O professor estoico: Um guia para os perplexos* (I)

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Houve muitos professores estoicos na Antiguidade. Por que não no presente? (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Há cerca de dois anos fui agredido por um de meus alunos. Os golpes, um soco em meu ombro esquerdo e um empurrão, não tiveram força para machucar-me, ainda que me tenham atingido, de outra maneira. Por quinze anos eu tivera êxito em meus esforços por manter do lado de fora das salas onde leciono a atmosfera que, carregada, permeia tantos setores da sociedade brasileira: um isolamento quase hermético, talvez. Minhas aulas foram, quero crer, um refúgio que repelia as investidas da violência, da confusão e mesmo da vulgaridade a que muitos adolescentes são suscetíveis. Elas ainda são espaços razoavelmente protegidos, mas a precariedade de tal proteção apareceu-me à vista com grande claridade naquele momento. Não é de todo possível escapar à incivilidade quando ela está tão arraigada na cultura em que você vive. E o incidente, embora pouco importante, desiludiu-me — e desiludiu-me decisiva mas positivamente.

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Catão de Útica diante da morte

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Catão enterra a espada em seu peito em tela de Jean-Paul Laurens (1838-1921) (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

A vida e a morte de Marco Pórcio Catão, o Jovem, confundem-se em tal grau com os últimos lances da República romana que é impossível entender a figura fora do contexto histórico que a forjou — assim como é impossível compreender tal contexto sem a menção ao papel de Catão. Bisneto homônimo de outro Catão (234-149), dito o Velho, que fora o severo censor romano durante a Segunda Guerra Púnica (218-201 a.C.), ele nasceu em Roma no ano de 95 e faleceu em 46 antes de Cristo na cidade de Útica, próxima a Cartago (região da atual Tunísia). Por ter morrido ali, naquela praça-forte africana que era o último reduto dos defensores da República, seus admiradores próximos passaram a chamá-lo de Catão de Útica ou Catão Uticense, seguindo uma tradição que atrelava a denominação da localidade em que se dera o falecimento de uma pessoa ilustre ao próprio nome dela.

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Vergonha e culpa no estoicismo

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A vergonha e a culpa são desafios a qualquer vida guiada por exigências éticas (fonte da foto)

Por João Leite Ribeiro

“Amarga é a punição nascida da vergonha” — Sêneca.

Como lidar com grandes vergonhas ou grandes culpas?

Entendo que a vergonha seja nossa culpa vista pelos outros, e a culpa é aquela que é vista por nós mesmos.

“Quem peca, contra si peca” — Marco Aurélio.

Ou seja, ter a consciência tranquila é importante, não apenas escapar dos maus julgamentos dos outros. Já me disseram que na Grécia havia mais vergonha do que culpa, mas acredito que a responsabilidade era fundamental no estoicismo, e portanto o sentimento de culpa. Acredito que ambos os sentimentos eram difíceis.

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“A essência do estoicismo” — Massimo Pigliucci*

© Direitos autorais reservados.

Traduzido e reproduzido com a permissão do autor (texto original).

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O ovo, antigo emblema da filosofia estoica: a casca era a lógica; a clara, a ética; a gema, a física (fonte da foto)

Apesar do título deste artigo, não acredito em essências. Ao menos não no sentido de que uma ideia ou objeto complexo possam ser reduzidos a uma essência. Evidente, a “essência” do elemento Ouro pode ser concebida como o fato de ter número atômico 79, no sentido de que, para que algo seja Ouro, é tanto necessário quanto suficiente que a coisa em questão seja feita de átomos com 79 prótons. De modo similar, a “essência” da figura geométrica Triângulo é que a soma de seus ângulos internos seja 180 graus.

Mas poucas outras coisas na vida ou na natureza são passíveis de definições concisas em termos de condições necessárias e conjuntamente suficientes, como Wittgenstein o demonstrou de modo célebre no caso enganosamente simples de “jogo”. Tente fornecer uma pequena quantidade de condições que tenham de ser satisfeitas para que uma atividade se configure enquanto “jogo” e que a separem de todos os “não jogos”, e logo você se perderá em um aglomerado sempre crescente de atividades “semelhantes-mas-ainda-assim-não-as-mesmas”, compartilhando aquilo a que Wittgenstein se referiu como uma parecença familiar [Familienähnlichkeit] — mas não uma essência.

Se jogos não têm essências, não a têm também conceitos mais complexos como teorias científicas ou sistemas filosóficos. Portanto, não: não lhes fornecerei uma resposta à pergunta “o que é, essencialmente, o estoicismo?”, simplesmente porque não há resposta para isso. Ou, melhor ainda, porque se trata de uma pergunta mal formulada, para início de conversa.

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Manual de Epicteto, 4: Antecipação das contrariedades e tranquilidade

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Em um mundo de multidões, são múltiplos os entraves e contratempos; saibamos antecipá-los (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Quando estiveres prestes a empreender alguma ação, recorda-te de que qualidade ela é. Se fores aos banhos, considera o que acontece na sala de banho: pessoas que espirram água, empurram, insultam, roubam. Empreenderás a ação com mais segurança se assim disseres prontamente: “Quero banhar-me e manter a minha escolha segundo a natureza”. E do mesmo modo para cada ação. Pois se houver algum entrave ao banho, terás à mão que “Eu não queria unicamente banhar-me, mas também manter minha escolha segundo a natureza — e não a manterei se me irritar com os acontecimentos”.

Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien

COMENTÁRIO

A consolidação do Império Romano significou muitas coisas. Dentre elas, a emergência das multidões. Entre os séculos I e II, a capital do Império contava cerca de 1 milhão de habitantes, e os domínios romanos como um todo tinham entre 40 e 70 milhões de pessoas, de acordo com estimativas modernas. Pode não parecer muito, mas em se tratando de tempos antigos são cifras colossais. Boa parte dos escritos desse período dá conta desses fatos: há ali descrições vivas das massas que se movimentavam pelos mercados, pelos teatros, pelos templos, pelas termas, pelos fóruns, pelas casernas, pelos jardins públicos e, claro, pelos circos romanos. A realidade imperial era bastante semelhante à nossa em diversos aspectos — apenas a escala era diferente.

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A “visão do alto”, um exemplo de meditação estoica

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As Plêiades, conjunto estelar na constelação de Touro, a cerca de 440 anos-luz da Terra (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

A filosofia antiga fazia uso de práticas de condicionamento mental tão refinadas quanto variadas. Os escritos que chegaram até nós trazem muitas marcas dessa maneira de conceber o caminho para a sabedoria, embora nos faltem instruções mais precisas do modo como tais exercícios eram levados a termo pelos filósofos. Graças ao trabalho de Pierre Hadot (1922-2010), contudo, parte dessa dificuldade foi sanada, e já é possível reconstituir em linhas gerais alguns dos exercícios espirituais dos antigos.

Certas anotações de Marco Aurélio em seu “diário filosófico” (as Meditações) consistem em uma exortação íntima a imaginar as coisas humanas e terrestres a partir de uma perspectiva longínqua: o imperador-filósofo entregava-se à tarefa de visualizar tudo quanto existe colocando-se para fora do tempo e do espaço por alguns minutos. Por meio do contraste entre a pequenez dos problemas, ambições, desejos e medos que Marco Aurélio reconhecia em si e em seus semelhantes e a vastidão do cosmos e da eternidade, cultivava-se a tranquilidade estoica:

Você pode eliminar muitas das coisas supérfluas que o incomodam, as quais residem unicamente em seu julgamento. E imediatamente abrirá para si um espaço grande e vasto, abarcando com o pensamento o universo inteiro, contemplando a eternidade do tempo e refletindo sobre a mudança rápida das coisas enquanto partes: quão breve o lapso do nascimento à dissolução, quão vasto o abismo do tempo antes do seu nascimento, quão igualmente infinito é o que há depois da sua dissolução. (Meditações, IX, 32)

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Manual de Epicteto, 3: Do bom uso dos afetos

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Mais cedo ou menos cedo, tudo o que amamos se perderá irreparavelmente (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Sobre cada uma das coisas que seduzem, tanto as que se prestam ao uso quanto as que são amadas, lembra[-te] de dizer de que qualidade ela é, começando a partir das menores coisas. Caso ames um vaso de argila, [diz] que “Eu amo um vaso de argila”, pois se ele se quebrar, não te inquietarás. Quando beijares ternamente teu filho ou tua mulher, [diz] que beijas um ser humano, pois se morrerem, não te inquietarás.

Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien

COMENTÁRIO

A tranquilidade prometida pelo estoicismo tem um nível alto de exigência. Não nos é difícil constatar, ocasionalmente, a fragilidade de tudo quanto nos cerca: temos ciência de que nos movemos em um mundo de coisas transitórias e de que nossa própria vida se inscreve nessa categoria de coisas. A sabedoria popular está repleta de ditados que dão conta da impermanência e mesmo da precariedade da existência como um todo. A questão é que tais momentos em que vemos as coisas de maneira clara permanecem raros como lampejos; dificilmente temos a disposição de revisitá-los com a constância necessária para atingirmos uma clarividência genuína.

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