Heranças do Pórtico

Juliano da Silva Lira, mestrando em Letras da UFPE

Alguns estoicos remanescentes preferiram não descer do Célio ou pleitear cargos renomados, serviram a sociedade como simples preceptores, sem se atentarem a maiores legados. Escanteados pelo frenesi contemporâneo, que menospreza e devora a um mínimo sinal de imperturbabilidade, viveram sabiamente às margens de um sistema enfermo, advento da Modernidade.  

De John Edward Williams (1922-1994), pouco se sabe, por isso não nos atrevamos a classificá-lo como um estoico. Porém já não podemos repetir convictos tais ressalvas a respeito das personagens de sua autoria. Williams nasce no Texas, tendo servido ao exército americano durante a Segunda Guerra e posteriormente exercendo o cargo de professor assistente na Universidade de Denver. Para aplastar os horrores dos conflitos, no qual presenciou a perda de diversos companheiros, resolvera escrever durante os verões, quando lhe sobrava tempo entre os preparos das aulas. Das suas criações, surgem atrativos temas perante os olhos da filosofia, sendo o Estoicismo um dos elementos motrizes em algumas de suas obras. Stoner, um dos seus quatro romances publicados, é o que melhor pode nos apresentar uma possível herança dos ensinamentos do pórtico, além de nos fazer refletir sobre como a doutrina sobrevive em meio à sociedade norte-americana da segunda metade do século XX.

Publicado em 1965, Stoner nos apresenta os percursos de um professor universitário, desde sua paixão primeva pela literatura até os últimos dias de sua pacata vida. Palavra, o romance traz em suas primeiras páginas todas as informações e desfechos sobre a biografia da personagem, fazendo-nos questionar: qual o sentido em dar prosseguimento à leitura? Questionamento respondido não só pela belíssima escrita do autor, mas quando passamos a tomar consciência de como uma filosofia de vida pode ser tão admirável quanto os grandes feitos heroicos das narrativas ocidentais. Filosofia essa onde podemos enxergar possíveis influências da escola estoica, tornando-se um atrativo adicional para os simpatizantes do pórtico.

Quando lançada, na década de sessenta, a obra vendeu poucas cópias. Decerto, o período histórico conturbado na qual estava inserida a sociedade norte-americana pode ter contribuído para os números. O fato é que o livro permaneceu em ostracismo ainda por algumas décadas, sendo redescoberto no início do século XXI e tornando-se um best-seller em todos os continentes. O que justificaria tal marca, em plena modernidade, para uma obra onde a resignação parece fincar raízes e ser o principal núcleo do enredo? Stoner é um antídoto. Assim como adentramos na leitura do Manual de Epicteto ou nas Meditações, de Marco, e saímos diferentes, com males aplastados; ler Williams é estar de frente com os embates proporcionados pelas sociedades modernas, os quais parecem mais difíceis com o passar dos dias, e saber como extenuá-los. Seu personagem é constantemente sufocado pelos entraves da vida universitária, e a forma como vai solucioná-los é de enternecer os leitores mais inflexíveis.

Todos que já se questionaram sobre como ser estoico em tempos tão distintos talvez encontrem na figura de Stoner uma pequena porta para começar a perpassar na busca por tal resolução. Além disso, a obra nos impulsiona a revisitar os antigos e consagrados manuais estoicos, norteando nossos dias em tempos tão estranhos.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s