ROMA 75 EC

Durante o banquete, na casa de Helvídio Prisco[1], Trásea Peto[2] e Musônio Rufo[3] conversavam animadamente, taças de vinho à mão. Era a terceira vigília[4], em breve o dia iria raiar, e a Aurora de róseos dedos coloriria o firmamento. O jovem Epicteto[5] já se sentava ao chão do triclínio[6], sonolento, quando um movimento de pernas femininas marmóreas e esguias cruzando a porta que dava para o peristilo[7] lhe chamou atenção.

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NICÓPOLIS ANO 130 EC

Quando cheguei à taberna, no centro de Nicópolis[1], olhei ao redor em busca de alguém que parecesse um filósofo. Sentado num canto, vi um velho de longa barba[2], sozinho, com uma caneca de barro entre as mãos. Ele olhava absorto para as garrafas atrás do balcão, enquanto, em uma mesa atrás, moças profissionais entretinham alguns veteranos como eu, sentadas em seus colos e rindo muito.

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Musônio Rufo:”Que as mulheres também devem filosofar” (Diatribe III)

 

Tradução de Aldo Dinucci[i]

 

[3.1] Quando alguém indagou se também as mulheres devem filosofar, [Musônio] começou a ensinar mais ou menos assim que elas devem filosofar:

“As mulheres receberam <da parte> dos Deuses a mesma razão que os homens, razão que usamos uns com os outros e segundo a qual julgamos, acerca de cada coisa, [3.5] se é boa ou má, e <se> é certa ou errada.

Semelhantemente também o feminino possui os mesmos sentidos que o masculino: visão, audição, olfato e os demais. Semelhantemente também pertencem a cada um as mesmas partes do corpo, e nada em maior número possuem um mais que o outro.

Ainda, o desejo natural pela virtude[1]não corre somente nos homens, mas também nas mulheres[2]. [3.10] Pois elas não menos que os homens são naturalmente dispostas para se satisfazer com ações corretas e justas e rejeitar as contrárias dessas.

Assim sendo, por que, então, caberia aos homens buscar e investigar como viverão corretamente, que é o filosofar, mas às mulheres não?

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A Superação dos Medos em Epicteto

Escrevo este texto em diálogo com João Leite Ribeiro, notadamente sobre o que nosso nobre estoico diz no texto intitulado Sócrates, a lógica e o estoicismo , publicado recentemente neste blog.

Em Epicteto, o termo grego andreia (coragem, em grego) ocorre, nas Diatribes, apenas quatro vezes, e nenhuma vez no Manual[1]. De fato, as virtudes enfatizadas por Epicteto diferem da taxonomia estoica ortodoxa das virtudes, que tem como principais as virtudes cardeais tradicionais do pensamento grego: sabedoria ou prudência (phonesis), coragem (andreia), justiça (dikaiosyne) e  temperança (sophrosyne). Não nos deteremos aqui em investigar a razão disso, mas antes a natureza dessas virtudes em Epicteto.

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O BOM, O MAU E O INDIFERENTE – CONSIDERAÇÕES ESTOICAS E EPICTETIANAS

(Publicado previamente no Pórtico de Epicteto)

Um dos pontos menos compreendidos do estoicismo se refere à clássica distinção entre coisas boas e más e indiferentes. Como citado por Diógenes Laércio e Ário Dídimo, os estoicos dividem as coisas todas do mundo em boas, más e indiferentes. Boas e más são respectivamente as virtudes e os vícios. Indiferentes, todas as demais. Isso sempre causa estranheza ao senso comum, pois entre as indiferentes são colocadas coisas que geralmente se pensam boas (como riqueza, saúde, beleza, sucesso) e más (como pobreza, doença, feiura e fracasso). Bertand Russel, em sua História da Filosofia, dá voz a essa incompreensão:

Para uma mente moderna, é difícil sentir-se entusiasmado pela vida virtuosa se nada puder se alcançada por meio dela. Nós admiramos um médico que arrisca sua vida em uma epidemia de praga porque pensamos que a doença é um mal e esperamos diminuir sua frequência. Mas se a doença não é um mal, o médico pode também permanecer confortavelmente em sua casa. (Bertrand Russel, The history of western philosophy, p. 255.)

A raiz da distinção estoica está no diálogo Eutidemo, de Platão. Nesse diálogo, Sócrates observa que os bens reconhecidos pelos mortais se transformam em males se administrados por imprudentes. Apresentarei o argumento de Sócrates no Eutidemo de um modo didático. Pensem em uma lista de bens. Suponho que nela incluirão coisas como a riqueza, a saúde, o poder, um elevado status social, o prazer, a vida. Mas considerem o seguinte: a riqueza na mão de um tolo se torna inútil ou destrutiva; e se pode ser má, não é em si mesma nem boa nem má. A saúde também nem sempre é um bem, já que seu contrário, a doença, pode por vezes levar o homem a valorizar sua vida e tomar ciência de si mesmo. O poder já foi ocasião para a ruína e a destruição de muitos. Um elevado status social pode concorrer para tornar o homem arrogante e cercá-lo de falsos amigos. O prazer também nem sempre é um bem, pois há prazeres que escravizam e destroem os homens. Seu contrário, a dor, nem sempre é um mal, pois às vezes é um meio para se obter algo maior (como o atleta que se submete a um treinamento extenuante para melhorar seu desempenho). E a vida também não é em si mesma um bem ou um mal, pois há ocasiões em que a morte é opção melhor que a vida (como no caso de alguém que, para continuar vivendo, tem que trair seus princípios, sujeitar-se a indignidades, ou compactuar com crimes). Somente a sabedoria (sophía) propicia a verdadeira boa fortuna, que consiste em estar ao abrigo do que está por vir, porque apenas ela transforma o que acontece aos mortais em bens. A sabedoria possibilita ao homem desfrutar sua saúde e ser perseverante na doença, fazer bom uso tanto da beleza física quanto da feiura, não ver no status social um mérito ou um demérito seu ou dos outros, usufruir o prazer e suportar a dor quando for preciso. Enfim, com a sabedoria o homem pode bem viver e bem morrer.

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Opinião e amizade — algumas considerações epictetianas

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Participantes do último seminário Viva Vox, que teve lugar na Universidade Federal de Sergipe

Por Aldo Dinucci

Em Epicteto, o conceito de opinião (dogma) abrange qualquer proposição à qual concedemos assentimento, ou seja, na qual em alguma medida acreditamos, uma crença, seja ela filosófica ou não, científica ou não. Por exemplo, em Diss. 3.7.9.1, Epicteto se refere a Epicuro e suas opiniões (dogmata) e, em Diss. 3.7.17.2, Epicteto alerta que apenas alguém que segue as opiniões do estoicismo poder ser propriamente chamado estoico[1].

Uma das mais importantes distinções que Epicteto utiliza quanto ao conceito de opinião é entre opiniões boas (ou certas) e más (ou erradas), que estão em direta relação com as ações boas e más. De fato, em Diss. 3.9.2.4, Epicteto observa: “se tens opiniões corretas, estarás bem; se elas são falsas, estarás mal”,[2] já que “para todo ser humano a causa do agir é a opinião” (Diss. 3.9.3.1). Isso porque opiniões boas ou corretas são guias adequados para a ação. Em Diss. 2.19.10 ss., por exemplo, Epicteto afirma que nos beneficiamos com a leitura de um texto filosófico adquirindo dele boas opiniões que podem nos guiar. Isso explica por que, em Diss. 3.10.1.1, Epicteto afirma que devemos ter à mão as opiniões adequadas para cada ocasião.

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O que fazer diante daquele que tem opiniões com as quais não concordamos? Algumas considerações epictetianas

O que fazer diante daquele que tem opiniões com as quais não concordamos? Algumas considerações epictetianas

Aldo Dinucci

Numa época como a nossa na qual pessoas ligadas a diferentes e opostas vertentes políticas publicamente praticam violência e estão sendo efetivamente intolerantes, é bom nos lembrarmos das palavras e das ações dos estoicos, entre eles, Musônio Rufo, o Sócrates romano, que tentou, em 69 de nossa era, deter os soldados que marchavam sobre Roma, comandados por Marco Antônio Prius, general de Vespasiano, falando a eles sobre os benefícios da paz:

Musônio uniu-se às tropas, e, amplificando as bênçãos da paz e os perigos da guerra, começou a admoestar a multidão armada. Muitos o acharam ridículo; outros, cansativo; outros estavam prontos para atirá-lo ao chão e pisoteá-lo caso ele não tivesse ouvido os avisos dos mais comportados e as ameaças dos outros e cessado de exibir sua extemporânea sabedoria.  (TÁCITO, Histórias, iii, 81)

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