“A essência do estoicismo” ― Massimo Pigliucci*

© Direitos autorais reservados.

Traduzido e reproduzido com a permissão do autor (texto original).

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O ovo, antigo emblema da filosofia estoica: a casca era a lógica; a clara, a ética; a gema, a física (fonte da foto)

Apesar do título deste artigo, não acredito em essências. Ao menos não no sentido de que uma ideia ou objeto complexo possam ser reduzidos a uma essência. Evidente, a “essência” do elemento Ouro pode ser concebida como o fato de ter número atômico 79, no sentido de que, para que algo seja Ouro, é tanto necessário quanto suficiente que a coisa em questão seja feita de átomos com 79 prótons. De modo similar, a “essência” da figura geométrica Triângulo é que a soma de seus ângulos internos seja 180 graus.

Mas poucas outras coisas na vida ou na natureza são passíveis de definições concisas em termos de condições necessárias e conjuntamente suficientes, como Wittgenstein o demonstrou de modo célebre no caso enganosamente simples de “jogo”. Tente fornecer uma pequena quantidade de condições que tenham de ser satisfeitas para que uma atividade se configure enquanto “jogo” e que a separem de todos os “não jogos”, e logo você se perderá em um aglomerado sempre crescente de atividades “semelhantes-mas-ainda-assim-não-as-mesmas”, compartilhando aquilo a que Wittgenstein se referiu como uma parecença familiar [Familienähnlichkeit] — mas não uma essência.

Se jogos não têm essências, não a têm também conceitos mais complexos como teorias científicas ou sistemas filosóficos. Portanto, não: não lhes fornecerei uma resposta à pergunta “o que é, essencialmente, o estoicismo?”, simplesmente porque não há resposta para isso. Ou, melhor ainda, porque se trata de uma pergunta mal formulada, para início de conversa.

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“Epicteto e Stockdale: Algumas estratégias para combater o assédio moral” — Aldo Dinucci*

© Direitos autorais reservados.

Artigo gentilmente cedido em forma de colaboração.

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Sair da posição de vítima e agir, buscando uma resposta moral e socialmente correta (fonte da foto)

O presente texto se baseia numa palestra que fiz para alunos do Ensino Médio em Tobias Barreto, cidade do interior de Sergipe, em outubro de 2017. Minha ideia era falar para os jovens sobre estratégias para combater o assédio moral e a manipulação, usando como ferramentas o pensamento de Epicteto e Stockdale.

Epicteto, um dos grandes nomes do Estoicismo Imperial, entre os quais se incluem Sêneca, Musônio Rufo e Marco Aurélio, nasceu no ano de 55, em Hierápolis, na Frígia, e morreu por volta de 135, em Nicópolis, antiga cidade localizada na entrada do Golfo Ambraciano, no Épiro. Epicteto mesmo nada escreveu. Tal tarefa coube a Lúcio Flávio Arriano Xenofonte, cidadão romano de origem grega, que compilou (possivelmente com auxílio da taquigrafia) suas aulas em oito livros (As Diatribes de Epicteto), dos quais quatro sobrevivem, e constituiu o Encheirídion de Epicteto, um breviário de princípios morais epicteteanos. Há uma tradução nossa anotada do Encheirídion disponível para download aqui.

James Bond Stockdale foi um oficial norte-americano, piloto de caça, que estudou Epicteto enquanto fazia seu mestrado em Stanford e teve a possibilidade de testar na prática o pensamento epicteteano enquanto prisioneiro de guerra durante sete anos e meio no Vietnã. Stockdale, após ser libertado, escreveu um livro sobre sua experiência, que traduzimos e disponibilizamos para download neste outro link.

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Notas estoicas, 5: De banhos frios, jejuns etc.

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A disciplina do corpo subordina-se a um exercitar-se que vise à liberdade interior (fonte da foto)

Nossos exercícios não devem consistir em coisas contrárias à natureza ou inauditas, pois, se assim o fizermos, nós, que nos dizemos filósofos, em nada nos diferenciaremos dos que fazem truques. É difícil caminhar sobre uma corda esticada; e não só difícil, mas perigoso. Será essa uma razão para que pratiquemos o equilíbrio sobre cordas, a escalada de palmeiras ou o abraço nas estátuas? De maneira nenhuma. Não é a dificuldade ou o perigo que são adequados ao exercício, mas sim sua utilidade relativamente ao fim proposto por nossos esforços. E qual é o fim proposto por nossos esforços? Viver sem entraves em nossos desejos e nossas repulsas. Que é isso? Não se ver frustrado naquilo que se deseja, nem cair naquilo por que se tem repulsa. Eis o objetivo a que deve tender o exercício. (Epicteto, Diatribes, III, 12: 1-4)

Há dois substantivos gregos que denotam o ato de treinar ou exercitar-se: áskēma e áskēsis. Ambos têm origem no verbo askéō, o qual, nos poemas homéricos, era empregado em contextos que indicavam o trabalho com a lã ou o metal brutos, ou ainda a confecção de instrumentos como um arco. Com o transcurso dos séculos, passou a significar “fazer exercícios”, tanto no âmbito das atividades atléticas quanto no da vida moral. No Eutidemo de Platão, por exemplo, Sócrates expressa seu desacordo face aos sofistas com que dialoga perguntando-lhes o que havia em sua argumentação capaz de exortar os jovens a exercitar a sabedoria e a virtude (seção 283a: sophían… kaì aretḕn askeîn). Do vocabulário filosófico, migrou para a religião com Fílon de Alexandria (ca. 20 a. C. – 50 d. C.), no judaísmo, e os pensadores cristãos, donde as palavras ascese, ascético e ascetismo com o sentido que hoje lhes emprestamos em português, quase exclusivamente marcado pela noção de um ato de purificação ditado por uma intenção religiosa (para os vocábulos gregos, vejam-se os verbetes correspondentes dos dicionários de Bailly e Chantraîne).

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Entrevista com Aldo Dinucci (Trecho)

Está no ar desde a última quarta-feira, 25 de outubro, a entrevista que fiz com Aldo Dinucci, professor da Universidade Federal de Sergipe e tradutor de Epicteto e Musônio Rufo.

Abaixo, o trecho inicial do bate-papo publicado pelo site Sociedade Científica.

Fale-nos um pouco de sua trajetória acadêmica e do modo como você teve contato com a filosofia estoica.

Iniciei minhas leituras filosóficas quando garoto, lendo primeiro Lucrécio (Da Natureza das Coisas, poema maravilhoso) e depois diálogos de Platão. Sempre senti proximidade com a literatura clássica quando menino, lendo, por exemplo, a Odisseia uma dezena de vezes. Menino, vivia em Petrópolis, nos anos 70 e 80. A cidade era perfeita para ler e meditar. Além disso, tinha inúmeros sebos nos quais eu podia comprar livros de qualidade por preço irrisório. Afora os clássicos, eu gostava muito de poesia brasileira e literatura de divulgação científica, como os livros de Asimov e, sobretudo, de Carl Sagan. A minha graduação na UERJ foi apagadíssima, nada me interessava. Passei o tempo lendo Jung e Philip K. Dick. Meu mestrado e meu doutorado foram sobre Aristóteles, Górgias e o Sócrates dos “primeiros diálogos” de Platão. Um dia, na biblioteca da UCP de Petrópolis, onde então trabalhava, me caiu nas mãos uma edição das cartas de Sêneca. Fiquei chocado: jamais havia ouvido falar dos estoicos em 10 anos de estudos em filosofia! Depois comprei uma coletânea de textos estoicos de Jean Brun. No final do livro, me deparei com o Manual de Epicteto. Fiquei atônito: como um texto daquela relevância poderia estar fora do alcance dos leitores lusófonos contemporâneos? Decidi traduzir do grego a obra, o que realizei efetivamente.

De um ponto de vista prático, quais são os princípios do estoicismo de que você se beneficia em seu cotidiano?

O mais importante para mim é a distinção de Epicteto entre coisas que estão sob nosso encargo (eph’hēmîn) e coisas que não estão sob nosso encargo (ouk eph’hēmîn). Segundo este princípio, as coisas externas, aquelas que não se identificam com as operações básicas do pensamento, não são por si mesmas boas ou más, são outrossim materiais para a nossa ação, dos quais podemos fazer bom ou mau uso. Há materiais mais difíceis de lidar, outros mais fáceis, mas todos podem ser utilizados por nós de uma boa maneira. Essa distinção, aparentemente simples e contrária ao senso comum, é extremamente útil. Ao retirarmos o valor das coisas externas e o colocarmos sobre as nossas próprias coisas, nos concentramos sobre o que realmente podemos realizar, aceitando a externalidade como o material que nos é dado para trabalhar. Por exemplo, no caso das dificuldades, quando um problema nos ocorre, como doença, vazamento no encanamento, pessoas desonestas que abusam de nossa confiança, ao invés de nos concentrarmos sobre o fato externo, lamentando e sofrendo, nos concentramos sobre o que podemos efetivamente fazer para, ao mesmo tempo, superar a dificuldade e manter-nos mentalmente saudáveis.

Leia a íntegra da entrevista aqui.

“Como o estoicismo me ajudou a superar a depressão” — Andrew Overby*

© Direitos autorais reservados.

Traduzido e reproduzido com a permissão do autor (texto original).

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A sabedoria estoica pode ser uma luz no fim do túnel (fonte da foto)

No princípio, todos queremos mudar o mundo. Os depressivos apegam-se a este impulso por mais tempo que a maioria, acho, e desse modo, quando se dá a constatação inevitável de que não se pode fazê-lo, “a ficha desaba” com peso maior.

A constatação de que cada um de nós não passa de um ator no palco global, e não seu principal arquiteto, é uma daquelas mudanças de consciência significativas, mas possivelmente sutis, que separam certos aspectos da juventude daqueles da idade adulta — tamanho é o seu efeito. Trata-se, talvez, de um dos primeiros resvalos da inteligência nas limitações humanas.

Os que têm propensões ao perfeccionismo e ao sonhar grande podem ser fortemente afetados por isso. Ser a um só tempo um sonhador diuturno e alguém que sabe que seus sonhos de mudar o mundo — ao influenciarem aquilo que se percebe como um destino ou uma força de vontade próprios — são extremamente improváveis de verificar-se é um convite para a visita do pensamento deprimente.

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Notas estoicas, 4: O estoicismo e as relações familiares

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É inútil (e desgastante) tentar controlar nossos parentes, mas não a maneira como os tratamos (fonte da foto)

O homem de bem não se desentende com ninguém de sua própria iniciativa e, tanto quanto pode, impede os outros de fazê-lo. A vida de Sócrates nos fornece também um exemplo deste fato: ele não somente evitava brigar com os demais, mas também impedia o desentendimento entre outros. Veja no Banquete de Xenofonte quantos conflitos ele apaziguou; por quanto tempo ele suportou Trasímaco, Polo e Cálicles; como ele tolerava sua esposa e até o filho, que buscava refutá-lo com sofismas. Pois ele se lembrava sempre de que nenhum homem tem poder sobre a faculdade diretora de outro. Não desejou, portanto, nada que dele mesmo não fosse. E o que era isso? Não era fazer alguém agir em conformidade com a natureza (pois é coisa que pertence a outrem), mas, enquanto os outros tratam o que é deles como lhes apraz, manter-se em um estado conforme com a natureza, limitar-se a seus próprios atos de modo que os outros se ponham, por seu turno, em conformidade com a natureza. Eis o que é sempre objetivo do homem de bem. Será o de tornar-se pretor? Não, mas se esse posto lhe cabe em sorte, ele conserva intacta sua faculdade diretora em tal circunstância. Será o de casar-se? Não, mas se lhe é dado casar-se, ele se mantém em um estado de conformidade com a natureza em tal circunstância. Porém, se ele quisesse que um filho ou uma esposa não cometesse erros, estaria querendo que aquilo que pertence a outrem não pertencesse a outrem. E ser instruído [na filosofia] é exatamente isto: aprender aquilo que é próprio de si e o que é de outro. (Epicteto, Diatribes, IV, 5: 1-7)

Uma das características distintivas das relações familiares é que elas não se baseiam no poder de eleição dos indivíduos, sendo totalmente independentes de nossas escolhas (ou quase sempre assim). Trata-se de uma realidade tão fundamental que, se quiséssemos definir o ser humano em chave biológico-filosófica, poderíamos ser levados à constatação de que todo e qualquer um de nós é filho de duas outras pessoas, um pai e uma mãe, ainda que possamos não vir a conhecê-los. O homem é sempre aquele ser que é filho de alguém. Acresce a isso o fato de que muitos de nós têm ainda irmãos e poderão vir a tornar-se progenitores um dia, o que cria uma rede complexa de relações que inclui, para além do núcleo doméstico mais convencional, avós, tios, primos, sobrinhos e — por que não? — irmãos de criação. Em tal configuração, uma multiplicidade de conflitos razoavelmente duradouros pode surgir. E, como ninguém o ignora, eles não podem ser resolvidos como os de outra natureza: não é possível pedir demissão de sua própria família, nem mudar-se dela como se muda de casa, nem contratar parentes que nos sejam mais satisfatórios. Arbitrariedade das arbitrariedades da Fortuna, a família é um grande laboratório da tolerância — ao menos para aqueles que têm mais horror às lamúrias que aos obstáculos que a vida cria.

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Marco Aurélio diante da morte

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Tendo Cômodo à mão esquerda, Marco Aurélio diz as últimas palavras em tela de Delacroix (1798-1863) (fonte da foto)

O período compreendido entre 161 e 180 foi dos mais atribulados da história romana. Marco Aurélio, assumindo o trono depois da morte de Antonino Pio, em 7 de março, herdou do pai adotivo um império com problemas administrativos advindos de seu gigantismo e assediado por povos estrangeiros em muitas fronteiras. Para a tarefa de governar, ele fez-se coroar ao lado de Lúcio Vero, seu irmão por adoção, o qual viveu até 169. Pensando apenas nos episódios militares de maior relevo, em muitos dos quais Marco Aurélio tomou parte pessoalmente, vemos que houve guerras contra os partos entre 161 e 166, problemas com os germânicos de 167 em diante, batalhas contra os marcomanos a partir de 168 — estes chegaram às portas da Itália, junto com os quados, dois anos depois, e só foram derrotados em 172. O soberano de Roma ainda teve de medir-se com os iáziges nômades em 174, além de garantir a pacificação de suas tropas orientais quando Avídio Cássio, seu principal general, tentou rebelar-se e tomar o poder, sendo morto em 175. O império também foi sacudido por calamidades, como uma grande inundação do Tibre por volta de 162, surtos de peste que se sucederam entre 165 e 180, havendo, de mais a mais, terremotos na cidade de Esmirna (Ásia Menor) em 178.

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