ENTRE CREPÚSCULOS E AURORAS

Carlos Enéas Moraes Lins da Silva

(Mestrando em Filosofia UFF)

Eu só queria nesse preciso segundo caminhar belamente sobre as águas, num santificado momento de tranquilidade e ausência de agitação, mínimas ondas a blasfemar o solo sagrado, beijando com pressa a areia e revolvendo-se temerariamente. Eu só queria andar como um deus, negar de tudo o todo e reconhecer em mim a majestosa imperturbabilidade. Mas sucumbi, como um Lázaro caído, uma morte num instante. Para andar como um deus entre os homens é preciso mais que entrega, uma verdadeira morte. É com sangue que se paga a santidade, é com sangue que se paga a excelência, não adianta, é sangue derramado nos vastos campos elísios do Érebo, é morte gloriosa, nada além.

Por um momento pensei em andar por cima das águas, para mostrar que Cristo também era homem, como eu. Mas senti que mais santo e belo seria mergulhar nas águas verdes do mar e sentir-me como ela, sendo ela, fundindo-se a ela. Andar sobre as águas não me levaria à calmaria, à fluidez da divina criação, mas deitar-me e reconhecer na beleza da água serena, da perturbação passageira, um mesmo e único eu, isso sim seria belo, incompreensivelmente louvável, uma mais nova e bela invenção divina. Foi o que fiz. Aproximei-me do varrido na areia, inicialmente molhando os meus pés. Em seguida levantei-me, num átimo, e andei calmamente até as pequenas marolas, demorei-me alguns segundos sentindo o vento no rosto e a maré divina nos joelhos. Continuei caminhando em direção ao imenso horizonte azul, em meditação, a água salgada subia pelo meu corpo, preenchendo todo o vazio dos meus poros, cada pedaço desnudo preenchido pela massa líquida harmoniosa. No ápice, senti apenas a minha cabeça para fora do mar, não era completude ainda, era parcial. Vagarosamente me esgueirava por entre os movimentos das ondas, ainda resistia a ela, brigava de certa forma. Não pude mais resistir, queria ser como ela. Tudo escureceu, só os olhos para fora d’água. Estava próximo de um abraço derradeiro, de uma verdadeira reunião, da beleza incomensurável da criação divina, era um momento único, cada preciso segundo era valioso, valia a pena, mergulhei. Meu corpo se debatia freneticamente, uma perturbação desnecessária – era estranho, estar ansioso pelo mais divino momento da vida. Então ocorreu, parei de me debater e encarei aquilo de frente, como a primeira linha de combate entre corajosos e covardes que enfrentam um poderoso inimigo. Enfim, era maior que eu, mais forte que eu, mais majestoso que eu, era perfeito e eu não – a resistência era essa –, mas eu queria ser perfeito também, gozar dessa imperturbabilidade como os deuses a gozam, queria ser Deus também. Meu corpo se entrega, minha mente também, cada parte milimétrica do meu ser se desintegra, pouco a pouco se separando uma da outra, me tornando disforme, desconectado de mim, nada parecia como antes, aos poucos como uma massa volúvel, ou uma segunda mórula a se expandir, um novo uno, me desconectava de um algo imperfeito, isolado, divisível, para retornar à divina perfeição, me tornei mar, terra, me reorganizei na calmaria universal, me tornei universo também. Algo de mim era deus, pois sou deus também.

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