Catão de Útica diante da morte

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Catão enterra a espada em seu peito em tela de Jean-Paul Laurens (1838-1921) (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

A vida e a morte de Marco Pórcio Catão, o Jovem, confundem-se em tal grau com os últimos lances da República romana que é impossível entender a figura fora do contexto histórico que a forjou — assim como é impossível compreender tal contexto sem a menção ao papel de Catão. Bisneto homônimo de outro Catão (234-149), dito o Velho, que fora o severo censor romano durante a Segunda Guerra Púnica (218-201 a.C.), ele nasceu em Roma no ano de 95 e faleceu em 46 antes de Cristo na cidade de Útica, próxima a Cartago (região da atual Tunísia). Por ter morrido ali, naquela praça-forte africana que era o último reduto dos defensores da República, seus admiradores próximos passaram a chamá-lo de Catão de Útica ou Catão Uticense, seguindo uma tradição que atrelava a denominação da localidade em que se dera o falecimento de uma pessoa ilustre ao próprio nome dela.

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A tese estoica da irmandade de todos os humanos

 

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Pelos círculos concêntricos de Hiérocles, reconhecemo-nos como parte de uma grande família humana (fonte da foto)

Por Aldo Dinucci*

Eu sonho que um dia, nos montes vermelhos da Georgia, os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos donos de escravos serão capazes de sentar-se juntos à mesa da irmandade. (Martin Luther King)[1]

Devemos viver juntos como irmãos ou morrer juntos como tolos[2]. (Martin Luther King)

Após 1989, ano da queda do Muro de Berlim, fato que precedeu o fim da União Soviética e da Guerra Fria, era comum ouvir que “vivemos em uma aldeia global”. A tese da “aldeia global”, hoje superada pela pós-modernidade e caída no esquecimento, nos faz lembrar os ideais cosmopolitas dos estoicos. Para estes, vivemos em uma grande cidade cósmica, habitada por Deuses e humanos. Como nos diz o estoico Epicteto: “Não és tu humano? Parte da cidade: da primeira, dos Deuses e dos humanos, depois desta que é dita a mais próxima, que é uma pequena imitação da totalidade” (Diatribes 2.5.27[3]). A tese da irmandade de todos os humanos se desenrola com simplicidade a partir daí: se vivemos numa grande cidade universal dirigida pelos Deuses, e se os humanos são filhos dos Deuses, então os humanos são todos irmãos.

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