A Fruição do Prazer no Estoicismo

Por Aldo Dinucci

 

Diz-nos Aulo Gélio (Noites Áticas, III, XIX, ii, 7-8): “Sócrates costumava dizer que os homens desejam viver para comer e beber, mas ele comia e bebia para viver”. O Estoicismo reafirma essa posição socrática, segundo a qual fazer do prazer a razão do viver é pôr-se sob o domínio da externalidade. Porém, não há aí uma condenação do prazer: ele será bom se o homem usufrui-lo mantendo-se senhor de si mesmo e respeitando a comunidade em que vive.

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MUSÔNIO, DIATRIBE 11 (QUE É ADEQUADO AO FILÓSOFO VIVER JUNTO À NATUREZA, NO CAMPO, E DEDICAR-SE À AGRICULTURA E AO PASTOREIO):

Comentário de Aldo Dinucci:

A seguinte aula de Musônio, estoico romano que foi professor de Epicteto, é particularmente importante porque nela ele afirma que a agricultura e o pastoreio, a vida no campo, enfim, é uma das profissões apropriadas para um estoico. Como Musônio nos diz, uma das conotações básicas do Viver segundo a natureza (o lema estoico) é buscar alimento diretamente da Natureza, que é nossa mãe. Musônio comenta que a vida no campo nos afasta dos vícios aos quais as cidades nos convidam. E que mesmo ensinar filosofia é mais fácil no campo, onde o professor, trabalhando a terra, pastoreando e fazendo suas refeições junto com seus alunos, pode lhes ensinar sobre a virtude por meio de seus próprios exemplos, que falam mais alto que palavras.

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Há uma ética no estoicismo? (Por George Felipe Bernardes Barbosa Borges)

 

George Felipe Bernardes Barbosa Borges

 

Durante essa quarenta falava com um amigo sobre questões referentes a bioética. Ele colocou um problema bem interessante e sensível acerca da identidade pessoal, isto é, de como alguém olha para si mesmo e se reconhece enquanto tal. Meu amigo supôs uma situação limite: caso algum dia se prove que a homossexualidade é uma patologia, seria eticamente correto tratar as pessoas compulsoriamente? Imediatamente lembrei de outros problemas bioéticos que são muito similares a este, como por exemplo, o casal lésbico de deficientes auditivos que tinham a preferência por ter um filho surdo. Sandel conta que procuraram um doador “cuja família tivesse um histórico de cinco gerações de surdez” (2013, p. 15).

Meu amigo estranhou minha linha de argumentação. Eu afirmava que há um ramo da ética (neste caso, da metaética) que prezava por um relativismo moral, cujas convicções morais podem derivar e serem justificadas a partir de um movimento social, por exemplo. Por que ocorreu esse estranhamento? Porque no século XVIII um sujeito chamado Immanuel Kant (1724 – 1804) mudou para sempre a história do pensamento. Kant almejava conferir à ética o mesmo caráter universal que vemos na ciência. A ética agora é deontológica (δέον, dever e λόγος, ciência). Nasce assim o “imperativo categórico”, isto é, deve-se agir por dever, respeitando regras universais. Não há mais aquela ideia de virtude ou realização pessoal ligada a ética, como havia em Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.). Com Kant a moral e a felicidade são duas coisas que não se recobrem. Haverá casos em que devemos sacrificar a felicidade para obedecer a lei moral.

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O Estoicismo, a tortura e Stockdale

João Leite Ribeiro

 

Tempos atrás, quando Cuba ainda era a maior glória do comunismo mundial, fui ao Ibirapuera aqui em São Paulo ver Cuba versus Brasil, no basquete.

Os dois times eram bons e o jogo foi tornando-se eletrizante. A torcida brasileira, sabidamente a mais barulhenta do mundo, vaiava os ataques da equipe cubana a alturas que provavelmente os cubanos jamais tinham ouvido.

O time cubano sentia. Dava pra ver na atitude do técnico junto à quadra tentando entusiasmar os jogadores. Porém não todos. Tinha um negro, cujo nome não me lembro, que parecia jogar cada vez melhor. Arriscava de longe e a bola caía. No final, para a alegria dos esquerdistas no ginásio, Cuba ganhou. Muito por causa desse jogador.

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O Estoico Sustentável

Por Kai Whiting

Esse artigo apareceu originalmente no jornal Eidolon. O artigo foi traduzido por Gustavo Vechin de Matos.

 

Eu sou um Estoico vegetariano. Eu também sou um entusiasta de bodybuilding que não precisa de carne para aumentar o bíceps. Eu só preciso treinar o meu corpo – e a minha mente.

Como qualquer rato de academia sabe, suplementos e carnes magras são necessários para o nosso estilo de vida. Mas após alguns anos de bodybuilding, comecei a pensar mais profundamente sobre a minha saúde e bem-estar geral. Eu expandi a visão limitada do marketing do que constitui o “fitness”. Considerei o meu impacto ambiental. Refleti sobre as questões éticas de comer tanta carne enquanto outras pessoas passavam fome. Eu não podia mais me distanciar do dever evidente que todos temos em relação aos seres conscientes que prendemos, engordamos e abatemos.

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A FILOSOFIA COMO MEIO DE EXPERIMENTAR OS ESPAÇOS DA PÓLIS: OS EXEMPLOS DA ATENAS ANTIGA (SEC. IV – III A.C.)

 

A FILOSOFIA COMO MEIO DE EXPERIMENTAR OS ESPAÇOS DA PÓLIS:

OS EXEMPLOS DA ATENAS ANTIGA (SEC. IV – III A.C.)

 

Luiz Henrique Silva Moreira[1]

 

A imagem acima[2] reproduz os espaços que as escolas filosóficas ocuparam em Atenas durante a antiguidade. Através desta é possível visualizar as quatro principais escolas de pensamento no mundo antigo, a Academia de Platão, o Liceu de Aristóteles, o Pórtico Pintado de Zenão e o Jardim de Epicuro.

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Gratilla (ROMA 75 EC): Um conto sobre as mulheres e o estoicismo

Durante o banquete, na casa de Helvídio Prisco[1], Trásea Peto[2] e Musônio Rufo[3] conversavam animadamente, taças de vinho à mão. Era a terceira vigília[4], em breve o dia iria raiar, e a Aurora de róseos dedos coloriria o firmamento. O jovem Epicteto[5] já se sentava ao chão do triclínio[6], sonolento, quando um movimento de pernas femininas marmóreas e esguias cruzando a porta que dava para o peristilo[7] lhe chamou atenção.

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Musônio Rufo:”Que as mulheres também devem filosofar” (Diatribe III)

 

Tradução de Aldo Dinucci[i]

 

[3.1] Quando alguém indagou se também as mulheres devem filosofar, [Musônio] começou a ensinar mais ou menos assim que elas devem filosofar:

“As mulheres receberam <da parte> dos Deuses a mesma razão que os homens, razão que usamos uns com os outros e segundo a qual julgamos, acerca de cada coisa, [3.5] se é boa ou má, e <se> é certa ou errada.

Semelhantemente também o feminino possui os mesmos sentidos que o masculino: visão, audição, olfato e os demais. Semelhantemente também pertencem a cada um as mesmas partes do corpo, e nada em maior número possuem um mais que o outro.

Ainda, o desejo natural pela virtude[1]não corre somente nos homens, mas também nas mulheres[2]. [3.10] Pois elas não menos que os homens são naturalmente dispostas para se satisfazer com ações corretas e justas e rejeitar as contrárias dessas.

Assim sendo, por que, então, caberia aos homens buscar e investigar como viverão corretamente, que é o filosofar, mas às mulheres não?

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O BOM, O MAU E O INDIFERENTE – CONSIDERAÇÕES ESTOICAS E EPICTETIANAS

(Publicado previamente no Pórtico de Epicteto)

Um dos pontos menos compreendidos do estoicismo se refere à clássica distinção entre coisas boas e más e indiferentes. Como citado por Diógenes Laércio e Ário Dídimo, os estoicos dividem as coisas todas do mundo em boas, más e indiferentes. Boas e más são respectivamente as virtudes e os vícios. Indiferentes, todas as demais. Isso sempre causa estranheza ao senso comum, pois entre as indiferentes são colocadas coisas que geralmente se pensam boas (como riqueza, saúde, beleza, sucesso) e más (como pobreza, doença, feiura e fracasso). Bertand Russel, em sua História da Filosofia, dá voz a essa incompreensão:

Para uma mente moderna, é difícil sentir-se entusiasmado pela vida virtuosa se nada puder se alcançada por meio dela. Nós admiramos um médico que arrisca sua vida em uma epidemia de praga porque pensamos que a doença é um mal e esperamos diminuir sua frequência. Mas se a doença não é um mal, o médico pode também permanecer confortavelmente em sua casa. (Bertrand Russel, The history of western philosophy, p. 255.)

A raiz da distinção estoica está no diálogo Eutidemo, de Platão. Nesse diálogo, Sócrates observa que os bens reconhecidos pelos mortais se transformam em males se administrados por imprudentes. Apresentarei o argumento de Sócrates no Eutidemo de um modo didático. Pensem em uma lista de bens. Suponho que nela incluirão coisas como a riqueza, a saúde, o poder, um elevado status social, o prazer, a vida. Mas considerem o seguinte: a riqueza na mão de um tolo se torna inútil ou destrutiva; e se pode ser má, não é em si mesma nem boa nem má. A saúde também nem sempre é um bem, já que seu contrário, a doença, pode por vezes levar o homem a valorizar sua vida e tomar ciência de si mesmo. O poder já foi ocasião para a ruína e a destruição de muitos. Um elevado status social pode concorrer para tornar o homem arrogante e cercá-lo de falsos amigos. O prazer também nem sempre é um bem, pois há prazeres que escravizam e destroem os homens. Seu contrário, a dor, nem sempre é um mal, pois às vezes é um meio para se obter algo maior (como o atleta que se submete a um treinamento extenuante para melhorar seu desempenho). E a vida também não é em si mesma um bem ou um mal, pois há ocasiões em que a morte é opção melhor que a vida (como no caso de alguém que, para continuar vivendo, tem que trair seus princípios, sujeitar-se a indignidades, ou compactuar com crimes). Somente a sabedoria (sophía) propicia a verdadeira boa fortuna, que consiste em estar ao abrigo do que está por vir, porque apenas ela transforma o que acontece aos mortais em bens. A sabedoria possibilita ao homem desfrutar sua saúde e ser perseverante na doença, fazer bom uso tanto da beleza física quanto da feiura, não ver no status social um mérito ou um demérito seu ou dos outros, usufruir o prazer e suportar a dor quando for preciso. Enfim, com a sabedoria o homem pode bem viver e bem morrer.

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