Manual de Epicteto, 4: Antecipação das contrariedades e tranquilidade

roman-baths-252279_1920
Em um mundo de multidões, são múltiplos os entraves e contratempos; saibamos antecipá-los (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Quando estiveres prestes a empreender alguma ação, recorda-te de que qualidade ela é. Se fores aos banhos, considera o que acontece na sala de banho: pessoas que espirram água, empurram, insultam, roubam. Empreenderás a ação com mais segurança se assim disseres prontamente: “Quero banhar-me e manter a minha escolha segundo a natureza”. E do mesmo modo para cada ação. Pois se houver algum entrave ao banho, terás à mão que “Eu não queria unicamente banhar-me, mas também manter minha escolha segundo a natureza — e não a manterei se me irritar com os acontecimentos”.

Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien

COMENTÁRIO

A consolidação do Império Romano significou muitas coisas. Dentre elas, a emergência das multidões. Entre os séculos I e II, a capital do Império contava cerca de 1 milhão de habitantes, e os domínios romanos como um todo tinham entre 40 e 70 milhões de pessoas, de acordo com estimativas modernas. Pode não parecer muito, mas em se tratando de tempos antigos são cifras colossais. Boa parte dos escritos desse período dá conta desses fatos: há ali descrições vivas das massas que se movimentavam pelos mercados, pelos teatros, pelos templos, pelas termas, pelos fóruns, pelas casernas, pelos jardins públicos e, claro, pelos circos romanos. A realidade imperial era bastante semelhante à nossa em diversos aspectos — apenas a escala era diferente.

Continuar lendo “Manual de Epicteto, 4: Antecipação das contrariedades e tranquilidade”

A “visão do alto”, um exemplo de meditação estoica

the-pleiades-star-cluster-11637_1920
As Plêiades, conjunto estelar na constelação de Touro, a cerca de 440 anos-luz da Terra (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

A filosofia antiga fazia uso de práticas de condicionamento mental tão refinadas quanto variadas. Os escritos que chegaram até nós trazem muitas marcas dessa maneira de conceber o caminho para a sabedoria, embora nos faltem instruções mais precisas do modo como tais exercícios eram levados a termo pelos filósofos. Graças ao trabalho de Pierre Hadot (1922-2010), contudo, parte dessa dificuldade foi sanada, e já é possível reconstituir em linhas gerais alguns dos exercícios espirituais dos antigos.

Certas anotações de Marco Aurélio em seu “diário filosófico” (as Meditações) consistem em uma exortação íntima a imaginar as coisas humanas e terrestres a partir de uma perspectiva longínqua: o imperador-filósofo entregava-se à tarefa de visualizar tudo quanto existe colocando-se para fora do tempo e do espaço por alguns minutos. Por meio do contraste entre a pequenez dos problemas, ambições, desejos e medos que Marco Aurélio reconhecia em si e em seus semelhantes e a vastidão do cosmos e da eternidade, cultivava-se a tranquilidade estoica:

Você pode eliminar muitas das coisas supérfluas que o incomodam, as quais residem unicamente em seu julgamento. E imediatamente abrirá para si um espaço grande e vasto, abarcando com o pensamento o universo inteiro, contemplando a eternidade do tempo e refletindo sobre a mudança rápida das coisas enquanto partes: quão breve o lapso do nascimento à dissolução, quão vasto o abismo do tempo antes do seu nascimento, quão igualmente infinito é o que há depois da sua dissolução. (Meditações, IX, 32)

Continuar lendo “A “visão do alto”, um exemplo de meditação estoica”

Como falar da filosofia estoica a um amigo

oil-lamp-1346754_1920
É radical o compromisso dos estoicos com a vida prática — o resto não passa de palavrório (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

“facere docet philosophia, non dicere”

— Sêneca

Admito que não tenho a mínima ideia do modo como seria possível fazer o tópico “estoicismo” brotar no meio de uma conversa que se dê em, digamos, condições normais de temperatura e pressão. Não temos o hábito de discorrer sobre figuras históricas, correntes de pensamento ou exigências éticas, antigas ou atuais, quando na presença de amigos. Além disso, imersos em nossos cotidianos, é para espairecer ou nos atualizar dos últimos eventos na vida dos que estão longe que nos dedicamos a uns bons dedos de prosa. Excepcionalmente, quando um dos pares se sente oprimido por uma angústia, a conversa gira em torno de uma confissão e uma opinião “externa”, interessada no bem do outro.

Contudo, as amizades têm uma dimensão ética incontornável: supomos que nossos amigos sejam confiáveis e que valorizem mais ou menos as mesmas coisas que nós. Ninguém toma por amigo um indivíduo que não dê mostras de alguma solidez moral, que não esteja razoavelmente à altura do que julgamos ser o nosso caráter. Quanto maior a atenção dada a tais questões, maior a exigência relativamente aos que desfrutam de nossa amizade — e maiores as retribuições da intimidade compartilhada. Quem se importa com o aperfeiçoamento pessoal, por exemplo, dificilmente admitirá um sujeito de costumes dúbios no rol dos amigos e se verá obrigado a abandonar certas relações ao longo da vida.

Continuar lendo “Como falar da filosofia estoica a um amigo”

Manual de Epicteto, 3: Do bom uso dos afetos

statue-873818_1920
Mais cedo ou menos cedo, tudo o que amamos se perderá irreparavelmente (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Sobre cada uma das coisas que seduzem, tanto as que se prestam ao uso quanto as que são amadas, lembra[-te] de dizer de que qualidade ela é, começando a partir das menores coisas. Caso ames um vaso de argila, [diz] que “Eu amo um vaso de argila”, pois se ele se quebrar, não te inquietarás. Quando beijares ternamente teu filho ou tua mulher, [diz] que beijas um ser humano, pois se morrerem, não te inquietarás.

Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien

COMENTÁRIO

A tranquilidade prometida pelo estoicismo tem um nível alto de exigência. Não nos é difícil constatar, ocasionalmente, a fragilidade de tudo quanto nos cerca: temos ciência de que nos movemos em um mundo de coisas transitórias e de que nossa própria vida se inscreve nessa categoria de coisas. A sabedoria popular está repleta de ditados que dão conta da impermanência e mesmo da precariedade da existência como um todo. A questão é que tais momentos em que vemos as coisas de maneira clara permanecem raros como lampejos; dificilmente temos a disposição de revisitá-los com a constância necessária para atingirmos uma clarividência genuína.

Continuar lendo “Manual de Epicteto, 3: Do bom uso dos afetos”

Manual de Epicteto, 2: O propósito do desejo e da repulsa

people-1550504_1920
A Fortuna não tem deferência nenhuma pelo que buscamos obter ou evitar (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

1. Lembra que o propósito do desejo é obter o que se deseja, [e] o propósito da repulsa é não se deparar com o que se evita. Quem falha no desejo é não afortunado. Quem se depara com o que evita é desafortunado. Caso, entre as coisas que são teus encargos, somente rejeites as que são contrárias à natureza, não te depararás com nenhuma coisa que evitas. Caso rejeites a doença, a morte ou a pobreza serás desafortunado. 2. Então retira a repulsa de todas as coisas que não sejam encargos nossos e transfere-a para as coisas que, sendo encargos nossos, são contrárias à natureza. Por ora, suspende por completo o desejo, pois se desejares alguma das coisas que não sejam encargos nossos, necessariamente não serás afortunado. Das coisas que são encargos nossos, todas quantas seria belo desejar, nenhuma está ao teu alcance ainda. Assim, faz uso somente do impulso e do refreamento, sem excesso, com reserva e sem constrangimento.

Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien

COMENTÁRIO

O Manual de Epicteto é um verdadeiro vade-mecum para quem aspira à sabedoria estoica. No trecho que acabamos de ler, comparece novamente a forma imperativa do verbo lembrar: “lembra”, mémnēso. Epicteto esperava que os alunos de sua escola interiorizassem as regras e explicações por ele dadas ao longo das aulas, mas não ignorava a tendência humana ao esquecimento das coisas essenciais. Também nós, nascidos muitos séculos depois, precisamos meditar e nos exercitar com frequência para termos sempre ao alcance da memória um preceito que nos ajude a decidir como agir bem em circunstâncias difíceis ou pouco claras.

Continuar lendo “Manual de Epicteto, 2: O propósito do desejo e da repulsa”

Manual de Epicteto, 1: A dicotomia do controle (ou: O que depende e o que não depende de nós)

traffic-2251530_1920
Há coisas sob nosso controle e coisas fora de nosso controle (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

1. Das coisas existentes, algumas são encargos nossos; outras não. São encargos nossos o juízo, o impulso, o desejo, a repulsa ― em suma: tudo quanto seja ação nossa. Não são encargos nossos o corpo, as posses, a reputação, os cargos públicos ― em suma: tudo quanto não seja ação nossa. 2. Por natureza, as coisas que são encargos nossos são livres, desobstruídas, sem entraves. As que não são encargos nossos são débeis, escravas, obstruídas, de outrem. 3. Lembra então que, se pensares livres as coisas escravas por natureza e tuas as de outrem, tu te farás entraves, tu te afligirás, tu te inquietarás, censurarás tanto os deuses como os homens. Mas se pensares teu unicamente o que é teu, e o que é de outrem, como o é, de outrem, ninguém jamais te constrangerá, ninguém te fará obstáculos, não censurarás ninguém, nem acusarás quem quer que seja, de modo algum agirás constrangido, ninguém te causará dano, não terás inimigos, pois não serás persuadido em relação a nada nocivo. 4. Então, almejando coisas de tamanha importância, lembra que é preciso que não te empenhes de modo comedido, mas que abandones completamente algumas coisas e, por ora, deixes outras para depois. Mas se quiseres aquelas coisas e também ter cargos e ser rico, talvez não obtenhas estas duas últimas, por também buscar as primeiras, e absolutamente não atingirás aquelas coisas por meio das quais unicamente resultam a liberdade e a felicidade. 5. Então pratica dizer prontamente a toda representação bruta: “És representação e de modo algum [és] o que se afigura”. Em seguida, examina-a e testa-a com essas mesmas regras que possuis, em primeiro lugar e principalmente se é sobre coisas que são encargos nossos ou não. E caso esteja entre as coisas que não sejam encargos nossos, tem à mão que: “Nada é para mim”.

Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien

COMENTÁRIO

A primeira lição de Epicteto registrada por Flávio Arriano trata de uma distinção fundamental, dada pela própria natureza, e que tem sido denominada “dicotomia do controle” pelos proponentes do estoicismo contemporâneo. Assim, a filosofia deve nos levar a perceber, de imediato, que existem coisas sobre as quais exercemos controle ― juízo (hupólēpsis), impulso (hormē), desejo (órexis), repulsa (ékklisis) ― e coisas que nos fogem do controle ― corpo (sōma), posses (ktēsis), reputação (dóxai), cargos públicos (arkhaí). A educação filosófica proposta pelos estoicos pretende fazer-nos enxergar o valor real do primeiro conjunto, em oposição ao do segundo, constituído de metas ilusórias. Tanto mais perto está um estoico da sabedoria quanto mais for capaz de concentrar-se nas coisas interiores e menos nas exteriores, relegadas estas à condição de indiferentes.

Continuar lendo “Manual de Epicteto, 1: A dicotomia do controle (ou: O que depende e o que não depende de nós)”

Bem-vindo a “De vita stoica”

marcus-aurelius-1265987_1920
Estátua equestre de Marco Aurélio Antonino em Roma (fonte da foto)

Data de mais de meia década o meu interesse pelo estoicismo. Até então, já me ocorrera ler alguns trechos alentados de Sêneca e Epicteto, mas confesso-lhes que por volta de vinte e poucos anos uma filosofia antiga, centrada em problemas práticos, não tinha grande favor comigo. No campeonato de minhas atenções, ganhavam os escritos que privilegiassem aspectos de composição e estilo em detrimento dos que, de caráter normativo, buscassem um contato com a vida imediata, cotidiana.

O que mudou? Bem, em primeiro lugar, eu mesmo. Um tanto mais avançado em idade, fiquei mais suscetível a questionar-me sobre o uso que vinha fazendo de minha vida. Depois de algum peregrinar por posições mais ou menos radicais, compreendi que a política não satisfaz ou redime ninguém, embora a participação cívica seja importante e a indolência em tais matérias, defeito grave. Tive um reencontro breve com a fé de minha infância, mas ela não me deu respostas concretas nem tranquilidade: hoje eu a mantenho a distância segura, sem renegá-la nem acolhê-la. E finalmente, lendo a República de Platão sem muita paciência para metafísicas, vim a ter um vislumbre do que teria sido o indivíduo Sócrates — aquele que nos disse que devemos ser amantes do “espetáculo da verdade”. De Sócrates aos estoicos, é um pulo: a distância da ágora de Atenas ao Pórtico Pintado (Poikílē Stoá), que lhe ficava adjacente.

Também o mundo mudou — ou terá sido a minha visão do mundo que mudou — e hoje ele me parece bastante mais confuso e imprevisível que há dez, vinte anos. Ambivalente, a tecnologia avança e traz benefícios e problemas de grande impacto. Nossa dependência dos recursos tecnológicos nos fragiliza, ao acostumar-nos a confortos demais, nos sobrecarrega, ao inundar-nos com tanta informação, e nos tenta com controles ilusórios, ao fazer de nós mais espectadores que agentes conscientes da realidade circunstante. À falta de material humano, o escândalo e a inconsistência são a nova normalidade política. Os líderes religiosos não parecem à altura das tradições de que são depositários: vivem vidas como as nossas, falam como quaisquer de nós, e é possível que gostem mais de fama e de dinheiro do que nós próprios. E o fanatismo, que ainda não chegou ao Brasil, espalha seu rastro de sangue em outras partes do globo.

Ora, o que tem o estoicismo a ver com isso? Que respostas pode ele dar? Surpreendentemente, os escritos dos estoicos antigos contêm ensinamentos que podem ser proveitosos aos seres humanos de hoje. Sêneca, por exemplo, pode ensinar-nos a lidar com a ira; Musônio Rufo, a valorizar a vida simples; Epicteto, a disciplinar a mente; Marco Aurélio, a aceitar o transcurso inevitável do tempo. E muito mais não digo, que há todo um blog por fazer.

Este espaço se destinará a textos de minha autoria, sobretudo buscando mostrar a relevância do pensamento estoico em questões contemporâneas e desfazendo equívocos que até hoje existem, além de traduções de artigos de outros autores, dando ao público de língua portuguesa uma ideia do que se anda discutindo no exterior. Com isso, quero tornar mais claras para mim algumas noções e sedimentar certos modos de pensar e práticas do estoicismo.

Por fim, um esclarecimento: não me identifico como estoico. Meu temperamento me pôs bastante longe da imperturbabilidade, que é privilégio do sábio, tal como o postulava o Pórtico. É uma luta contra mim o que travo (e da qual muita vez saio perdedor). A vida estoica, da qual falarei aqui, é um ideal. Nada obstante, ler os estoicos periodicamente, refletir sobre o que dizem e pôr em prática seus ensinamentos são coisas que me têm enriquecido de modos que eu nem julgava possíveis de existir.

E eu gostaria de encorajar você a fazer o mesmo.