O Heráclito Ocasional #2

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Por Donato Ferrara

Nesta crise, o que mais nos importa, talvez, é conservar a vida das pessoas que amamos.

Acredito mesmo que, para os que já têm alguma experiência, isso seja ainda mais importante do que sobreviver. Evidentemente o melhor é sair ileso, com família e amigos intocados pela doença ou por qualquer outro acidente. É o desejo de todos.

Porém, se me perguntarem por que eu gostaria de manter-me vivo, decerto eu mencionaria as pessoas que me são mais próximas. Quero viver por causa delas, para continuar a conviver com elas.

Na carta que escreveu a Miguel de Unamuno, Antonio Machado diz sobre a morte de sua esposa, Leonor Izquierdo: “eu teria preferido mil vezes morrer eu mesmo a vê-la morrer, teria dado mil vidas pela sua”. Ela não resistiu à tuberculose, o mal que vitimara tantos poetas e tantas de suas musas. Enfim, os poetas exageram, mas o sentimento não me é de todo estranho.

Depois de algum tempo, você entende que a vida é exatamente isso que está nas suas mãos. Esse arroz-com-feijão com o qual você se acostumou. Não é de modo nenhum ruim, mas não é o banquete sem fim da ilha dos Feácios — ou algo como um palco de possibilidades mirabolantes. Para mim, ao menos. Talvez não para o Jeff Bezos.

É possível que me falte imaginação, contudo. Ou dinheiro.

Mi vida está hecha más de resignación que de rebeldía — e aqui também concordo com Antonio Machado.

Marco Aurélio Antonino disse que um homem de quarenta anos, se dotado de alguma inteligência, já viu tudo o que foi e o que será, pois as coisas sempre se repetem. E isso pode nos dar certo desprendimento relativamente à vida.

Amadurecer é fazer descobertas, claro, mas é também descobrir que o melhor é fazer certas descobertas a conta-gotas.

Quando primeiro escrevi sobre o tema do vírus, há mais de um ano, alguém me repreendeu dizendo que “o estoicismo tinha passado longe” do que eu havia registrado, que a mortalidade da doença era baixa etc. Como não sou estoico, não chega a ser um problema.

Não havia laivo nenhum de pânico no que eu escrevera, acho — mas a pessoa pode ter razão. No entanto, vendo agora como a vida das pessoas racionais foi afetada pela crise vigente, ninguém nessa categoria consegue conceder a si o direito de alhear-se do que está acontecendo. Quero dizer: de por si, você pode não temer a doença, estando fora do grupo de risco, mas poderá dizer o mesmo a respeito das pessoas que ama?

Acredito que, se você for uma pessoa racional, responderá com um “não”, sonoro e em conformidade com a razão.

Podemos proteger e defender aqueles que amamos? Podemos poupá-los do pior?

Quando enviamos nossos filhos para a escola, há como garantir que nada sucederá a eles? Quando levantamos as portas basculantes de nossos negócios, existe meio de ficarmos imunes ao contágio? Os médicos e enfermeiros que trabalham na linha de frente contra a Covid-19 podem garantir que voltarão para casa?

E isso foi sempre assim, na pandemia e fora dela. Esta crise simplesmente pôs tudo a nu.

Boualem Sansal, ao falar dos anos em que a Argélia esteve imersa na guerra civil (1991-2002), menciona que as escolas sempre permaneceram abertas. “Ninguém se dava conta de estar fazendo algo heroico; as pessoas estavam simplesmente vivendo”.

Então resistimos. Como funâmbulos.

“Meu caro Críton, se for esta a vontade dos deuses, que assim seja”.

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