O Heráclito Ocasional #1

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Por Donato Ferrara

Faz tempo que não escrevo publicamente. Também faz tempo que não posto vídeos.

Sou um professor. Há quase vinte anos, tenho considerado, de mim para mim, que posso ter alguma coisa a ensinar aos outros. Nos últimos meses venho questionando essa convicção. Terei mesmo algo a dizer? Qual pode ser minha contribuição?

Como ser humano, sou uma bagunça. As pessoas precisariam de professores que lhes ensinem o caos?

Estando um tanto afastado das salas de aula e mesmo da ágora digital, noto que as coisas fluem, funcionam sem mim. Evidentemente, existem observações que só podem ser feitas por este que lhes escreve, mas que bem pouco importam no atacado.

E isto é libertador. Paradoxalmente libertador.

Vejo líderes espiritualistas dizendo que a situação por que todos passamos, esta pandemia, tem um sentido de regeneração, não de expiação. “Regeneração” e “expiação” são palavras que encerram modos de ver a coisa. Como tais, são um acréscimo ao que a coisa é: um processo natural, que necessariamente acontece de tempos em tempos — ainda mais quando certas fronteiras naturais são violadas.

Esses líderes afirmam ter acesso a planos incorpóreos, entidades mais esclarecidas, mestres ascensos. Pode ser. Contudo, as informações que trazem não podem ter sua autenticidade verificada por pessoas comuns. Precisamos crer na palavra deles. Os seres humanos podem mentir, fantasiar. Podem, sobretudo, apenas reter as informações que confirmam aquilo que já pensavam.

Deus criou o vírus também. E ele quer viver, é legítimo que busque viver, à custa de hospedeiros. Não temos mais direito de viver sobre esta Terra que os demais seres que a habitam.

Isto que estamos enfrentando não tem mais gravidade que as sete epidemias de cólera que assolaram o mundo no século XIX. Ou que a Gripe Espanhola, de 1918-20. Naquela época, pouco se sabia sobre a dinâmica dos micro-organismos. A questão é que vivemos uma crise globalizada e simultânea. Jorram informações a todo momento, não raro desencontradas. Se nossa disposição para o conhecimento é grande, nossa aptidão para a angústia é ainda maior.

Será verdade que as pessoas de sangue tipo A são mais suscetíveis à doença? Será verdade que as novas variantes são mais letais? Será verdade que o vírus praticamente inexiste na China, berço da pandemia, neste momento?

O mundo também é uma bagunça. Se tínhamos alguma esperança de que um mal comum fosse unir as pessoas, esta crise nos revela que o buraco é muito mais profundo.

Podemos viver em realidades mentais paralelas, ignorando-nos ou desprezando-nos mutuamente. Há pessoas que simplesmente negam a seriedade da crise, com fanfarrice, bradando trocadilhos e palavras de ordem. A negação dos dados mais elementares da realidade virou um estilo de vida. Talvez sempre o tenha sido, mas nunca de maneira tão espalhafatosa — e temerária.

Não vejo que “regeneração” possa surgir daí. Um mundo de 7 bilhões de humanos é necessariamente um mundo multiconflitual.

Como os tragediógrafos e comediógrafos de todas as épocas atestaram, as pessoas não se entendem. Dentre outros motivos, porque são frágeis, limitadas e temem perder o pouco de bens, poder e proeminência que têm. Todos somos assim, em maior ou muito maior grau.

E, no entanto, o pouco de bens, poder e proeminência que possamos vir a ter um dia se esvai, como areia que cai por entre os dedos das mãos.

Não sou pessimista. O mais agudo desta crise vai passar. Voltaremos a uma seminormalidade nos próximos meses, à vida normal nos anos vindouros. As lições deste momento serão progressivamente esquecidas.

Alguns de nós tombarão, contudo.

2 comentários sobre “O Heráclito Ocasional #1

  1. – “Estamos afundados na merda do mundo e não se pode ser otimista. O otimista, ou é estúpido, ou insensível ou milionário” [José Saramago]
    ———————————
    MAQUIAVEL
    Para ele, a natureza humana seria essencialmente má e os seres humanos querem obter os máximos ganhos a partir do menor esforço, apenas fazendo o bem quando forçados a isso.
    ———————————-
    “Estamos sós, vivemos sós e morremos sós. Somente através do amor e da amizade podemos ter a ilusão de não estarmos sós ” (Orson Welles)

    Curtir

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