A Superação dos Medos em Epicteto

Escrevo este texto em diálogo com João Leite Ribeiro, notadamente sobre o que nosso nobre estoico diz no texto intitulado Sócrates, a lógica e o estoicismo , publicado recentemente neste blog.

Em Epicteto, o termo grego andreia (coragem, em grego) ocorre, nas Diatribes, apenas quatro vezes, e nenhuma vez no Manual[1]. De fato, as virtudes enfatizadas por Epicteto diferem da taxonomia estoica ortodoxa das virtudes, que tem como principais as virtudes cardeais tradicionais do pensamento grego: sabedoria ou prudência (phonesis), coragem (andreia), justiça (dikaiosyne) e  temperança (sophrosyne). Não nos deteremos aqui em investigar a razão disso, mas antes a natureza dessas virtudes em Epicteto.

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O BOM, O MAU E O INDIFERENTE – CONSIDERAÇÕES ESTOICAS E EPICTETIANAS

(Publicado previamente no Pórtico de Epicteto)

Um dos pontos menos compreendidos do estoicismo se refere à clássica distinção entre coisas boas e más e indiferentes. Como citado por Diógenes Laércio e Ário Dídimo, os estoicos dividem as coisas todas do mundo em boas, más e indiferentes. Boas e más são respectivamente as virtudes e os vícios. Indiferentes, todas as demais. Isso sempre causa estranheza ao senso comum, pois entre as indiferentes são colocadas coisas que geralmente se pensam boas (como riqueza, saúde, beleza, sucesso) e más (como pobreza, doença, feiura e fracasso). Bertand Russel, em sua História da Filosofia, dá voz a essa incompreensão:

Para uma mente moderna, é difícil sentir-se entusiasmado pela vida virtuosa se nada puder se alcançada por meio dela. Nós admiramos um médico que arrisca sua vida em uma epidemia de praga porque pensamos que a doença é um mal e esperamos diminuir sua frequência. Mas se a doença não é um mal, o médico pode também permanecer confortavelmente em sua casa. (Bertrand Russel, The history of western philosophy, p. 255.)

A raiz da distinção estoica está no diálogo Eutidemo, de Platão. Nesse diálogo, Sócrates observa que os bens reconhecidos pelos mortais se transformam em males se administrados por imprudentes. Apresentarei o argumento de Sócrates no Eutidemo de um modo didático. Pensem em uma lista de bens. Suponho que nela incluirão coisas como a riqueza, a saúde, o poder, um elevado status social, o prazer, a vida. Mas considerem o seguinte: a riqueza na mão de um tolo se torna inútil ou destrutiva; e se pode ser má, não é em si mesma nem boa nem má. A saúde também nem sempre é um bem, já que seu contrário, a doença, pode por vezes levar o homem a valorizar sua vida e tomar ciência de si mesmo. O poder já foi ocasião para a ruína e a destruição de muitos. Um elevado status social pode concorrer para tornar o homem arrogante e cercá-lo de falsos amigos. O prazer também nem sempre é um bem, pois há prazeres que escravizam e destroem os homens. Seu contrário, a dor, nem sempre é um mal, pois às vezes é um meio para se obter algo maior (como o atleta que se submete a um treinamento extenuante para melhorar seu desempenho). E a vida também não é em si mesma um bem ou um mal, pois há ocasiões em que a morte é opção melhor que a vida (como no caso de alguém que, para continuar vivendo, tem que trair seus princípios, sujeitar-se a indignidades, ou compactuar com crimes). Somente a sabedoria (sophía) propicia a verdadeira boa fortuna, que consiste em estar ao abrigo do que está por vir, porque apenas ela transforma o que acontece aos mortais em bens. A sabedoria possibilita ao homem desfrutar sua saúde e ser perseverante na doença, fazer bom uso tanto da beleza física quanto da feiura, não ver no status social um mérito ou um demérito seu ou dos outros, usufruir o prazer e suportar a dor quando for preciso. Enfim, com a sabedoria o homem pode bem viver e bem morrer.

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O que fazer diante daquele que tem opiniões com as quais não concordamos? Algumas considerações epictetianas

O que fazer diante daquele que tem opiniões com as quais não concordamos? Algumas considerações epictetianas

Aldo Dinucci

Numa época como a nossa na qual pessoas ligadas a diferentes e opostas vertentes políticas publicamente praticam violência e estão sendo efetivamente intolerantes, é bom nos lembrarmos das palavras e das ações dos estoicos, entre eles, Musônio Rufo, o Sócrates romano, que tentou, em 69 de nossa era, deter os soldados que marchavam sobre Roma, comandados por Marco Antônio Prius, general de Vespasiano, falando a eles sobre os benefícios da paz:

Musônio uniu-se às tropas, e, amplificando as bênçãos da paz e os perigos da guerra, começou a admoestar a multidão armada. Muitos o acharam ridículo; outros, cansativo; outros estavam prontos para atirá-lo ao chão e pisoteá-lo caso ele não tivesse ouvido os avisos dos mais comportados e as ameaças dos outros e cessado de exibir sua extemporânea sabedoria.  (TÁCITO, Histórias, iii, 81)

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