Sócrates, a lógica e o estoicismo

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Estátua de Sócrates à entrada da Moderna Academia de Atenas, obra de Drosis e Piccarelli (fonte da foto)

Por João Leite Ribeiro

Acredito que a leitura das Diatribes de Epicteto possa levar a enganos quanto ao estoicismo. Leva a uma supervalorização da coragem e, a seguir, a um caminho não estoico para obtê-la.

Me parece que a ideia central é manter a calma, sempre. O que é bom, mas esse sempre, sabemos que é privilégio do sábio. Epicteto era um homem de grande coragem (acredito que coragem para ele não era audácia, e sim fazer o melhor diante do perigo), e não é possível, para a maioria de nós, por meio de qualquer estudo que façamos, atingir a coragem dele.

De um modo geral a coragem pregada nas Diatribes me parece exagerada, tanto pelo fato de Epicteto ser muito viril, como pelo fato de ele me parecer um pouco eufórico.

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O estoicismo e a lógica como caminho para a felicidade

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Por meio da lógica estoica, entendemos a realidade e podemos afastar reações emocionais desagradáveis (fonte da foto)

Por Guilherme Galanti

Todos nós estamos vivos, isto é um fato inegável para qualquer um. Do mesmo modo, todos iremos morrer; este, por decorrência do primeiro, também é um fato inegável. Entre os extremos, temos o curto tempo de nossa vida, no qual podemos contemplar e experimentar o ato de estarmos vivos.

A experiência de viver é muito confusa para nossa mente, e a necessidade de morrer é mordaz pela sua inflexibilidade, levando a uma enxurrada de questionamentos sobre a existência e seu objetivo. Estes questionamentos, assim como possíveis respostas, são o coração pulsante de qualquer religião ou filosofia de vida.

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O professor estoico: Um guia para os perplexos* (I)

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Houve muitos professores estoicos na Antiguidade. Por que não no presente? (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Há cerca de dois anos fui agredido por um de meus alunos. Os golpes, um soco em meu ombro esquerdo e um empurrão, não tiveram força para machucar-me, ainda que me tenham atingido, de outra maneira. Por quinze anos eu tivera êxito em meus esforços por manter do lado de fora das salas onde leciono a atmosfera que, carregada, permeia tantos setores da sociedade brasileira: um isolamento quase hermético, talvez. Minhas aulas foram, quero crer, um refúgio que repelia as investidas da violência, da confusão e mesmo da vulgaridade a que muitos adolescentes são suscetíveis. Elas ainda são espaços razoavelmente protegidos, mas a precariedade de tal proteção apareceu-me à vista com grande claridade naquele momento. Não é de todo possível escapar à incivilidade quando ela está tão arraigada na cultura em que você vive. E o incidente, embora pouco importante, desiludiu-me — e desiludiu-me decisiva mas positivamente.

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Manual de Epicteto, 5: A inquietação deriva das opiniões

Morte de Sócrates
Com tranquilidade, Sócrates bebe a cicuta em quadro de Charles Alphonse du Fresnoy (1611-1668) (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

(a) As coisas não inquietam os homens, mas as opiniões sobre as coisas. Por exemplo: a morte nada tem de terrível, ou também a Sócrates teria se afigurado assim, mas é a opinião a respeito da morte — de que ela é terrível — que é terrível! Então, quando se nos apresentarem entraves, ou nos inquietarmos, ou nos afligirmos, jamais consideraremos outra coisa a causa senão nós mesmos — isto é: as nossas próprias opiniões.

(b) É ação de quem não se educou acusar os outros pelas coisas que ele próprio faz erroneamente. De quem começou a se educar, acusar a si próprio. De quem já se educou, não acusar os outros nem a si próprio.

Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien

COMENTÁRIO

Ao lermos o que Epicteto diz neste ponto do Manual, é possível que experimentemos duas reações interiores, em sequência e contraditórias. A primeira delas é de concordância com o enunciado geral: é fácil convencer-se de que não são as coisas que nos afetam, e sim nossas opiniões a respeito delas, ainda mais se temos em mente que as pessoas, confrontadas com situações iguais, acabam reagindo de maneiras diferentes. Assim, a um parece insuportável um tratamento dentário doloroso e complexo, a outro suportável; um dá cabo rapidamente do rato que lhe apareceu em casa, outro se paralisa com medo ou nojo do roedor; um consegue concentrar-se no meio de uma sala barulhenta, outro se sente incomodado com a algazarra. Percepções diferentes produzem ações também diferentes.

Nossa segunda reação, contudo, põe em xeque o assentimento que demos à primeira proposição ou afirmativa: “a morte nada tem de terrível” (ho thánatos oudèn deinón). Como assim? Haverá constante humana mais universalmente observável do que o medo da morte? Qual de nós não teme a morte? Quem não deseja preservar-se a si mesmo pelo maior tempo possível? Dando-se a um contrassenso tão flagrante, o estoicismo de Epicteto nos aparece sob uma luz particularmente negativa: como uma filosofia inumana, se não risível.

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Opinião e amizade — algumas considerações epictetianas

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Participantes do último seminário Viva Vox, que teve lugar na Universidade Federal de Sergipe

Por Aldo Dinucci

Em Epicteto, o conceito de opinião (dogma) abrange qualquer proposição à qual concedemos assentimento, ou seja, na qual em alguma medida acreditamos, uma crença, seja ela filosófica ou não, científica ou não. Por exemplo, em Diss. 3.7.9.1, Epicteto se refere a Epicuro e suas opiniões (dogmata) e, em Diss. 3.7.17.2, Epicteto alerta que apenas alguém que segue as opiniões do estoicismo poder ser propriamente chamado estoico[1].

Uma das mais importantes distinções que Epicteto utiliza quanto ao conceito de opinião é entre opiniões boas (ou certas) e más (ou erradas), que estão em direta relação com as ações boas e más. De fato, em Diss. 3.9.2.4, Epicteto observa: “se tens opiniões corretas, estarás bem; se elas são falsas, estarás mal”,[2] já que “para todo ser humano a causa do agir é a opinião” (Diss. 3.9.3.1). Isso porque opiniões boas ou corretas são guias adequados para a ação. Em Diss. 2.19.10 ss., por exemplo, Epicteto afirma que nos beneficiamos com a leitura de um texto filosófico adquirindo dele boas opiniões que podem nos guiar. Isso explica por que, em Diss. 3.10.1.1, Epicteto afirma que devemos ter à mão as opiniões adequadas para cada ocasião.

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A tese estoica da irmandade de todos os humanos

 

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Pelos círculos concêntricos de Hiérocles, reconhecemo-nos como parte de uma grande família humana (fonte da foto)

Por Aldo Dinucci*

Eu sonho que um dia, nos montes vermelhos da Georgia, os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos donos de escravos serão capazes de sentar-se juntos à mesa da irmandade. (Martin Luther King)[1]

Devemos viver juntos como irmãos ou morrer juntos como tolos[2]. (Martin Luther King)

Após 1989, ano da queda do Muro de Berlim, fato que precedeu o fim da União Soviética e da Guerra Fria, era comum ouvir que “vivemos em uma aldeia global”. A tese da “aldeia global”, hoje superada pela pós-modernidade e caída no esquecimento, nos faz lembrar os ideais cosmopolitas dos estoicos. Para estes, vivemos em uma grande cidade cósmica, habitada por Deuses e humanos. Como nos diz o estoico Epicteto: “Não és tu humano? Parte da cidade: da primeira, dos Deuses e dos humanos, depois desta que é dita a mais próxima, que é uma pequena imitação da totalidade” (Diatribes 2.5.27[3]). A tese da irmandade de todos os humanos se desenrola com simplicidade a partir daí: se vivemos numa grande cidade universal dirigida pelos Deuses, e se os humanos são filhos dos Deuses, então os humanos são todos irmãos.

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Por que não sou cético

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Do que podemos ter certeza em nossa busca pela tranquilidade? (fonte da foto)

Por João Leite Ribeiro

Diógenes Laércio dizia: “Os filósofos céticos passavam seu tempo destruindo os dogmas de outras escolas e não estabelecendo nenhum que fosse seu próprio”.

Esse ponto de vista é interessante. Transpondo da discussão filosófica para nossa vida, quantos dogmas já não criamos, os quais na verdade eram falsos? Se formos ser rigidamente lógicos, não será necessária a conclusão de que tudo é duvidoso? E , a partir daí, ao concluirmos que nada podemos concluir, não nos traria isso uma despreocupação, uma ausência de dúvidas que nos traria paz?

Pelo ceticismo chegaremos, diz Sexto Empírico “primeiro à suspensão do juízo, depois à ataraxia”.

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