Reflexões de Musônio Rufo sobre o Casamento

Do destacado filósofo romano Musônio Rufo, que em vida foi equiparado a Sócrates, pouco nos chegou. Mas esse pouco, suas diatribes, contém uma série de reflexões cruciais para a compreensão da verdadeira dimensão do estoicismo romano.

Comentarei aqui brevemente a diatribe 13A, que trata do casamento.

De acordo com o pensamento estoico, homens e mulheres devem ser igualmente educados. E são, para Zenão de Cítio, igualmente aptos para a cidadania da República ideal, na qual viveriam em total condição de igualdade. Disso podemos deduzir que, segundo a ortodoxia estoica, homens e mulheres são considerados em pé de igualdade quanto às suas capacidades intelectuais (ouçam aqui Carlos Enéas falando sobre isso).

Musônio repercute essa estrita igualdade entre os sexos em sua reflexão sobre o casamento ao afirmar que, no matrimônio, a comunidade deve se concretizar não só na vida em comum, mas também nas posses em comum, incluindo os próprios corpos. Observem que Musônio estabelece aí uma completa igualdade: não é o homem que possui o corpo da mulher, ou vice-versa, mas a comunidade inclui os corpos de ambos.

Musônio enfatiza que o fim do casamento não é a mera procriação, visto que esta pode ocorrer fora do matrimônio, mas sim a simbiose perfeita (Musônio usa o termo symbiosis) e o cuidado (em grego, kedemonia) mútuo sob todas as circunstâncias. Se isso ocorre, diz-nos Musônio, a comunidade é bela (13A.5).

Entretanto, enfatiza Musônio, se isso não acontece (13A.6), e se um dos cônjuges passar a agir de modo egoísta, estando, por exemplo, sempre ocupado e mentalmente ausente, mesmo que fisicamente presente, a união fracassa, levando ou à separação ou a uma vida que, embora aparentemente comum, significa intensa solidão tanto para o homem quanto para a mulher.

Musônio parece indicar que, quando alguém se engaja na vida conjugal, deve também se empenhar para planejar e concretizar aspirações, planos, sonhos e atividades de laser em comum com o cônjuge, o que implica que as pessoas devam ter interesses e gostos em comum, além de desejar tanto buscar quanto desfrutar essas coisas em comunidade.

Sem isso, a união é ilusória, somente uma fachada.

Assim, para Musônio, quando uma pessoa assume o compromisso do casamento, ela passa literalmente a compor uma nova unidade. A partir daí, a felicidade de cada um dos cônjuges passa a depender do empenho dos dois em buscar uma vida em comum.

Se isso não ocorre, a solidão sobrevém e o casamento se desfaz.

Isso explica porque, muitas vezes, os casamentos transcorrem melhor em meio a dificuldades, quando os cônjuges travam uma luta comum para sobreviverem ou para superarem os desafios que as circunstâncias lhes impõem, enquanto esses mesmos casamentos terminam em momentos de prosperidade, quando, então, cada qual passa a buscar apenas a satisfação de seus desejos egoístas, esquecendo-se por completo do outro.

O texto abaixo é uma tradução da tradução inglesa de Cora Lutz, cotejada em alguns pontos com o grego. Oportunamente faremos a tradução direta do grego antigo.

Musônio Rufo, 13A O que é primordial no casamento é a comunidade da vida e a criação dos filhos. 

2 Pois, o marido e a esposa, dizia Musônio, devem se unir tanto para ter uma vida em comum, quanto para ter filhos, como também considerar todas as coisas em comum, e nada em privado <em relação a um ou a outro> – nem mesmo o próprio corpo. 

5 O nascimento de um ser humano, que resulta dessa união, é algo grandioso. Mas ainda não é suficiente para a relação de marido e mulher, na medida em que, à parte do casamento, poderia resultar de qualquer outra união sexual, assim como no caso de animais. 

4 Mas no casamento deve haver, acima de tudo, companheirismo perfeito e amor mútuo entre marido e mulher, tanto na saúde quanto na doença e sob todas as condições, pois foi por desejarem isso e por ter filhos que ambos entraram em casamento. 

5 Onde, então, esse amor um pelo outro é perfeito e os dois o compartilham totalmente, cada um se esforçando para superar o outro em devoção, o casamento é ideal e digno de inveja, pois tal união é linda. 

6 Mas onde cada um olha apenas para os seus próprios interesses e negligencia o do outro, ou, o que é pior, quando alguém é tão ocupado que, embora morando na mesma casa, mantém sua mente fixa em outra parte e não está disposto a se unir ao companheiro nem concorda, então essa união está fadada ao fracasso e, embora morem juntos, seus interesses comuns são abandonados; eventualmente eles se separam por completo ou, se permanecem juntos, vivenciam algo que é pior do que a solidão.

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s