Opinião e amizade — algumas considerações epictetianas

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Participantes do último seminário Viva Vox, que teve lugar na Universidade Federal de Sergipe

Por Aldo Dinucci

Em Epicteto, o conceito de opinião (dogma) abrange qualquer proposição à qual concedemos assentimento, ou seja, na qual em alguma medida acreditamos, uma crença, seja ela filosófica ou não, científica ou não. Por exemplo, em Diss. 3.7.9.1, Epicteto se refere a Epicuro e suas opiniões (dogmata) e, em Diss. 3.7.17.2, Epicteto alerta que apenas alguém que segue as opiniões do estoicismo poder ser propriamente chamado estoico[1].

Uma das mais importantes distinções que Epicteto utiliza quanto ao conceito de opinião é entre opiniões boas (ou certas) e más (ou erradas), que estão em direta relação com as ações boas e más. De fato, em Diss. 3.9.2.4, Epicteto observa: “se tens opiniões corretas, estarás bem; se elas são falsas, estarás mal”,[2] já que “para todo ser humano a causa do agir é a opinião” (Diss. 3.9.3.1). Isso porque opiniões boas ou corretas são guias adequados para a ação. Em Diss. 2.19.10 ss., por exemplo, Epicteto afirma que nos beneficiamos com a leitura de um texto filosófico adquirindo dele boas opiniões que podem nos guiar. Isso explica por que, em Diss. 3.10.1.1, Epicteto afirma que devemos ter à mão as opiniões adequadas para cada ocasião.

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Lúcio Aneu Sêneca: Carta a Lucílio IX – Sobre Filosofia e Amizade (trad. A. Dinucci)

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O sábio se basta, dizia Sêneca, mas não é por isso que ele não vê proveito na amizade (fonte da foto)

Lúcio Aneu Sêneca: Carta a Lucílio IX Sobre Filosofia e Amizade

(Tradução: Aldo Dinucci)

Sêneca saúda seu amigo Lucílio

(1) Desejas saber se Epicuro repreende com razão os que dizem o sábio bastar-se a si mesmo e, por causa disto, não ter necessidade de amigo. Isto é objetado por Epicuro a Estilpo e àqueles pelos quais o sumo bem é visto como espírito impassível[1] (impatiens). (2) É necessário incidir em ambiguidade se quisermos exprimir apátheia por uma única palavra e dizer “impassibilidade”. Poder-se-ia compreender o contrário do que queremos significar. Nós[2] queremos dizer, por apátheia, o que afaste todo sentido de mal[3]. Mas compreende-se apátheia como o que não consegue suportar mal algum[4]. Veja então se é melhor dizer ou “espírito invulnerável” (3) ou “espírito posto além de todo sofrimento”. Isto está entre nós e aqueles[5]: nosso sábio vence certamente todas as vicissitudes, mas as sente; o sábio daqueles nem sequer as sente. Isto para nós e para eles está em comum: o sábio bastar-se-á si mesmo. Todavia, também deseja ter amigo, vizinho e companheiro, ainda que baste a si mesmo.

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Como falar da filosofia estoica a um amigo

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É radical o compromisso dos estoicos com a vida prática — o resto não passa de palavrório (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

“facere docet philosophia, non dicere”

— Sêneca

Admito que não tenho a mínima ideia do modo como seria possível fazer o tópico “estoicismo” brotar no meio de uma conversa que se dê em, digamos, condições normais de temperatura e pressão. Não temos o hábito de discorrer sobre figuras históricas, correntes de pensamento ou exigências éticas, antigas ou atuais, quando na presença de amigos. Além disso, imersos em nossos cotidianos, é para espairecer ou nos atualizar dos últimos eventos na vida dos que estão longe que nos dedicamos a uns bons dedos de prosa. Excepcionalmente, quando um dos pares se sente oprimido por uma angústia, a conversa gira em torno de uma confissão e uma opinião “externa”, interessada no bem do outro.

Contudo, as amizades têm uma dimensão ética incontornável: supomos que nossos amigos sejam confiáveis e que valorizem mais ou menos as mesmas coisas que nós. Ninguém toma por amigo um indivíduo que não dê mostras de alguma solidez moral, que não esteja razoavelmente à altura do que julgamos ser o nosso caráter. Quanto maior a atenção dada a tais questões, maior a exigência relativamente aos que desfrutam de nossa amizade — e maiores as retribuições da intimidade compartilhada. Quem se importa com o aperfeiçoamento pessoal, por exemplo, dificilmente admitirá um sujeito de costumes dúbios no rol dos amigos e se verá obrigado a abandonar certas relações ao longo da vida.

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