A Peste Antonina e a morte de Marco Aurélio segundo Frank McLynn

Aldo Dinucci

O texto que segue é uma síntese do que nos ensina Frank McLynn em seu livro Marcus Aurelius, warrior, philosopher, emperor (publicado pela Vintage (UK), em 2010), no que se refere à Peste Antonina, que se abateu durante seu reino, e à morte de Marco Aurélio em decorrência dessa mesma epidemia.

Este livro é particularmente fascinante porque apresenta Marco Aurélio na concretude de sua vida na Roma Antiga, nos dando oportunidade de conhecê-lo em suas múltiplas facetas, bem como compreender o contexto em que viveu o imperador-filósofo.

Nascido em vinte e seis de abril do ano de cento e vinte, Marco Aurélio Antonino, de nobre família romana, foi desde jovem notado pelo imperador Adriano, que fez com que seu sucessor, Antonino Pio, o adotasse aos dezessete anos, no ano de 137, visando sua ascensão ao cargo de imperador como sucessor de Antonino.

Marco viveria muito próximo a Antonino Pio pelas próximas décadas, tendo como preceptores experientes políticos, retores, como Herodes Ático, gramáticos, como Fronto, e filósofos, como o estoico Júnio Rústico, que lhe deu uma cópia das Diatribes de Epicteto (Meditações 1.7), e Severo, o peripatético, que lhe ensinou sobre a célebre oposição estoica, grupo que reunia filósofos e estadistas estoicos que se opuseram sistematicamente aos imperadores tiranos, e a concepção de um Estado igualitário no qual prevalecesse a liberdade (Meditações 1.14).
Marco casou-se aos vinte a quatro anos com sua prima Faustina, então com quatorze anos de idade, no ano de 145, tendo com ela 13 crianças, das quais apenas um menino e quatro meninas sobreviveram ao pai.

As taxas de mortalidade da Roma Antiga eram altíssimas. McLynn observa que a expectativa de vida da classe senatorial romana era de cerca de 30 anos, e das demais classes, 25 anos. Trinta e três por cento da população morria com até vinte e oito meses de vida; e entre quarenta e cinquenta por cento não passava dos oito anos de vida. Chegar à idade adulta era, assim, difícil na Roma Antiga (McLinn, p. 89-90).

Marco tornou-se imperador no ano de 161, quando Roma atravessava um período difícil, que não melhoraria ao longo de seu reino.

Uma das razões para isso seria a epidemia que varreria a itália em duas violentas ondas. McLinn aponta essa epidemia, a chamada Praga Antonina, como umas das causas do declínio de Roma.

O mundo antigo era assolado por dolorosas doenças, como sarampo, varíola, malária, tuberculose, hanseníase, tifo,difteria,tétano, poliomielite, além das pestes pneumônica e bubônica (McLynn, p.457). Contra essas doenças, a medicina romana nada podia fazer. E as epidemias aconteciam em sucessão: na República, nos anos de 174,142, 87, 58, 46 e 43 AEC; e no Império, nos anos 23-22 AEC e 65,79-80 e 90 EC.

A malária se propagava com facilidade graças ao mosquito transmissor (a Europa era mais quente naquela época), e o médico e filósofo Galeno foi o primeiro a classificar seus tipos (McLynn, p. 458-9).

Entretanto, a Praga Antonina foi a pior que se tem notícia em Roma, ficando entre as três mais nefastas de toda a Antiguidade, junto com a Praga de Tucídides, que ocorreu em Atenas durante a Guerra do Peloponeso (431-29 AEC) e a Praga Justiniana, no século 6.

A Praga Antonina também é conhecida como a Praga de Galeno, porque o médico-filósofo anotou e descreveu cuidadosamente seus sintomas e seus tipos. Por essas observações, é praticamente certo que tenha ocorrido uma epidemia de varíola, que se apresentava em duas variedades: Varíola Menor e Varíola Maior, sendo uma das quatro espécies desta última a mais perigosa e letal, a espécie hemorrágica, que se alastrou em Roma.

Os sintomas da varíola são, após um período de incubação de 12 dias, resfriado, febre de mais de 38 graus, dor muscular, dor de cabeça, dor nas costas, náuseas e vômito. Após quatro dias, lesões arredondadas e vermelhas (conhecidas como exantemas, ou rashes cutâneos) aparecem na língua, no palato e na garganta. Após 24 horas, cessa a febre. Porém, aí ocorrem, na face, na pele e nas extremidades, lesões que se transformam em pústulas, que somem após dezesseis dias.

Na variedade hemorrágica, ocorre sangramento subcutâneo, o que dá uma coloração negra à pele. A morte chega após cinco ou sete dias por hemorragia nos órgãos vitais e falência do coração e dos pulmões (McLynn, p. 464)

Tal epidemia assolou Roma por quase todo o reino de Marco, entre 165 e 180.

O reino de Marco, aliás, foi caracterizado por dificuldades e calamidades: terremotos, grandes enchentes, guerras e epidemias, como nos lembra o historiador antigo Aurélio Victor (16).

Marco Aurélio promulgou leis prescrevendo que fossem erigidas estátuas aos senadores mortos pela peste e que todos os funerais dos mortos pela epidemia fossem pagos pelo Estado. Segundo McLynn, dos setenta milhões de romanos, pelo menos dez milhões morreram nessa epidemia (McLynn, p. 466). Tal praga se estendeu ao reinado de Cômodo, com nova onda se iniciando no ano de 189.

A medicina da época não tinha meios de compreender as verdadeiras causas desta doença. A existência do vírus da varíola era, claro, desconhecida. Assim, pouco restava a fazer diante dos prodígios que se manifestavam, não só em razão da praga, como também da invasão dos Marcomanos, pelo que Marco determinou que fosse celebrado um lectisternium, cerimônia purgativa na qual se oferecia uma ceia aos deuses, representados por seus bustos e imagens. Segundo McLynn, Marco convocou todos os ritos conhecidos e seus respectivos sacerdotes e purificou a cidade de Roma por todos os meios disponíveis (McLynn, p. 334; ver História Augusta, Heliogabalus 9.1).

Em março de 180, Marco adoeceu em seu acampamento em Vindibona, atual Viena, na Áustria, durante a Segunda Guerra Marcomânica. Percebendo que desenvolvia os mesmos sintomas apontados por Galeno para a Peste Antonina, Marco concluiu que seu fim estava próximo. Convocou, então, seu filho Cômodo, urgindo que a guerra fosse levada até seu fim, o que Cômodo não cumpriu, mas ao mesmo tempo evitou contato próximo com o filho, pois sabia-se que a peste era contagiosa (McLynn, p. 418).

Marco decidiu acelerar sua morte, impondo a si mesmo um jejum. Vendo seus amigos e oficiais chorando, lhes disse que deixassem de lado essa atitude e se lembrassem da praga como um todo e da morte em geral (História Augusta, 28.2-7).

Marco faleceu no dia 17 de março de 180. Segundo Cômodo, o imperador-filósofo, pouco antes de morrer, deu a palavra de ordem do dia, que era:

Partam para o sol nascente, pois eu agora estou me pondo.
“ἄπελθε πρὸς τὸν ἀνατέλλοντα· ἐγὼ γὰρ ἤδη δύομαι”.
(Dião Cássio, 71.33-4)

Esses relatos, brilhantemente coletados por McLynn, nos informam que o mundo no qual viveu Marco Aurélio é, em certo sentido, radicalmente diferente deste no qual vivemos hoje, muito mais duro e perigoso, no qual o mero fato de estar vivo, saudável e chegar à idade adulta podia ser considerado uma grande boa fortuna. Entretanto, noutro sentido, se identifica com o nosso. Como a presente pandemia nos mostra, a condição humana continua a mesma: hoje estamos aqui, amanhã, por uma razão ou outra, não estaremos mais. A busca pela vida feliz e com ciência de nossa efemeridade se aplica, portanto, igualmente a Marco e a nós.

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