ENTRE CREPÚSCULOS E AURORAS

Carlos Enéas Moraes Lins da Silva

(Mestrando em Filosofia UFF)

Eu só queria nesse preciso segundo caminhar belamente sobre as águas, num santificado momento de tranquilidade e ausência de agitação, mínimas ondas a blasfemar o solo sagrado, beijando com pressa a areia e revolvendo-se temerariamente. Eu só queria andar como um deus, negar de tudo o todo e reconhecer em mim a majestosa imperturbabilidade. Mas sucumbi, como um Lázaro caído, uma morte num instante. Para andar como um deus entre os homens é preciso mais que entrega, uma verdadeira morte. É com sangue que se paga a santidade, é com sangue que se paga a excelência, não adianta, é sangue derramado nos vastos campos elísios do Érebo, é morte gloriosa, nada além.

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Reflexões de Musônio Rufo sobre o Casamento

Do destacado filósofo romano Musônio Rufo, que em vida foi equiparado a Sócrates, pouco nos chegou. Mas esse pouco, suas diatribes, contém uma série de reflexões cruciais para a compreensão da verdadeira dimensão do estoicismo romano.

Comentarei aqui brevemente a diatribe 13A, que trata do casamento.

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Apresentação de nossa tradução do Manual de Epicteto

Epicteto, um dos grandes nomes do Estoicismo Imperial, entre os quais se incluem Sêneca, Musônio Rufo e Marco Aurélio, nasceu no ano 55 em Hierápolis, na Frígia, Ásia Menor (hoje Turquia) e morreu por volta de 135, em Nicópolis. Epicteto foi escravo. Seu senhor, o liberto Epafrodito, foi secretário imperial de Nero e Domiciano. Em Roma, Epicteto frequentou a escola do célebre estoico romano Musônio Rufo. Tornando-se liberto, lecionou em Roma, onde viveu de forma absolutamente despojada.

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Reflexões pessoais acerca do uso prático do estoicismo epictetiano na pandemia do coronavírus (Por Renato Diniz)

Por RENATO DINIZ*

…Não importa quão estreita seja a passagem,

Quão carregada de punição a sentença.

Eu sou o mestre do meu destino:

Eu sou o comandante de minha alma.

                                     (Willian E. Henley – INVICTUS- trad. Aldo Dinucci)

 

Nesta pandemia de corona vírus que estamos passando, tenho notado muita ansiedade, aflição e medo das pessoas de serem contaminadas, e o possível desenvolvimento da doença COVID-19, que pode ser letal. Sabemos que é preciso sermos cuidadosos, executando todos os procedimentos para evitar o contágio, tais como: lavar as mãos, usar álcool em gel, ou 70%, usar máscaras, manter o distanciamento social e evitar aglomerações. Imaginando o pior cenário, isto é, de contaminação e agravamento da enfermidade, podendo levar-nos, inclusive, à morte, recorro aos ensinamentos de nosso filósofo Epicteto:

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Sobre nossa tradução do Encheirídion de Epicteto

No princípio da década 2000, quando eu vivia em Petrópolis, li pela primeira vez uma tradução francesa do Encheirídion de Epicteto em uma coletânea organizada por Jean Brun. Percebi que não havia essa obra disponibilizada em Português, seja em formato físico ou eletrônico. Dediquei-me, então, à tarefa de traduzir a obra diretamente do grego koiné com os conhecimentos que adquiri em meus anos de mestrado e doutorado com minha orientadora Dra. Maura Iglésias e o Dr. Fernando Rodrigues (IFCS/UFRJ).

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A Fruição do Prazer no Estoicismo

Por Aldo Dinucci

 

Diz-nos Aulo Gélio (Noites Áticas, III, XIX, ii, 7-8): “Sócrates costumava dizer que os homens desejam viver para comer e beber, mas ele comia e bebia para viver”. O Estoicismo reafirma essa posição socrática, segundo a qual fazer do prazer a razão do viver é pôr-se sob o domínio da externalidade. Porém, não há aí uma condenação do prazer: ele será bom se o homem usufrui-lo mantendo-se senhor de si mesmo e respeitando a comunidade em que vive.

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MUSÔNIO, DIATRIBE 11 (QUE É ADEQUADO AO FILÓSOFO VIVER JUNTO À NATUREZA, NO CAMPO, E DEDICAR-SE À AGRICULTURA E AO PASTOREIO):

Comentário de Aldo Dinucci:

A seguinte aula de Musônio, estoico romano que foi professor de Epicteto, é particularmente importante porque nela ele afirma que a agricultura e o pastoreio, a vida no campo, enfim, é uma das profissões apropriadas para um estoico. Como Musônio nos diz, uma das conotações básicas do Viver segundo a natureza (o lema estoico) é buscar alimento diretamente da Natureza, que é nossa mãe. Musônio comenta que a vida no campo nos afasta dos vícios aos quais as cidades nos convidam. E que mesmo ensinar filosofia é mais fácil no campo, onde o professor, trabalhando a terra, pastoreando e fazendo suas refeições junto com seus alunos, pode lhes ensinar sobre a virtude por meio de seus próprios exemplos, que falam mais alto que palavras.

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Há uma ética no estoicismo? (Por George Felipe Bernardes Barbosa Borges)

 

George Felipe Bernardes Barbosa Borges

 

Durante essa quarenta falava com um amigo sobre questões referentes a bioética. Ele colocou um problema bem interessante e sensível acerca da identidade pessoal, isto é, de como alguém olha para si mesmo e se reconhece enquanto tal. Meu amigo supôs uma situação limite: caso algum dia se prove que a homossexualidade é uma patologia, seria eticamente correto tratar as pessoas compulsoriamente? Imediatamente lembrei de outros problemas bioéticos que são muito similares a este, como por exemplo, o casal lésbico de deficientes auditivos que tinham a preferência por ter um filho surdo. Sandel conta que procuraram um doador “cuja família tivesse um histórico de cinco gerações de surdez” (2013, p. 15).

Meu amigo estranhou minha linha de argumentação. Eu afirmava que há um ramo da ética (neste caso, da metaética) que prezava por um relativismo moral, cujas convicções morais podem derivar e serem justificadas a partir de um movimento social, por exemplo. Por que ocorreu esse estranhamento? Porque no século XVIII um sujeito chamado Immanuel Kant (1724 – 1804) mudou para sempre a história do pensamento. Kant almejava conferir à ética o mesmo caráter universal que vemos na ciência. A ética agora é deontológica (δέον, dever e λόγος, ciência). Nasce assim o “imperativo categórico”, isto é, deve-se agir por dever, respeitando regras universais. Não há mais aquela ideia de virtude ou realização pessoal ligada a ética, como havia em Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.). Com Kant a moral e a felicidade são duas coisas que não se recobrem. Haverá casos em que devemos sacrificar a felicidade para obedecer a lei moral.

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