A tese estoica da irmandade de todos os humanos

 

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Pelos círculos concêntricos de Hiérocles, reconhecemo-nos como parte de uma grande família humana (fonte da foto)

Por Aldo Dinucci*

Eu sonho que um dia, nos montes vermelhos da Georgia, os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos donos de escravos serão capazes de sentar-se juntos à mesa da irmandade. (Martin Luther King)[1]

Devemos viver juntos como irmãos ou morrer juntos como tolos[2]. (Martin Luther King)

Após 1989, ano da queda do Muro de Berlim, fato que precedeu o fim da União Soviética e da Guerra Fria, era comum ouvir que “vivemos em uma aldeia global”. A tese da “aldeia global”, hoje superada pela pós-modernidade e caída no esquecimento, nos faz lembrar os ideais cosmopolitas dos estoicos. Para estes, vivemos em uma grande cidade cósmica, habitada por Deuses e humanos. Como nos diz o estoico Epicteto: “Não és tu humano? Parte da cidade: da primeira, dos Deuses e dos humanos, depois desta que é dita a mais próxima, que é uma pequena imitação da totalidade” (Diatribes 2.5.27[3]). A tese da irmandade de todos os humanos se desenrola com simplicidade a partir daí: se vivemos numa grande cidade universal dirigida pelos Deuses, e se os humanos são filhos dos Deuses, então os humanos são todos irmãos.

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O que promete e o que requer de nós o estoicismo

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O que mais belo há no estoicismo é sua visão do Cosmos como um grande ser vivo (fonte da foto)

Por Aldo Dinucci*

Eu não sou sábio e (que tua maledicência seja satisfeita) não o serei. Exige de mim,  portanto, não que eu seja igual aos bons, mas unicamente melhor que os maus. Basta-me a cada dia cortar algum de meus vícios e refrear meus desvarios.

Essa citação é de Sêneca, em seu diálogo Da vida Feliz (XVII, 3) e trata-se de uma profissão socrática de ignorância. Como todos sabem, é princípio básico da sabedoria do Sócrates da Apologia de Sócrates, de Platão, a afirmação de que a sabedoria de todo humano é pouco ou nada se comparada à sabedoria divina. Ora, pra que serve dizer a si mesmo a cada dia que nada se sabe? Serve, creio eu, para evitar que se caia na ilusão de possuir portentosa sabedoria. Serve para ter bem claro na mente que todo conhecimento humano, o que inclui nossos estudos sobre estoicismo ou o que for, é uma aventura errante.

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