O Estoicismo é a língua universal

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O Estoicismo foi provavelmente a primeira corrente filosófica que reconheceu a igualdade entre todas as pessoas (fonte da foto)

Por Paula Trindade e Kai Whiting

O Estoicismo foi provavelmente a primeira corrente filosófica que reconheceu a igualdade entre todas as pessoas. Para os antigos estoicos, o caminho para a felicidade estaria aberto a todos, pelo simples facto de se ser um humano. Não dependia do género, da origem ou da cidadania. Mais ainda, os estoicos defenderam que qualquer pessoa poderia aceder ao bem-estar, inclusivamente se não possuísse saúde, riqueza ou um elevado nível de educação. Estas teorias ainda formam a base do conceito estoico de cosmopolitismo, assim como o da construção dos “círculos de preocupação”, concebidos pelo filósofo Hiérocles. O círculo interior representa o “eu”, ou seja, a si próprio. Os seguintes as ligações mais próximas, como a “família” e os “amigos”. Depois, chegamos aos círculos mais afastados, até atingirmos toda a humanidade. O que se pretende é uma reflexão sobre cada círculo até que se converta no primeiro, de que cada um faz parte. Ao fazê-lo, damos espaço para reconhecer toda a humanidade em nós próprios e a nós mesmos na humanidade inteira. Ao atuarmos desta forma, as diferenças entre as pessoas desaparecem, ao mesmo tempo que ganham força as características que temos em comum.

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“A essência do estoicismo” — Massimo Pigliucci*

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O ovo, antigo emblema da filosofia estoica: a casca era a lógica; a clara, a ética; a gema, a física (fonte da foto)

Apesar do título deste artigo, não acredito em essências. Ao menos não no sentido de que uma ideia ou objeto complexo possam ser reduzidos a uma essência. Evidente, a “essência” do elemento Ouro pode ser concebida como o fato de ter número atômico 79, no sentido de que, para que algo seja Ouro, é tanto necessário quanto suficiente que a coisa em questão seja feita de átomos com 79 prótons. De modo similar, a “essência” da figura geométrica Triângulo é que a soma de seus ângulos internos seja 180 graus.

Mas poucas outras coisas na vida ou na natureza são passíveis de definições concisas em termos de condições necessárias e conjuntamente suficientes, como Wittgenstein o demonstrou de modo célebre no caso enganosamente simples de “jogo”. Tente fornecer uma pequena quantidade de condições que tenham de ser satisfeitas para que uma atividade se configure enquanto “jogo” e que a separem de todos os “não jogos”, e logo você se perderá em um aglomerado sempre crescente de atividades “semelhantes-mas-ainda-assim-não-as-mesmas”, compartilhando aquilo a que Wittgenstein se referiu como uma parecença familiar [Familienähnlichkeit] — mas não uma essência.

Se jogos não têm essências, não a têm também conceitos mais complexos como teorias científicas ou sistemas filosóficos. Portanto, não: não lhes fornecerei uma resposta à pergunta “o que é, essencialmente, o estoicismo?”, simplesmente porque não há resposta para isso. Ou, melhor ainda, porque se trata de uma pergunta mal formulada, para início de conversa.

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“Epicteto e Stockdale: Algumas estratégias para combater o assédio moral” — Aldo Dinucci*

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Artigo gentilmente cedido em forma de colaboração.

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Sair da posição de vítima e agir, buscando uma resposta moral e socialmente correta (fonte da foto)

O presente texto se baseia numa palestra que fiz para alunos do Ensino Médio em Tobias Barreto, cidade do interior de Sergipe, em outubro de 2017. Minha ideia era falar para os jovens sobre estratégias para combater o assédio moral e a manipulação, usando como ferramentas o pensamento de Epicteto e Stockdale.

Epicteto, um dos grandes nomes do Estoicismo Imperial, entre os quais se incluem Sêneca, Musônio Rufo e Marco Aurélio, nasceu no ano de 55, em Hierápolis, na Frígia, e morreu por volta de 135, em Nicópolis, antiga cidade localizada na entrada do Golfo Ambraciano, no Épiro. Epicteto mesmo nada escreveu. Tal tarefa coube a Lúcio Flávio Arriano Xenofonte, cidadão romano de origem grega, que compilou (possivelmente com auxílio da taquigrafia) suas aulas em oito livros (As Diatribes de Epicteto), dos quais quatro sobrevivem, e constituiu o Encheirídion de Epicteto, um breviário de princípios morais epicteteanos. Há uma tradução nossa anotada do Encheirídion disponível para download aqui.

James Bond Stockdale foi um oficial norte-americano, piloto de caça, que estudou Epicteto enquanto fazia seu mestrado em Stanford e teve a possibilidade de testar na prática o pensamento epicteteano enquanto prisioneiro de guerra durante sete anos e meio no Vietnã. Stockdale, após ser libertado, escreveu um livro sobre sua experiência, que traduzimos e disponibilizamos para download neste outro link.

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A “visão do alto”, um exemplo de meditação estoica

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As Plêiades, conjunto estelar na constelação de Touro, a cerca de 440 anos-luz da Terra (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

A filosofia antiga fazia uso de práticas de condicionamento mental tão refinadas quanto variadas. Os escritos que chegaram até nós trazem muitas marcas dessa maneira de conceber o caminho para a sabedoria, embora nos faltem instruções mais precisas do modo como tais exercícios eram levados a termo pelos filósofos. Graças ao trabalho de Pierre Hadot (1922-2010), contudo, parte dessa dificuldade foi sanada, e já é possível reconstituir em linhas gerais alguns dos exercícios espirituais dos antigos.

Certas anotações de Marco Aurélio em seu “diário filosófico” (as Meditações) consistem em uma exortação íntima a imaginar as coisas humanas e terrestres a partir de uma perspectiva longínqua: o imperador-filósofo entregava-se à tarefa de visualizar tudo quanto existe colocando-se para fora do tempo e do espaço por alguns minutos. Por meio do contraste entre a pequenez dos problemas, ambições, desejos e medos que Marco Aurélio reconhecia em si e em seus semelhantes e a vastidão do cosmos e da eternidade, cultivava-se a tranquilidade estoica:

Você pode eliminar muitas das coisas supérfluas que o incomodam, as quais residem unicamente em seu julgamento. E imediatamente abrirá para si um espaço grande e vasto, abarcando com o pensamento o universo inteiro, contemplando a eternidade do tempo e refletindo sobre a mudança rápida das coisas enquanto partes: quão breve o lapso do nascimento à dissolução, quão vasto o abismo do tempo antes do seu nascimento, quão igualmente infinito é o que há depois da sua dissolução. (Meditações, IX, 32)

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“Crescendo como estoico: Uma educação filosófica voltada para o caráter, a persistência e a garra” — Leah Goldrick*

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Traduzido e reproduzido com a permissão da autora (texto original).

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Instilar nas crianças um senso de nobreza pode protegê-las de erros que embaraçam a vida (fonte da foto)

A verdade desagradável é que muitos estudantes ao redor do mundo jamais receberão nenhum tipo que seja de educação filosófica. Em geral, a filosofia é vista como um exercício inútil, reservado a eruditos em suas torres de marfim. A inclusão dessa matéria nos currículos das crianças em idade de escola primária é rara, especialmente nos Estados Unidos, e alguns acadêmicos questionam se pré-adolescentes têm mesmo a capacidade de investigação filosófica.

Essa asserção baseia-se provavelmente na premissa de que a filosofia é, em última análise, mais teórica do que prática. Ela negligencia o potencial que pais e responsáveis argutos têm de ensinar a crianças pequenas como uma perspectiva filosófica pode tornar suas vidas felizes e providas de significado.

Onde os pais podem encontrar um roteiro de aprendizado capaz de ajudar as crianças a desenvolver um caráter forte e lidar com os desafios que a vida inevitavelmente lhes lançará no caminho? E se a fórmula em questão for algo já existente e capaz de apresentar as crianças pequenas à filosofia dentro de casa, por meio de atividades práticas e do diálogo?

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“Honestidade nos negócios: Um experimento estoico” — Jacob Henricson*

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“Fale a verdade, ainda que sua voz fique trêmula” (fonte da foto)

Um dia decidi parar de mentir. Não me entendam mal: jamais tinha eu sido um grande mentiroso em minha vida pregressa, mas decidi — tanto quanto permitia a minha capacidade — não mentir de jeito nenhum. Defini algumas regras para casos limítrofes: por exemplo, evitar ou guardar para mim uma verdade quando os efeitos de proferi-la sejam prejudiciais a mim ou a outra pessoa (“fico bem com este vestido?”) é aceitável, mas não o é dizer uma mentira diretamente, por menor que seja.

O ímpeto para esta medida drástica surgiu com o meu interesse por levar uma vida estoica. Comecei recentemente, há cerca de um ano, quando minha atenção foi desperta pela simples citação de Epicteto:

Os seres humanos são perturbados não pelas coisas, mas pelos princípios e noções que formam a respeito delas. [Manual, 5.a]

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“Verdades duras e felicidade” — John Sellars*

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Encarar as verdades duras e compreender a Natureza (fonte da foto)

Não pude estar presente ao evento da Stoicon em Nova York, realizado em outubro de 2016, mas eis um primeiro rascunho bruto do que teria sido ali minha contribuição.

Há um podcast australiano, encontrável online, que tem por título “Philosophy can ruin your life” [“A filosofia pode arruinar a sua vida”]. O motivo por detrás do título deliberadamente provocador é, suponho, lançar um desafio ao modo como alguns vêm tentando cooptar a filosofia para aquilo que às vezes é chamado de “indústria da felicidade”. Existe uma variedade de meios pelos quais a filosofia pode tornar as pessoas infelizes. A ignorância, diz o ditado, é uma bênção; com frequência as pessoas forjam para si narrativas e explicações fictícias para se sentirem melhor quanto à vida que levam e ao lugar que têm no mundo. Em contraste com isso, as verdades filosóficas — até o ponto em que alguma delas de fato possa ser encontrada — podem revelar-se bem pouco reconfortantes.

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