Koinōnía ― grupo de leitura e convivência humanística

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Que tal ler, refletir, conversar e compartilhar ideias? (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Antes de mais, três novidades:

Agora sim, ao assunto principal.

O isolamento social a que muitos de nós estamos sujeitos há algumas semanas nos têm colocado desafios em diversos setores da vida. Não fomos educados para passar tanto tempo em casa, nem para uma essencialização tão drástica de nossas relações. Entre os que precisam sair para trabalhar, observar como se precarizam tantas coisas na sociedade em que vivemos não deve ser um espetáculo tranquilizador.


Em momentos assim, é natural a irrupção de certas formas de stress ou sentimentos de inadequação. Saber por que você está acordando, quando muito de sua vida se tornou irreconhecível, pode não ser um dado imediato. Perguntar-se acerca da duração desta quarentena e não conseguir atinar com uma resposta também é algo que contribui para a continuidade do mal-estar. Somos feitos de carne, não de ferro.

Se você tem interesse pela filosofia estoica, é porque está sinceramente convencido ou convencida de algumas coisas, como a importância da racionalidade humana no aclaramento de nossos problemas interiores e a necessidade de cooperação com os nossos semelhantes. Não por acaso, aliás, os estoicos descreviam nossa natureza como logikḗ e koinōnikḗ (λογικὴ καὶ κοινωνική) — ou, a um só tempo, racional e social. E isso, não no sentido de que somos infalivelmente racionais e ininterruptamente dados à sociabilidade, mas tão-somente no de que razão e sociabilidade, em alguma medida, nos são sempre possíveis e tornam nossas vidas sempre melhores.

Pensando no que foi exposto, creio que uma boa maneira de atravessarmos este momento complicado seria estreitarmos relações e discutirmos modos de ver as coisas que valem a pena. Imaginei que pudéssemos criar um espaço virtual de diálogo e aprendizado, com grupo de Telegram e leituras periódicas às segundas e sextas-feiras (breves porções a cada vez) — embora as discussões pudessem se espraiar pelos outros dias da semana, evidentemente. Não estão descartadas interações ao vivo, com uso de Zoom ou Google Hangouts, mas essas coisas precisariam ser marcadas com alguma antecedência.

Nossa atenção não se restringiria à filosofia do Pórtico, abrangendo também outros aspectos da Antiguidade e algo da tradição humanística do Ocidente. A meu ver, um bom nome para esta iniciativa seria Koinōnía, transliteração do grego κοινωνία, e que significa “comunidade”, “associação”, “parceria”. É uma palavra que aparece nove vezes nas Meditações de Marco Aurélio e nove vezes na obra atribuída a Epicteto — isso sem falar de seus termos cognatos, também presentes.

Quanto ao humanismo com que nos identificamos, deriva-se da noção de humanitas, importante no pensamento em língua latina e que ganhou grande impulso a partir de Cícero. Ela tem a ver com a busca pelo que nos define enquanto seres humanos, com nossos traços comuns e com o cultivo das coisas que podem tornar a vida melhor. Com efeito, foi o mesmo Cícero quem escreveu: cultura animi philosophia est — usando o termo “cultura”, antes restrito à linguagem agrícola, como uma metáfora para o trabalho interior, para o cultivar da alma. Daí a ideia de que o estudo da filosofia — mas também das letras, das ciências e das artes —, por proporcionar um labor do indivíduo sobre si mesmo, seria capaz de tornar o ser humano melhor.

De início, gostaria de propor a leitura e a discussão de duas obras: o Livro I das Diatribes de Epicteto (às segundas-feiras) e a Utopia de Thomas More (às sextas). Seriam essas as atividades “obrigatórias”, não havendo restrições a outras leituras de caráter, digamos assim complementar, nos demais dias da semana. Discutiríamos tais obras à luz de traduções que temos disponíveis para o português. Quem souber outras línguas poderá, claro, beneficiar-se de mais insights em torno da coisa. No entanto, não conhecer idiomas não é motivo de vergonha para ninguém: é uma questão de oportunidades que a vida pode ter oferecido, não de caráter.

Assim, o cronograma inicialmente planejado para nosso primeiro ciclo de leituras seria este:

  • 1ª segunda (18/05/20): Diatribes de Epicteto, Livro I, Caps. I, II
  • 1ª sexta (22/05/2020): Utopia de Thomas More, Livro I, Apresentação do viajante Rafael, “Viagens de Rafael” 
  • 2ª segunda (25/05/20): Diatribes, Livro I, Caps. III, IV, V
  • 2ª sexta (29/05/2020): Utopia, Livro I: “O banquete com o cardeal Jonh Morton”
  • 3ª segunda (01/06/20): Diatribes, Livro I, Caps. VI, VII
  • 3ª sexta (05/06/2020): Utopia, Livro I: “Da melhor república”, 1ª parte (até a menção a Fabrício)
  • 4ª segunda (08/06/20): Diatribes, Livro I, Caps. VIII, IX, X
  • 4ª sexta (12/06/2020): Utopia, Livro I: “Da melhor república”, 2ª parte (até o fim)
  • 5ª segunda (15/06/20): Diatribes, Livro I, Caps. XI
  • 5ª sexta (19/06/2020): Utopia, Livro II: Descrição geral da ilha, “Das cidades da Utopia e de Amaurot”
  • 6ª segunda (22/06/20): Diatribes, Livro I, Caps. XII, XIII, XIV, XV
  • 6ª sexta (26/06/2020): Utopia, Livro II: “Dos magistrados”, “Das artes e ofícios”
  • 7ª segunda (29/06/20): Diatribes, Livro I, Caps. XVI, XVII, XVIII
  • 7ª sexta (03/07/2020): Utopia, Livro II: “Das relações mútuas entre os cidadãos”
  • 8ª segunda (06/07/20): Diatribes, Livro I, Caps. XIX, XX, XXI, XXII
  • 8ª sexta (10/07/2020): Utopia, Livro II: “Das viagens dos utopianos”, “Da distribuição igual da abundância”
  • 9ª segunda (13/07/20): Diatribes, Livro I, Caps. XXIII, XXIV, XXV
  • 9ª sexta (17/07/2020): Utopia, Livro II: “Da educação e das artes”
  • 10ª segunda (20/07/20): Diatribes, Livro I, Caps. XXVI, XXVII
  • 10ª sexta (24/07/2020): Utopia, “Das leis dos utopianos”
  • 11ª segunda (27/07/20): Diatribes, Livro I, Caps. XXVIII
  • 11ª sexta (31/07/2020): Utopia, “Da guerra”
  • 12ª segunda (03/08/20): Diatribes, Livro I, Caps. XXIX, XXX
  • 12ª sexta (07/08/2020): Utopia, “Das religiões da Utopia”, “Elogio da república da Utopia”

Como se vê, é um compromisso de praticamente três meses. E a porção lida a cada dia gira em torno de dez, doze páginas de tamanho comum, permitindo reflexão e discussão com aprofundamento.

Para reforçar os valores que nortearão nossa comunidade, recomendo que leiam ou revisitem o texto “Os votos do estoico” e vejam se estão de acordo com a maioria dos itens ali dispostos.

É quase desnecessário dizer que, em nossa Koinōnía, não serão permitidos comportamentos antissociais como:

  • xingamentos ou ironias pesadas contra outros membros do grupo;
  • manifestações de racismo, xenofobia e preconceitos assemelhados;
  • apologia de regimes ditatoriais ou opressores, de direita ou de esquerda;
  • disseminação de notícias falsas (se você não sabe se a coisa é verdadeira, não a passe adiante);
  • proselitismo religioso ou político (a discussão de ideias nesses setores é bem-vinda, desde que respeitada a autonomia intelectual dos outros indivíduos, que podem pensar exatamente o contrário do que você pensa, e com boas razões para tal);
  • uso do grupo exclusivamente para autopromoção, sem consideração ao que os outros pensam ou escrevem;
  • adulação e/ou fofocas.

Se você se interessou por esta proposta, peço que envie mensagem para dsferrara arroba gmail ponto com, fazendo uma breve apresentação de si e dizendo por que gostaria de participar de nosso grupo. É coisa simples, de meia dúzia de linhas. Não é necessário background acadêmico ou coisa parecida, apenas boa vontade para discutir suas impressões sobre as leituras e vontade de conhecer outras pessoas.

Espero vocês lá.

Opinião e amizade — algumas considerações epictetianas

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Participantes do último seminário Viva Vox, que teve lugar na Universidade Federal de Sergipe

Por Aldo Dinucci

Em Epicteto, o conceito de opinião (dogma) abrange qualquer proposição à qual concedemos assentimento, ou seja, na qual em alguma medida acreditamos, uma crença, seja ela filosófica ou não, científica ou não. Por exemplo, em Diss. 3.7.9.1, Epicteto se refere a Epicuro e suas opiniões (dogmata) e, em Diss. 3.7.17.2, Epicteto alerta que apenas alguém que segue as opiniões do estoicismo poder ser propriamente chamado estoico[1].

Uma das mais importantes distinções que Epicteto utiliza quanto ao conceito de opinião é entre opiniões boas (ou certas) e más (ou erradas), que estão em direta relação com as ações boas e más. De fato, em Diss. 3.9.2.4, Epicteto observa: “se tens opiniões corretas, estarás bem; se elas são falsas, estarás mal”,[2] já que “para todo ser humano a causa do agir é a opinião” (Diss. 3.9.3.1). Isso porque opiniões boas ou corretas são guias adequados para a ação. Em Diss. 2.19.10 ss., por exemplo, Epicteto afirma que nos beneficiamos com a leitura de um texto filosófico adquirindo dele boas opiniões que podem nos guiar. Isso explica por que, em Diss. 3.10.1.1, Epicteto afirma que devemos ter à mão as opiniões adequadas para cada ocasião.

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Lúcio Aneu Sêneca: Carta a Lucílio IX – Sobre Filosofia e Amizade (trad. A. Dinucci)

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O sábio se basta, dizia Sêneca, mas não é por isso que ele não vê proveito na amizade (fonte da foto)

Lúcio Aneu Sêneca: Carta a Lucílio IX Sobre Filosofia e Amizade

(Tradução: Aldo Dinucci)

Sêneca saúda seu amigo Lucílio

(1) Desejas saber se Epicuro repreende com razão os que dizem o sábio bastar-se a si mesmo e, por causa disto, não ter necessidade de amigo. Isto é objetado por Epicuro a Estilpo e àqueles pelos quais o sumo bem é visto como espírito impassível[1] (impatiens). (2) É necessário incidir em ambiguidade se quisermos exprimir apátheia por uma única palavra e dizer “impassibilidade”. Poder-se-ia compreender o contrário do que queremos significar. Nós[2] queremos dizer, por apátheia, o que afaste todo sentido de mal[3]. Mas compreende-se apátheia como o que não consegue suportar mal algum[4]. Veja então se é melhor dizer ou “espírito invulnerável” (3) ou “espírito posto além de todo sofrimento”. Isto está entre nós e aqueles[5]: nosso sábio vence certamente todas as vicissitudes, mas as sente; o sábio daqueles nem sequer as sente. Isto para nós e para eles está em comum: o sábio bastar-se-á si mesmo. Todavia, também deseja ter amigo, vizinho e companheiro, ainda que baste a si mesmo.

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Como falar da filosofia estoica a um amigo

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É radical o compromisso dos estoicos com a vida prática — o resto não passa de palavrório (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

“facere docet philosophia, non dicere”

— Sêneca

Admito que não tenho a mínima ideia do modo como seria possível fazer o tópico “estoicismo” brotar no meio de uma conversa que se dê em, digamos, condições normais de temperatura e pressão. Não temos o hábito de discorrer sobre figuras históricas, correntes de pensamento ou exigências éticas, antigas ou atuais, quando na presença de amigos. Além disso, imersos em nossos cotidianos, é para espairecer ou nos atualizar dos últimos eventos na vida dos que estão longe que nos dedicamos a uns bons dedos de prosa. Excepcionalmente, quando um dos pares se sente oprimido por uma angústia, a conversa gira em torno de uma confissão e uma opinião “externa”, interessada no bem do outro.

Contudo, as amizades têm uma dimensão ética incontornável: supomos que nossos amigos sejam confiáveis e que valorizem mais ou menos as mesmas coisas que nós. Ninguém toma por amigo um indivíduo que não dê mostras de alguma solidez moral, que não esteja razoavelmente à altura do que julgamos ser o nosso caráter. Quanto maior a atenção dada a tais questões, maior a exigência relativamente aos que desfrutam de nossa amizade — e maiores as retribuições da intimidade compartilhada. Quem se importa com o aperfeiçoamento pessoal, por exemplo, dificilmente admitirá um sujeito de costumes dúbios no rol dos amigos e se verá obrigado a abandonar certas relações ao longo da vida.

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