Notas estoicas, 6: Não há felicidade certa nas coisas incertas

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Que espécie de contentamento poderemos tirar de coisas passageiras? (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Será a ruína do espírito andarmos ansiosos pelo futuro, desgraçados antes da desgraça, sempre na angústia de não saber se tudo o que nos dá satisfação nos acompanhará até ao último dia; assim, nunca conseguiremos repouso e, na expectativa do que há de vir, deixaremos de aproveitar o presente. Situam-se, de fato, ao mesmo nível a dor por algo perdido e o receio de o perder. (Sêneca, Cartas a Lucílio, XCVIII, 6; trad. J. A. Segurado e Campos)

No meio de uma situação alegre, qualquer pessoa dotada de consciência já deve ter surpreendido em si um pensamento mais ou menos assim: e quando tudo isto terminar? e quando todas estas pessoas se forem? Ou: por quanto tempo mais terei ao meu lado tais coisas?

Por que às vezes nos torturarmos com a transitoriedade de nossa própria alegria, ao invés de aproveitá-la gota a gota, é talvez um mistério. Não menos misterioso é não termos igual clarividência quando nos defrontamos com situações difíceis. Pois estas, como todas as outras, passam: e isso deveria nos tranquilizar — ao menos no caso de tristezas.

Mas as incertezas nos acompanham — e nada mais incerto que o futuro. Há em nós sobretudo o temor de que desgraças nos assolem.

Que venhamos a experimentar dissabores, vá lá: todas as pessoas os têm. Estão entretecidos na própria matéria de que é feito o cotidiano. O problema são as calamidades, os infortúnios maiores. Não nos julgamos preparados para sofrimentos muito longos ou exigentes.

Ainda assim, ninguém com sanidade se julga ao abrigo deles. Nos que rezam o Pai Nosso com frequência, por exemplo, não é incomum haver mais ênfase no “livrai-nos do mal” do que no “seja feita a Vossa vontade”. Não há por que recriminá-los.

É líquido e certo que enfrentaremos grandes perdas humanas, a não ser que venhamos a morrer muito jovens. Nesse caso, claro, passaríamos a ser a grande perda para as pessoas com que nos relacionamos.

Outra possibilidade, a de que venhamos a conhecer bem pouca gente, é quase impraticável. Algumas formas de ascese religiosa e de intoxicação por drogas, suspeito, têm algo a ver com isso. Possivelmente um tipo de fuga: mas também aqui não há que recriminar ninguém.

Por que não podemos deixar de pensar no fim de nossas satisfações quando por acaso nos encontramos bem no meio delas? É a “ruína do espírito”, é nutrir em si um calamitosus animus, como diz Sêneca.

Sabemos que as coisas passam — porque a vida nos tem demonstrado isso desde sempre; e porque todos os sábios o dizem e o disseram. É um rasgo de sabedoria ter tal coisa em mente, uma visão da existência sem enganos. Porém, não é suficiente: o que mais importa, no caso dos sábios célebres e dos sábios anônimos, é que souberam tirar o melhor partido possível desta transitoriedade que angustia o comum dos mortais.

Uma possível imagem de nossa condição é a de consciências surfando sobre um oceano, que é o tempo. Somos mais conduzidos que condutores, mas nossa habilidade em nos equilibrarmos não deixa de ter algum valor. Podemos apreciar a vista e o movimento que a viagem breve nos oferece, mas não entendemos muito bem a dinâmica do que nos vai por debaixo. E principalmente: não há como voltar atrás.

Sendo o futuro virtualidade, pode nos reservar desgraças ou situações desafiadoras, mas não vale a pena angustiarmo-nos com isso. Se tudo está bem — ou quase bem — por agora, por que imaginar sempre a chegada do pior? O pior pode não chegar — ou chegar já velho, quando temos condição de lidar com ele.

Haverá uma solução para quem tenha a tendência de jamais perder de vista a instabilidade do mundo? Justamente, não se enganando a respeito da duração de pessoas e coisas à sua volta, sabendo que tudo isto irá embora — às vezes, diante dos seus olhos —, ter a fruição do que existe com a máxima intensidade possível. E, sobretudo, ter a fruição de sua própria capacidade de fruição, regozijar-se com isso — ter o foco aí, e não propriamente nas circunstâncias.

Alegrar-se com a mera capacidade de alegrar-se, pois.

Dar valor ao que é frágil, passageiro, maravilhosamente pequeno, como coisa que nunca mais se repetirá, insubstituível. Pois o universo com suas estruturas imensas e suas leis inflexíveis — talvez indiferentes — permitiu que algo assim viesse à luz.

Como Odisseu, amarrado ao mastro principal do navio, pôde escutar o canto promissor das sirenas sem o risco de atirar-se às garras desses monstros, ter o distanciamento necessário com o que é capaz de nos despertar sentimentos violentos. Ele passou por tais criaturas retirando-lhes o melhor, não se entregando a elas.

Por incertas e cambiantes, as coisas não podem nos garantir contentamento para sempre. O que pode ser duradouro é nosso compromisso interior, renovado a cada instante, de obter delas o melhor que têm a oferecer.

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