Vergonha e culpa no estoicismo

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A vergonha e a culpa são desafios a qualquer vida guiada por exigências éticas (fonte da foto)

Por João Leite Ribeiro

“Amarga é a punição nascida da vergonha” — Sêneca.

Como lidar com grandes vergonhas ou grandes culpas?

Entendo que a vergonha seja nossa culpa vista pelos outros, e a culpa é aquela que é vista por nós mesmos.

“Quem peca, contra si peca” — Marco Aurélio.

Ou seja, ter a consciência tranquila é importante, não apenas escapar dos maus julgamentos dos outros. Já me disseram que na Grécia havia mais vergonha do que culpa, mas acredito que a responsabilidade era fundamental no estoicismo, e portanto o sentimento de culpa. Acredito que ambos os sentimentos eram difíceis.

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Quando a razão é insuficiente

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Muitos remédios que existem à nossa disposição podem dificultar-nos o uso da razão (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Não, este blog não foi abandonado. Não tenho publicado por aqui com a mesma assiduidade do ano passado, mas isso não quer dizer que não venho dedicando-me a escrever nada. Aliás, neste momento há boa dúzia e meia de textos começados, ruminados e mal e mal remendados, entre meus rascunhos. Vejamos se nas próximas semanas eles vêm à luz.

A dificuldade que experimento se explica em parte por circunstâncias que me reduziram o tempo livre, em parte por algo a que eu poderia chamar “falta de inspiração”. E minha inspiração se estiolou, tudo me indica, em decorrência de um episódio que abalou muito de minha confiança como alguém que propõe a si mesmo e aos outros o estoicismo como filosofia de vida viável para os tempos de hoje. Acredito que escrever sobre tal episódio me permitirá entendê-lo melhor. É o que pretendo fazer nas linhas seguintes.

Antes, serei claro mais uma vez: não sou um estoico, mas alguém interessado no estoicismoProcuro, dentro de meu entendimento e forças, praticar certos aspectos da filosofia estoica em meu cotidiano, dando muita vez com os burros n’água. Se méritos tenho neste blog, é como intérprete, meio impertinente, dessa filosofia: tive a sorte de encontrá-la e de aprender a navegar pelos textos que aqui cito; quero partilhar com meus leitores algo da alegria, surpreendente e sempre renovada, que experimento ao ver uma boa porção da vida iluminada por escritores que viveram muitos séculos atrás. Desejo que os que me leem se beneficiem ainda mais das ideias do Pórtico do que eu mesmo, que realizem plenamente o ideal da vida estoica, distante de mim.

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“Como o estoicismo me ajudou a superar a depressão” — Andrew Overby*

© Direitos autorais reservados.

Traduzido e reproduzido com a permissão do autor (texto original).

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A sabedoria estoica pode ser uma luz no fim do túnel (fonte da foto)

No princípio, todos queremos mudar o mundo. Os depressivos apegam-se a este impulso por mais tempo que a maioria, acho, e desse modo, quando se dá a constatação inevitável de que não se pode fazê-lo, “a ficha desaba” com peso maior.

A constatação de que cada um de nós não passa de um ator no palco global, e não seu principal arquiteto, é uma daquelas mudanças de consciência significativas, mas possivelmente sutis, que separam certos aspectos da juventude daqueles da idade adulta — tamanho é o seu efeito. Trata-se, talvez, de um dos primeiros resvalos da inteligência nas limitações humanas.

Os que têm propensões ao perfeccionismo e ao sonhar grande podem ser fortemente afetados por isso. Ser a um só tempo um sonhador diuturno e alguém que sabe que seus sonhos de mudar o mundo — ao influenciarem aquilo que se percebe como um destino ou uma força de vontade próprios — são extremamente improváveis de verificar-se é um convite para a visita do pensamento deprimente.

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“Honestidade nos negócios: Um experimento estoico” — Jacob Henricson*

© Direitos autorais reservados.

Traduzido e reproduzido com a permissão do autor (texto original).

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“Fale a verdade, ainda que sua voz fique trêmula” (fonte da foto)

Um dia decidi parar de mentir. Não me entendam mal: jamais tinha eu sido um grande mentiroso em minha vida pregressa, mas decidi — tanto quanto permitia a minha capacidade — não mentir de jeito nenhum. Defini algumas regras para casos limítrofes: por exemplo, evitar ou guardar para mim uma verdade quando os efeitos de proferi-la sejam prejudiciais a mim ou a outra pessoa (“fico bem com este vestido?”) é aceitável, mas não o é dizer uma mentira diretamente, por menor que seja.

O ímpeto para esta medida drástica surgiu com o meu interesse por levar uma vida estoica. Comecei recentemente, há cerca de um ano, quando minha atenção foi desperta pela simples citação de Epicteto:

Os seres humanos são perturbados não pelas coisas, mas pelos princípios e noções que formam a respeito delas. [Manual, 5.a]

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Bem-vindo a “De vita stoica”

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Estátua equestre de Marco Aurélio Antonino em Roma (fonte da foto)

Data de mais de meia década o meu interesse pelo estoicismo. Até então, já me ocorrera ler alguns trechos alentados de Sêneca e Epicteto, mas confesso-lhes que por volta de vinte e poucos anos uma filosofia antiga, centrada em problemas práticos, não tinha grande favor comigo. No campeonato de minhas atenções, ganhavam os escritos que privilegiassem aspectos de composição e estilo em detrimento dos que, de caráter normativo, buscassem um contato com a vida imediata, cotidiana.

O que mudou? Bem, em primeiro lugar, eu mesmo. Um tanto mais avançado em idade, fiquei mais suscetível a questionar-me sobre o uso que vinha fazendo de minha vida. Depois de algum peregrinar por posições mais ou menos radicais, compreendi que a política não satisfaz ou redime ninguém, embora a participação cívica seja importante e a indolência em tais matérias, defeito grave. Tive um reencontro breve com a fé de minha infância, mas ela não me deu respostas concretas nem tranquilidade: hoje eu a mantenho a distância segura, sem renegá-la nem acolhê-la. E finalmente, lendo a República de Platão sem muita paciência para metafísicas, vim a ter um vislumbre do que teria sido o indivíduo Sócrates — aquele que nos disse que devemos ser amantes do “espetáculo da verdade”. De Sócrates aos estoicos, é um pulo: a distância da ágora de Atenas ao Pórtico Pintado (Poikílē Stoá), que lhe ficava adjacente.

Também o mundo mudou — ou terá sido a minha visão do mundo que mudou — e hoje ele me parece bastante mais confuso e imprevisível que há dez, vinte anos. Ambivalente, a tecnologia avança e traz benefícios e problemas de grande impacto. Nossa dependência dos recursos tecnológicos nos fragiliza, ao acostumar-nos a confortos demais, nos sobrecarrega, ao inundar-nos com tanta informação, e nos tenta com controles ilusórios, ao fazer de nós mais espectadores que agentes conscientes da realidade circunstante. À falta de material humano, o escândalo e a inconsistência são a nova normalidade política. Os líderes religiosos não parecem à altura das tradições de que são depositários: vivem vidas como as nossas, falam como quaisquer de nós, e é possível que gostem mais de fama e de dinheiro do que nós próprios. E o fanatismo, que ainda não chegou ao Brasil, espalha seu rastro de sangue em outras partes do globo.

Ora, o que tem o estoicismo a ver com isso? Que respostas pode ele dar? Surpreendentemente, os escritos dos estoicos antigos contêm ensinamentos que podem ser proveitosos aos seres humanos de hoje. Sêneca, por exemplo, pode ensinar-nos a lidar com a ira; Musônio Rufo, a valorizar a vida simples; Epicteto, a disciplinar a mente; Marco Aurélio, a aceitar o transcurso inevitável do tempo. E muito mais não digo, que há todo um blog por fazer.

Este espaço se destinará a textos de minha autoria, sobretudo buscando mostrar a relevância do pensamento estoico em questões contemporâneas e desfazendo equívocos que até hoje existem, além de traduções de artigos de outros autores, dando ao público de língua portuguesa uma ideia do que se anda discutindo no exterior. Com isso, quero tornar mais claras para mim algumas noções e sedimentar certos modos de pensar e práticas do estoicismo.

Por fim, um esclarecimento: não me identifico como estoico. Meu temperamento me pôs bastante longe da imperturbabilidade, que é privilégio do sábio, tal como o postulava o Pórtico. É uma luta contra mim o que travo (e da qual muita vez saio perdedor). A vida estoica, da qual falarei aqui, é um ideal. Nada obstante, ler os estoicos periodicamente, refletir sobre o que dizem e pôr em prática seus ensinamentos são coisas que me têm enriquecido de modos que eu nem julgava possíveis de existir.

E eu gostaria de encorajar você a fazer o mesmo.