar-se bem pouco reconfortantes.

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