O Heráclito Ocasional #3

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Por Donato Ferrara

No caminho de casa ao trabalho, ao cruzar a cidade de carro por uns 15 km, observo os passantes que vão a pé, nas calçadas.

A razão dos que usam máscaras pelos que não as levam é algo como 50/50. Metade das pessoas, portanto, decidiu correr riscos desnecessários.

Não é decisão tão grave quanto deixar de portar a máscara em lugares fechados. No entanto, alguém que caminha desprotegido pode se deparar com outros passantes, muitos deles também sem proteção. A nuvem de aerossóis que envolve uma pessoa se mescla à da outra nesses encontros fortuitos. O risco de contaminação existe, mesmo ao ar livre.

Nestes dias que vão, nós simplesmente não podemos viver na ilusão de que respiramos os ares virginais dos jardins do Éden.

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O Heráclito Ocasional #2

Photo by vijay s on Unsplash

Por Donato Ferrara

Nesta crise, o que mais nos importa, talvez, é conservar a vida das pessoas que amamos.

Acredito mesmo que, para os que já têm alguma experiência, isso seja ainda mais importante do que sobreviver. Evidentemente o melhor é sair ileso, com família e amigos intocados pela doença ou por qualquer outro acidente. É o desejo de todos.

Porém, se me perguntarem por que eu gostaria de manter-me vivo, decerto eu mencionaria as pessoas que me são mais próximas. Quero viver por causa delas, para continuar a conviver com elas.

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O Heráclito Ocasional #1

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Por Donato Ferrara

Faz tempo que não escrevo publicamente. Também faz tempo que não posto vídeos.

Sou um professor. Há quase vinte anos, tenho considerado, de mim para mim, que posso ter alguma coisa a ensinar aos outros. Nos últimos meses venho questionando essa convicção. Terei mesmo algo a dizer? Qual pode ser minha contribuição?

Como ser humano, sou uma bagunça. As pessoas precisariam de professores que lhes ensinem o caos?

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Lidando com uma crise existencial: a via estoica e a via budista

Como seixos à margem do rio, notamos o fluir de tudo (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Cerca de um ano atrás, fui acometido de uma estranha forma de pavor existencial. Foi algo abrupto, desafiando os meus hábitos mentais, que eu julgara fortificantes. Quase todos os dias eu costumava imaginar que a minha vida e a das pessoas com quem me importava eram finitas — e que nada de errado havia com esse fato da natureza.

O que eu pretendia era aumentar o meu apreço pelas coisas que tinha no aqui e no agora, evitando esperanças falsas.

A inspiração para minha rotina diária derivava-se principalmente das Meditações de Marco Aurélio. O imperador-filósofo insistia muito na natureza transitória da (sua própria) vida, fazendo uso de expedientes retóricos diferentes ao longo de seu diário filosófico. De acordo com ele, nós, humanos, somos como “grãos de incenso” (IV, 15) caindo um após outro sobre um altar comum; ao imaginar que você está morto neste preciso momento, você pode ver o resto de sua vida como um “bônus” (VII, 56); não há diferença entre morrer na velhice e morrer “antes do tempo” (IX, 32) etc. 

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Meu pedido de desculpas

Por Donato Ferrara

Gostaria de oferecer um pedido público de desculpas ao Aldo, ao João, à Vanessa, ao Joelson e a outros membros do GT Epicteto pelo modo rude e destrambelhado como expressei uma diferença de ponto de vista que certamente deveria ter sido colocada de maneira bem mais cautelosa e amigável.

Aliás, uma diferença de ponto de vista que nem mesmo é das mais claras para mim, apesar de continuar não me considerando um estoico, mas alguém particularmente interessado nessa filosofia.

Não houve, da minha parte, sensibilidade de perceber que o assunto envolvia bem mais do que me pareceu à primeira e apressada vista. Posso dar testemunho da seriedade e da integridade das pessoas envolvidas nesse futuro projeto de resgate dos ensinamentos dos estoicos — e, por algum motivo, sabe-se lá por que desvãos de viagem egoica, esta constatação não me pareceu o suficiente no momento em que redigi o texto. Acabei fazendo um ataque precipitado e injusto a uma iniciativa que é legítima e promissora.

Por isso, já retirei do ar os textos da controvérsia que causei.

Como ponto positivo, meu texto, ruim como foi, ensejou um bom exercício de esclarecimento de ponto de vista por parte do Aldo e dos outros, que pode ser lido aqui.

Sinceramente,
D.

Mais textos no Medium

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Tudo passa e nada se detém (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Eis as últimas coisas que andei publicando por lá:

O QUE OS BRASILEIROS PODERIAM APRENDER COM OS ESTOICOS ROMANOS, (07/05/2020);

BOM DIA, DISTOPIA, (22/05/2020);

100 MIL MORTES — MAS “VAMOS TOCAR A VIDA”!, (08/08/2020);

FALANDO DE COISAS DIFÍCEIS A UMA CRIANÇA, (17/08/2020).

Abraços a distância!

D.

Notas estoicas, 6: Não há felicidade certa nas coisas incertas

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Que espécie de contentamento poderemos tirar de coisas passageiras? (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Será a ruína do espírito andarmos ansiosos pelo futuro, desgraçados antes da desgraça, sempre na angústia de não saber se tudo o que nos dá satisfação nos acompanhará até ao último dia; assim, nunca conseguiremos repouso e, na expectativa do que há de vir, deixaremos de aproveitar o presente. Situam-se, de fato, ao mesmo nível a dor por algo perdido e o receio de o perder. (Sêneca, Cartas a Lucílio, XCVIII, 6; trad. J. A. Segurado e Campos)

No meio de uma situação alegre, qualquer pessoa dotada de consciência já deve ter surpreendido em si um pensamento mais ou menos assim: e quando tudo isto terminar? e quando todas estas pessoas se forem? Ou: por quanto tempo mais terei ao meu lado tais coisas?

Por que às vezes nos torturarmos com a transitoriedade de nossa própria alegria, ao invés de aproveitá-la gota a gota, é talvez um mistério. Não menos misterioso é não termos igual clarividência quando nos defrontamos com situações difíceis. Pois estas, como todas as outras, passam: e isso deveria nos tranquilizar — ao menos no caso de tristezas.

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Meus últimos textos no Medium

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Tempos de incerteza (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Enquanto ponho esta casa em ordem e preparo um texto sobre a atitude estoica diante da crise social em que nos encontramos, os que frequentam este site talvez queiram dar uma lida nos últimos artigos que redigi em outra plataforma:

A NOSTALGIA DO MISTÉRIO, (12/08/2019);

ANTÍGONA E A CULTURA DO CANCELAMENTO, (21/02/2020);

O VÍRUS E NÓS, (26/02/2020);

EM MEIO À INCERTEZA, O ESPÍRITO, (08/03/2020);

COVID-19: O QUE ESTÁ EM JOGO, (17/03/2020).

Fiquem bem!

D.

Por que ler os estoicos pode ser melhor que contratar um coach

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Recorrer à sabedoria dos antigos pode ser uma boa ideia (fonte da foto)

Acompanhem a série de artigos, que contará com cinco partes, em minha conta no Medium. É um work in progress: este post será atualizado, à medida que as novas partes vierem à luz.

PARTE 1: Vantagens econômicas

PARTE 2: O sucesso não depende exclusivamente de você

PARTE 3: Uma felicidade sem ética não vale a pena

Dois sonetos

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Detalhe de baixo-relevo celebrando um triunfo de M. Aurélio; sobre a cabeça do imperador, vê-se seu “espírito guardião” (fonte da foto)

Tenho trabalhado em alguns textos de maior complexidade e que virão a lume, volente Fortuna, aqui no “De vita stoica” nas próximas semanas.

Enquanto isso, deixo meus leitores e minhas leitoras com dois sonetos não tão recentes: o primeiro deles, “Do ofício de homem”, já o tinha eu divulgado aos amigos da minha então conta de Facebook (já falecida e devidamente sepultada). Quanto ao segundo, “Teologia”, não o tinha mostrado a praticamente ninguém, com duas exceções — para mim muito caras.

Os que estiverem familiarizados com Marco Aurélio Antonino decerto se lembrarão da noção de “ofício” ou “trabalho” próprio do ser humano (anthrōpou érgon, ἀνθρώπου ἔργον), com que o imperador-filósofo persuadia e exortava-se a si mesmo a permanecer no caminho reto, ainda que as circunstâncias fossem as mais difíceis. O tom cético relativamente à filosofia, que se nota no início do poema, deve ser entendido à luz de uma visão mais “essencialista” da vida: estamos aqui para praticar o bem, ainda que frágeis de corpo e de entendimento. É como se o que restasse da vida fosse uma nota de resistência, e mesmo de garbo — apesar de tudo.

Quanto aos catorze versos de “Teologia”, não têm tanta importância a profissão de fé de agnosticismo radical que ali inscrevi, nem a aparente indecisão quanto à existência de Deus ou de deuses: uso os argumentos e as noções metafísicas de outrem para ilustrar como, em meu modo de ver as coisas, tudo, por inessencial, acaba equivalendo-se. Como já o escreveu o nosso Antonino, havendo Providência ou átomos, nossa responsabilidade ética não se altera (veja, por exemplo, Meditações, IV, 3; VI, 44; IX, 39).

Porém, deixo o leitor eventual com uma perplexidade: não entendo por que muitos dos que não duvidam, nem por um momento!, de que Deus exista não derivam daí uma grande, inabalável, profícua incerteza a respeito de si mesmos e de suas próprias motivações. Um “Deus” que seja um estandarte com que desfilamos para nossos iguais e alvejamos as cabeças dos diferentes ou ainda um tabique por detrás do qual escondemos o que é vergonhoso em nós não vale a pena. Se há Deus, penso, só pode ser uma divindade que nos leve a duvidar — mas será boa esta minha noção?

Já estou eu explicando-me demais, o que é sempre fatal para quem escreve versos, bons ou maus. Vamos à leitura.

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