Balanço II

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Por Aldo Dinucci

Escrevo este pequeno texto como continuação das reflexões de Donato Ferrara, publicadas em seu blog De vita stoica, no dia 18 de março deste ano.

Eu comecei a me envolver e estudar o estoicismo há cerca de vinte anos, na bela Cidade Imperial. O primeiro ponto que me chamou a atenção na filosofia do Pórtico foi sua proposta de reintegração do humano com o Natural e com o Divino, que, para os estoicos, se confundem em um só. Passei quase quinze anos estudando sozinho a filosofia estoica, tempo em que criei em minha interioridade um discurso que constitui minha visão sobre o estoicismo, centrada sobre a mencionada reunião humano/natureza, que chamo de espiritualidade ou cosmovisão estoica.

Há cerca de seis anos, comecei a promover um grupo de pesquisa em torno de Epicteto, e cheguei a considerar aqueles que se aproximaram de mim para integrar o grupo como meus verdadeiros amigos. Achei, então, possível, recriar a experiência do Pórtico antigo, cujos membros estabeleciam laços de amizade entre si.

No fim, o apelo à época foi mais forte, pois muitos se aproximaram meramente por motivos acadêmicos. Isso era de se esperar. Esta é nossa época. Por que, afinal, muitas pessoas seguiriam modos de ser de milhares de anos atrás se as promessas acadêmicas atuais brilham em nossa frente como bezerros de ouro?

Nem tudo foi perdido, entretanto. Entre os que se aproximaram, havia realmente alguns interessados em formar um tal grupo. Explico: a cosmovisão estoica prescreve que somos sem exceção irmãos e irmãs do Cosmos, o que, depois que se dá conta disso, nos leva naturalmente a uma relação fraternal. Entre estes que vieram animados de sentimentos sinceros de amizade, destaco João Leite Ribeiro e Donato Ferrara.
Nesse meio tempo, tivemos notícia de um “renascimento” do estoicismo na América do Norte e na Europa. A princípio, ficamos exultantes: será que ouviram nossas almas? Será sincronicidade?
Foi, na realidade, um engano nosso e uma decepção. O suposto “renascimento” era, na verdade, inspirado no neoliberalismo, na autoajuda e na teologia da prosperidade. Era uma evidente traição do Pórtico antigo.

Não me estenderei a essas críticas, mas quero com isso dizer que compreendo e compartilho o que diz Donato em seu desabafo.


Entretanto, quero deixar meu testemunho de que ter encontrado seu blog anos atrás na net foi uma inspiração e um privilégio. Aprendi com Donato e João Leite a escrever textos de divulgação. Antes eu escrevia sobretudo textos acadêmicos, e me fez toda a diferença escrever textos para o público geral, o que acabou me abrindo espaço para publicar livros de divulgação.

Esses textos de divulgação me realizam bastante, pois me colocam em contato com o grande público, ao mesmo tempo me protegendo do contato com a academia, ambiente propício para a difusão de invejas, desprezos e solidões.

Após reestruturar meu grupo, estabeleci diálogos de alto nível com várias pessoas acerca do estoicismo.Vilmar Prata, Marcus Resende, Danilo Patutti, Rafael Rodrigues e seus alunos, só pra citar alguns (me desculpem os não citados, não quero aqui fazer uma lista). Hoje, na verdade, dialogo com tantas pessoas quanto eu poderia.

Colocando tudo na balança, o saldo para mim é muito positivo. Não conseguimos uma super-audiência comparável à de alguns? Quem disse que este seria o objetivo? Doa a quem doer, o estoicismo nunca foi uma filosofia de massa. Os estoicos nunca evangelizaram, nunca rebaixaram sua filosofia para alcançar popularidade. Aliás, denunciavam esta estratégia como indigna de um filósofo.

Conseguimos, na verdade, nosso objetivo, que era reacender a chama da antiga Stoá. E estabelecemos relações de amizade para muito além de interesses acadêmicos e mesquinhos, o que, nos dias de hoje, tempos de massificação, desumanidade, ostentação e vazio, se constitui como verdadeiro tesouro.

Parafraseando Carl Sagan, constituímos uma rede de pequenas luzes na ampla escuridão reinante.

A Peste Antonina e a morte de Marco Aurélio segundo Frank McLynn

Aldo Dinucci

O texto que segue é uma síntese do que nos ensina Frank McLynn em seu livro Marcus Aurelius, warrior, philosopher, emperor (publicado pela Vintage (UK), em 2010), no que se refere à Peste Antonina, que se abateu durante seu reino, e à morte de Marco Aurélio em decorrência dessa mesma epidemia.

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