A “visão do alto”, um exemplo de meditação estoica

the-pleiades-star-cluster-11637_1920
As Plêiades, conjunto estelar na constelação de Touro, a cerca de 440 anos-luz da Terra (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

A filosofia antiga fazia uso de práticas de condicionamento mental tão refinadas quanto variadas. Os escritos que chegaram até nós trazem muitas marcas dessa maneira de conceber o caminho para a sabedoria, embora nos faltem instruções mais precisas do modo como tais exercícios eram levados a termo pelos filósofos. Graças ao trabalho de Pierre Hadot (1922-2010), contudo, parte dessa dificuldade foi sanada, e já é possível reconstituir em linhas gerais alguns dos exercícios espirituais dos antigos.

Certas anotações de Marco Aurélio em seu “diário filosófico” (as Meditações) consistem em uma exortação íntima a imaginar as coisas humanas e terrestres a partir de uma perspectiva longínqua: o imperador-filósofo entregava-se à tarefa de visualizar tudo quanto existe colocando-se para fora do tempo e do espaço por alguns minutos. Por meio do contraste entre a pequenez dos problemas, ambições, desejos e medos que Marco Aurélio reconhecia em si e em seus semelhantes e a vastidão do cosmos e da eternidade, cultivava-se a tranquilidade estoica:

Você pode eliminar muitas das coisas supérfluas que o incomodam, as quais residem unicamente em seu julgamento. E imediatamente abrirá para si um espaço grande e vasto, abarcando com o pensamento o universo inteiro, contemplando a eternidade do tempo e refletindo sobre a mudança rápida das coisas enquanto partes: quão breve o lapso do nascimento à dissolução, quão vasto o abismo do tempo antes do seu nascimento, quão igualmente infinito é o que há depois da sua dissolução. (Meditações, IX, 32)

Continuar lendo “A “visão do alto”, um exemplo de meditação estoica”