Koinōnía ― grupo de leitura e convivência humanística

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Que tal ler, refletir, conversar e compartilhar ideias? (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Antes de mais, três novidades:

Agora sim, ao assunto principal.

O isolamento social a que muitos de nós estamos sujeitos há algumas semanas nos têm colocado desafios em diversos setores da vida. Não fomos educados para passar tanto tempo em casa, nem para uma essencialização tão drástica de nossas relações. Entre os que precisam sair para trabalhar, observar como se precarizam tantas coisas na sociedade em que vivemos não deve ser um espetáculo tranquilizador.

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Opinião e amizade — algumas considerações epictetianas

Por Aldo Dinucci

Em Epicteto, o conceito de opinião (dogma) abrange qualquer proposição à qual concedemos assentimento, ou seja, na qual em alguma medida acreditamos, uma crença, seja ela filosófica ou não, científica ou não. Por exemplo, em Diss. 3.7.9.1, Epicteto se refere a Epicuro e suas opiniões (dogmata) e, em Diss. 3.7.17.2, Epicteto alerta que apenas alguém que segue as opiniões do estoicismo poder ser propriamente chamado estoico[1].

Uma das mais importantes distinções que Epicteto utiliza quanto ao conceito de opinião é entre opiniões boas (ou certas) e más (ou erradas), que estão em direta relação com as ações boas e más. De fato, em Diss. 3.9.2.4, Epicteto observa: “se tens opiniões corretas, estarás bem; se elas são falsas, estarás mal”,[2] já que “para todo ser humano a causa do agir é a opinião” (Diss. 3.9.3.1). Isso porque opiniões boas ou corretas são guias adequados para a ação. Em Diss. 2.19.10 ss., por exemplo, Epicteto afirma que nos beneficiamos com a leitura de um texto filosófico adquirindo dele boas opiniões que podem nos guiar. Isso explica por que, em Diss. 3.10.1.1, Epicteto afirma que devemos ter à mão as opiniões adequadas para cada ocasião.

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Lúcio Aneu Sêneca: Carta a Lucílio IX – Sobre Filosofia e Amizade (trad. A. Dinucci)

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O sábio se basta, dizia Sêneca, mas não é por isso que ele não vê proveito na amizade (fonte da foto)

Lúcio Aneu Sêneca: Carta a Lucílio IX Sobre Filosofia e Amizade

(Tradução: Aldo Dinucci)

Sêneca saúda seu amigo Lucílio

(1) Desejas saber se Epicuro repreende com razão os que dizem o sábio bastar-se a si mesmo e, por causa disto, não ter necessidade de amigo. Isto é objetado por Epicuro a Estilpo e àqueles pelos quais o sumo bem é visto como espírito impassível[1] (impatiens). (2) É necessário incidir em ambiguidade se quisermos exprimir apátheia por uma única palavra e dizer “impassibilidade”. Poder-se-ia compreender o contrário do que queremos significar. Nós[2] queremos dizer, por apátheia, o que afaste todo sentido de mal[3]. Mas compreende-se apátheia como o que não consegue suportar mal algum[4]. Veja então se é melhor dizer ou “espírito invulnerável” (3) ou “espírito posto além de todo sofrimento”. Isto está entre nós e aqueles[5]: nosso sábio vence certamente todas as vicissitudes, mas as sente; o sábio daqueles nem sequer as sente. Isto para nós e para eles está em comum: o sábio bastar-se-á si mesmo. Todavia, também deseja ter amigo, vizinho e companheiro, ainda que baste a si mesmo.

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Como falar da filosofia estoica a um amigo

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É radical o compromisso dos estoicos com a vida prática — o resto não passa de palavrório (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

“facere docet philosophia, non dicere”

— Sêneca

Admito que não tenho a mínima ideia do modo como seria possível fazer o tópico “estoicismo” brotar no meio de uma conversa que se dê em, digamos, condições normais de temperatura e pressão. Não temos o hábito de discorrer sobre figuras históricas, correntes de pensamento ou exigências éticas, antigas ou atuais, quando na presença de amigos. Além disso, imersos em nossos cotidianos, é para espairecer ou nos atualizar dos últimos eventos na vida dos que estão longe que nos dedicamos a uns bons dedos de prosa. Excepcionalmente, quando um dos pares se sente oprimido por uma angústia, a conversa gira em torno de uma confissão e uma opinião “externa”, interessada no bem do outro.

Contudo, as amizades têm uma dimensão ética incontornável: supomos que nossos amigos sejam confiáveis e que valorizem mais ou menos as mesmas coisas que nós. Ninguém toma por amigo um indivíduo que não dê mostras de alguma solidez moral, que não esteja razoavelmente à altura do que julgamos ser o nosso caráter. Quanto maior a atenção dada a tais questões, maior a exigência relativamente aos que desfrutam de nossa amizade — e maiores as retribuições da intimidade compartilhada. Quem se importa com o aperfeiçoamento pessoal, por exemplo, dificilmente admitirá um sujeito de costumes dúbios no rol dos amigos e se verá obrigado a abandonar certas relações ao longo da vida.

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