Catão de Útica diante da morte

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Catão enterra a espada em seu peito em tela de Jean-Paul Laurens (1838-1921) (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

A vida e a morte de Marco Pórcio Catão, o Jovem, confundem-se em tal grau com os últimos lances da República romana que é impossível entender a figura fora do contexto histórico que a forjou — assim como é impossível compreender tal contexto sem a menção ao papel de Catão. Bisneto homônimo de outro Catão (234-149), dito o Velho, que fora o severo censor romano durante a Segunda Guerra Púnica (218-201 a.C.), ele nasceu em Roma no ano de 95 e faleceu em 46 antes de Cristo na cidade de Útica, próxima a Cartago (região da atual Tunísia). Por ter morrido ali, naquela praça-forte africana que era o último reduto dos defensores da República, seus admiradores próximos passaram a chamá-lo de Catão de Útica ou Catão Uticense, seguindo uma tradição que atrelava a denominação da localidade em que se dera o falecimento de uma pessoa ilustre ao próprio nome dela.

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Vergonha e culpa no estoicismo

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A vergonha e a culpa são desafios a qualquer vida guiada por exigências éticas (fonte da foto)

Por João Leite Ribeiro

“Amarga é a punição nascida da vergonha” — Sêneca.

Como lidar com grandes vergonhas ou grandes culpas?

Entendo que a vergonha seja nossa culpa vista pelos outros, e a culpa é aquela que é vista por nós mesmos.

“Quem peca, contra si peca” — Marco Aurélio.

Ou seja, ter a consciência tranquila é importante, não apenas escapar dos maus julgamentos dos outros. Já me disseram que na Grécia havia mais vergonha do que culpa, mas acredito que a responsabilidade era fundamental no estoicismo, e portanto o sentimento de culpa. Acredito que ambos os sentimentos eram difíceis.

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O Estoicismo é a língua universal

© Direitos autorais reservados.

Reproduzido com a permissão do autor (texto original).

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O Estoicismo foi provavelmente a primeira corrente filosófica que reconheceu a igualdade entre todas as pessoas (fonte da foto)

Por Paula Trindade e Kai Whiting

O Estoicismo foi provavelmente a primeira corrente filosófica que reconheceu a igualdade entre todas as pessoas. Para os antigos estoicos, o caminho para a felicidade estaria aberto a todos, pelo simples facto de se ser um humano. Não dependia do género, da origem ou da cidadania. Mais ainda, os estoicos defenderam que qualquer pessoa poderia aceder ao bem-estar, inclusivamente se não possuísse saúde, riqueza ou um elevado nível de educação. Estas teorias ainda formam a base do conceito estoico de cosmopolitismo, assim como o da construção dos “círculos de preocupação”, concebidos pelo filósofo Hiérocles. O círculo interior representa o “eu”, ou seja, a si próprio. Os seguintes as ligações mais próximas, como a “família” e os “amigos”. Depois, chegamos aos círculos mais afastados, até atingirmos toda a humanidade. O que se pretende é uma reflexão sobre cada círculo até que se converta no primeiro, de que cada um faz parte. Ao fazê-lo, damos espaço para reconhecer toda a humanidade em nós próprios e a nós mesmos na humanidade inteira. Ao atuarmos desta forma, as diferenças entre as pessoas desaparecem, ao mesmo tempo que ganham força as características que temos em comum.

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Manual de Epicteto, 5: A inquietação deriva das opiniões

Morte de Sócrates
Com tranquilidade, Sócrates bebe a cicuta em quadro de Charles Alphonse du Fresnoy (1611-1668) (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

(a) As coisas não inquietam os homens, mas as opiniões sobre as coisas. Por exemplo: a morte nada tem de terrível, ou também a Sócrates teria se afigurado assim, mas é a opinião a respeito da morte — de que ela é terrível — que é terrível! Então, quando se nos apresentarem entraves, ou nos inquietarmos, ou nos afligirmos, jamais consideraremos outra coisa a causa senão nós mesmos — isto é: as nossas próprias opiniões.

(b) É ação de quem não se educou acusar os outros pelas coisas que ele próprio faz erroneamente. De quem começou a se educar, acusar a si próprio. De quem já se educou, não acusar os outros nem a si próprio.

Tradução de Aldo Dinucci e Alfredo Julien

COMENTÁRIO

Ao lermos o que Epicteto diz neste ponto do Manual, é possível que experimentemos duas reações interiores, em sequência e contraditórias. A primeira delas é de concordância com o enunciado geral: é fácil convencer-se de que não são as coisas que nos afetam, e sim nossas opiniões a respeito delas, ainda mais se temos em mente que as pessoas, confrontadas com situações iguais, acabam reagindo de maneiras diferentes. Assim, a um parece insuportável um tratamento dentário doloroso e complexo, a outro suportável; um dá cabo rapidamente do rato que lhe apareceu em casa, outro se paralisa com medo ou nojo do roedor; um consegue concentrar-se no meio de uma sala barulhenta, outro se sente incomodado com a algazarra. Percepções diferentes produzem ações também diferentes.

Nossa segunda reação, contudo, põe em xeque o assentimento que demos à primeira proposição ou afirmativa: “a morte nada tem de terrível” (ho thánatos oudèn deinón). Como assim? Haverá constante humana mais universalmente observável do que o medo da morte? Qual de nós não teme a morte? Quem não deseja preservar-se a si mesmo pelo maior tempo possível? Dando-se a um contrassenso tão flagrante, o estoicismo de Epicteto nos aparece sob uma luz particularmente negativa: como uma filosofia inumana, se não risível.

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Por que não sou cético

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Do que podemos ter certeza em nossa busca pela tranquilidade? (fonte da foto)

Por João Leite Ribeiro

Diógenes Laércio dizia: “Os filósofos céticos passavam seu tempo destruindo os dogmas de outras escolas e não estabelecendo nenhum que fosse seu próprio”.

Esse ponto de vista é interessante. Transpondo da discussão filosófica para nossa vida, quantos dogmas já não criamos, os quais na verdade eram falsos? Se formos ser rigidamente lógicos, não será necessária a conclusão de que tudo é duvidoso? E , a partir daí, ao concluirmos que nada podemos concluir, não nos traria isso uma despreocupação, uma ausência de dúvidas que nos traria paz?

Pelo ceticismo chegaremos, diz Sexto Empírico “primeiro à suspensão do juízo, depois à ataraxia”.

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Quando a razão é insuficiente

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Muitos remédios que existem à nossa disposição podem dificultar-nos o uso da razão (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Não, este blog não foi abandonado. Não tenho publicado por aqui com a mesma assiduidade do ano passado, mas isso não quer dizer que não venho dedicando-me a escrever nada. Aliás, neste momento há boa dúzia e meia de textos começados, ruminados e mal e mal remendados, entre meus rascunhos. Vejamos se nas próximas semanas eles vêm à luz.

A dificuldade que experimento se explica em parte por circunstâncias que me reduziram o tempo livre, em parte por algo a que eu poderia chamar “falta de inspiração”. E minha inspiração se estiolou, tudo me indica, em decorrência de um episódio que abalou muito de minha confiança como alguém que propõe a si mesmo e aos outros o estoicismo como filosofia de vida viável para os tempos de hoje. Acredito que escrever sobre tal episódio me permitirá entendê-lo melhor. É o que pretendo fazer nas linhas seguintes.

Antes, serei claro mais uma vez: não sou um estoico, mas alguém interessado no estoicismoProcuro, dentro de meu entendimento e forças, praticar certos aspectos da filosofia estoica em meu cotidiano, dando muita vez com os burros n’água. Se méritos tenho neste blog, é como intérprete, meio impertinente, dessa filosofia: tive a sorte de encontrá-la e de aprender a navegar pelos textos que aqui cito; quero partilhar com meus leitores algo da alegria, surpreendente e sempre renovada, que experimento ao ver uma boa porção da vida iluminada por escritores que viveram muitos séculos atrás. Desejo que os que me leem se beneficiem ainda mais das ideias do Pórtico do que eu mesmo, que realizem plenamente o ideal da vida estoica, distante de mim.

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