O Heráclito Ocasional #3

Photo by Kate Trifo on Unsplash

Por Donato Ferrara

No caminho de casa ao trabalho, ao cruzar a cidade de carro por uns 15 km, observo os passantes que vão a pé, nas calçadas.

A razão dos que usam máscaras pelos que não as levam é algo como 50/50. Metade das pessoas, portanto, decidiu correr riscos desnecessários.

Não é decisão tão grave quanto deixar de portar a máscara em lugares fechados. No entanto, alguém que caminha desprotegido pode se deparar com outros passantes, muitos deles também sem proteção. A nuvem de aerossóis que envolve uma pessoa se mescla à da outra nesses encontros fortuitos. O risco de contaminação existe, mesmo ao ar livre.

Nestes dias que vão, nós simplesmente não podemos viver na ilusão de que respiramos os ares virginais dos jardins do Éden.

As máscaras são incômodas. Mas são um sinal de respeito, não apenas a nós próprios, como também aos outros. O nível de inconsciência das pessoas está alto. Ele coopera com a disseminação do coronavírus.

Embora o fenômeno também se dê em outros lugares, é impossível não pensar que estamos colhendo os frutos da péssima educação oferecida à maioria dos brasileiros. E não me refiro apenas à falta de noções científicas em grande parte da população, como também a um individualismo exacerbado — e pouco inteligente — epitomizado por expressões como “farinha pouca, meu pirão primeiro” e “ninguém manda em mim”.

Um parente meu costumava repetir que ninguém mandava nele. Teve uma vida triste, fez sofrer uma porção de gente à sua volta e morreu, anos atrás, em circunstâncias bastante dolorosas. Infelizmente.

E, mais infelizmente ainda, vejo esse padrão repetir-se no comportamento de muitos.

O contraste entre a insensatez renitente que temos observado em tantas pessoas e os prodígios da ciência é impressionante. Em poucos meses, os pesquisadores entenderam com precisão o modo como o vírus age, tornaram-se capazes de rastrear suas cepas e mutações e chegaram a uma meia dúzia de vacinas eficazes. É notável, de qualquer ângulo.

Em perspectiva global, esse contraste parece encerrar-se, de algum modo, na observação que muitos estudiosos fizeram a respeito dos tempos modernos. Para citar um, lembro que o sociólogo do trabalho Georges Friedmann, aludindo a Bergson, falava do desequilíbrio existente entre a potência que a civilização tecnológica entrega, em aumento progressivo, ao ser humano e a sabedoria que pode estar a nosso alcance, de evolução consideravelmente mais lenta.

Curiosamente, foi em resposta à obra de Friedmann, A potência e a sabedoria, de 1970, que Pierre Hadot começou seu trabalho de reinterpretação da filosofia antiga, culminando no resgate da noção de “filosofia como maneira de viver”.

As reflexões de Friedmann se desenvolveram no ponto mais agudo da Guerra Fria. Ele se preocupava, em primeiro lugar, com a falta de crítica e de senso de responsabilidade no uso dos dispositivos tecnológicos no dia a dia dos cidadãos de sua época, o que parecia espelhar aquilo que os próprios estados pujantes faziam, com a proliferação sem limites de ogivas nucleares. A tese é que tínhamos — como temos — muito mais poder de intervir na realidade do que sabedoria para usar nossos instrumentos. O que lhe parecia desejável era “hominizar o mundo”, tornar o ser humano superior a suas criações.

A irrupção do coronavírus certamente põe em xeque muito do que pensávamos a respeito do triunfo de nossa espécie sobre o restante da natureza. Não somos tão poderosos assim. A resposta do Prometeu acorrentado ao Coro, na peça atribuída a Ésquilo, continua válida: “a técnica é por grande margem mais débil que a necessidade” (τέχνη δ᾽ἀνάγκης ἀσθενεστέρα μακρῷ, v. 514). Nosso conhecimento técnico-científico e nossa capacidade de manipular a realidade, por maiores que sejam, não se equiparam às leis que regem tudo quanto existe.

Ainda há o “Grande Desequilíbrio” de que falava Friedmann, porém. E creio que uma nova faceta do problema se apresenta: muitos vivem em um ambiente ultratecnológico, sendo capazes de comunicar-se com outros instantaneamente, fazer transações bancárias via celular, determinar sua geolocalização via GPS, mas não demonstram possuir espírito coletivo suficiente para respeitar as pessoas à sua volta, em meio a uma pandemia. Com seus gadgets, alguns chegam a espalhar a cizânia. É uma forma de húbris, de desmesura.

Os desafios que globalmente nos serão colocados nas próximas décadas serão grandiosos. Seremos possivelmente obrigados a alterar nossos padrões de consumo, às vezes de forma drástica. O consumo diário de carne, por exemplo, talvez se torne insustentável, ética e ecologicamente. As viagens de avião tendem a se tornar caras novamente. O autopoliciamento da linguagem já é uma necessidade, com ou sem o politicamente correto. No Brasil, a Previdência Social pública, com seus rombos em progressão de matrioshka, provavelmente se liquefará nas próximas décadas. Quantas pessoas compreenderão que talvez tenham que abandonar seu estilo de vida? Quantos estariam prontos a ser mais prudentes e parcimoniosos?

A julgar por minha pesquisa matutina, poderemos ter uma sociedade cindida em dois. Será uma disputa e tanto.

Mas chega de frescura e mimimi por hoje. Vou ali dar um mergulho no esgoto para melhorar minha imunidade.

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