Apresentação de nossa tradução do Manual de Epicteto

Epicteto, um dos grandes nomes do Estoicismo Imperial, entre os quais se incluem Sêneca, Musônio Rufo e Marco Aurélio, nasceu no ano 55 em Hierápolis, na Frígia, Ásia Menor (hoje Turquia) e morreu por volta de 135, em Nicópolis. Epicteto foi escravo. Seu senhor, o liberto Epafrodito, foi secretário imperial de Nero e Domiciano. Em Roma, Epicteto frequentou a escola do célebre estoico romano Musônio Rufo. Tornando-se liberto, lecionou em Roma, onde viveu de forma absolutamente despojada.

No final do primeiro século, quando Epicteto já é um filósofo reconhecido, Domiciano expulsou de Roma todos os filósofos. Epicteto retirou-se então para Nicópolis, no Épiro, onde abriu sua escola de filosofia, que logo se tornou renomada.

Tinha a saúde fraca e era manco. Seu defeito físico, segundo notícias da Antiguidade, teria como causa a brutalidade com que fora tratado na juventude. Já em idade avançada tomou uma esposa para ajudá-lo a criar um menino que ele adotara porque iria ser abandonado pelo pai.

Como Sócrates, nada escreveu.  

O Manual de Epicteto foi composto pelo cidadão romano de Origem grega Lúcio Flávio Arriano. Lúcio foi um eminente político romano, que chegou a ser cônsul no ano de 129 de nossa era, além de governador da província romana da Capadócia entre os anos de 130 e 136, comandando duas legiões, a XV Apollinaris (estacionada em Satala, atual Sadak) e a XII Fulminata (estacionada em Metilene, atual Malatya), com as quais obteve grande vitória contra os alanos em batalha decisiva.

Flávio Arriano, que foi aluno de Epicteto entre os anos de 105 e 113 de nossa era, compilou (possivelmente com auxílio da taquigrafia) as aulas do mestre em oito livros (as intituladas Diatribes de Epicteto), das quais quatro sobrevivem, e constituiu o Manual, obra tardia de Arriano que pretende ser uma síntese das ideias de Epicteto. Arriano dessa forma imortalizou o pensamento de seu mestre.

O Manual de Epicteto difere das Diatribes por seu caráter prático. Enquanto nessas últimas vemos Epicteto desenvolver um forte discurso religioso, o Manual reflete a mente pragmática de Arriano, como podemos vislumbrar no capítulo XXXI da obra:

Quanto à piedade em relação aos Deuses, sabe que a coisa mais importante é a seguinte: que possuas juízos corretos sobre eles [42]– que eles existem e governam todas as coisas de modo belo e justo – e que te disponhas a obedecê-los, a aceitar todos os acontecimentos e segui-los espontaneamente como realizados pela mais elevada das inteligências. Assim, não te queixarás dos Deuses nem os acusarás de te terem esquecido.

Apesar disto, a obra é referida desde a Antiguidade como da autoria de Epicteto, segundo a vontade do próprio Flávio Arriano, que, na introdução das Diatribes de Epicteto, nos diz suas obras refletem precisamente o pensamento do mestre.

O Manual de Epicteto não é, como muitos poderiam imaginar e como a obra já foi muitas vezes qualificada, um de livro de autoajuda da Antiguidade, mas sim um guia para uma vida filosófica que supõe o conhecimento da lógica estoica e sua aplicação a diversos aspectos de nossa vida cotidiana. Partindo da distinção entre o que é nosso encargo ou não, Epicteto afirma que as únicas coisas que estão sob nosso controle são os juízos, os desejos, as aversões e os impulsos, âmbitos nos quais podemos afetivamente ser livres. E dizemos ‘podemos ser livre’ porque essa liberdade não é dada a priori, mas conquista-se através de um longo trabalho de análise das concepções que cada um tem sobre as coisas que o rodeiam e com as quais se relaciona. Dito em outros termos: Epicteto crê que, se dispusermos de juízos e concepções equivocados em relação a certa coisa, teremos desejos e repulsas equivocados em relação a essa mesma coisa, o que vai afetar nosso impulso para a ação em relação a ela e, consequentemente, acarretar uma atitude errônea quanto a ela. Por exemplo: se considerarmos que alimentos gordurosos fazem bem à saúde, ou que a alimentação deve ter por princípio o prazer imediato, desejaremos comer alimentos desse tipo (como os lanches fast-food), deixando de lado frutas e vegetais. Nesse caso, nossos impulsos quanto à alimentação serão desorientados por nossos desejos, que, por sua vez, serão desorientados por nossos juízos errôneos.

Vemos aí, de relance, os três tópicos da filosofia de Epicteto. Primeiro, o tópico do juízo e do desejo, pelo qual corrigimos nossos desejos através do realinhamento de nossos sistemas de valores tomando por base o teorema ontológico, que divide as coisas do mundo entre aquelas que podemos controlar e as que não podemos controlar. Segundo, o tópico dos impulsos, pelo qual suavizamos e ordenamos nossos instintos de acordo com as regras sociais de conduta buscando em cada caso a ação adequada. Terceiro, o tópico do assentimento, que assegura o que foi conquistado pelo domínio dos dois primeiros tópicos através de regras que nos permitem lidar da forma segura com as coisas persuasivas, isto é, aquelas que, não sendo boas nem más, nos parecem ser boas ou más.

O Manual se divide assim em 53 capítulos cobrindo esses três tópicos.

Exemplo do primeiro tópico é o capítulo 1 do Manual, que afirma que boas ou más são as coisas que podemos controlar, isso é, nossos juízos, impulsos e assentimentos, enquanto as demais não têm valor por si mesmas. Epicteto esclarecerá o sentido desse dito nas diatribes 2.5 e 2.6, nas quais enfatiza que as coisas externas são indiferentes, mas o uso delas não é indiferente. Em outras palavras, as coisas que não estão sob nosso controle são o material sobre o qual agimos. Não estão sob nosso controle, pois ou estão sob o controle de outros humanos, como as operações mentais que lhe são imanentes, ou estão seguem as leis da física. Entretanto, cabe a nós agir sobre elas da melhor forma possível, quer dizer, de forma virtuosa. Assim, não está sob nosso controle não morrer, mas está ao nosso alcance morrer corajosamente, morrer serenamente. Não está sob nosso controle a ação alheia, mas está ao nosso alcance advertir o próximo quando ele realiza um ato antissocial ou nocivo em relação a si mesmo, como, por exemplo, se nosso irmão fuma: embora em última análise parar de fumar dependa da vontade dele, nos cabe adverti-lo e ajudá-lo para que pare com o vício.

Exemplo do segundo tópico é o capítulo XXXVI do Manual, no qual lemos:

Quando, então, comeres com alguém, lembra de não veres somente o valor para o corpo dos pratos postos à tua frente, mas que também é preciso observar o respeito para com o anfitrião.

Em outras palavras, em nossas ações não devemos levar em consideração apenas nossos instintos animais, mas devemos adestrá-los para que se adaptem à razão e se submetam ao bem comum. De outro modo, se, como no exemplo dado, nos limitarmos a saciar nossos instintos de fome, agiremos de forma antissocial, deixando outros sem comer e ferindo as regras do bom convívio em sociedade.

Exemplo do terceiro tópico é o capítulo X do Manual, no qual lemos:

Quanto a cada uma das coisas que acontecem contigo, lembra, voltando-te sobre ti mesmo, de buscar alguma excelência que sirva para cada uma delas. Se vires um belo homem ou uma bela mulher, descobrirás que a capacidade em relação a estes é o autodomínio; se te vires diante de uma tarefa extenuante, tal capacidade será a perseverança; se fores alvo de injúria, descobrirás que tal capacidade é a paciência. E, habituando-te desse modo, as impressões não te arrastarão.

Assim diante de coisas que parecem boas, como pessoas sexualmente atraentes, ou que parecem más, como trabalho duro e ofensas, devemos nos guardar nos lembrando que, como coisas externas, não são boas nem más, mas que devemos fazer bom uso delas elegendo uma virtude para lidar com cada uma delas.

No princípio da década 2000, quando eu vivia em Petrópolis, li pela primeira vez o Manual em uma tradução francesa. Percebi que não havia essa obra disponibilizada em Português, seja em formato físico ou eletrônico. Dediquei-me, então, à tarefa de traduzir a obra diretamente do grego com os conhecimentos que adquiri em meus anos de mestrado e doutorado com minha orientadora Dra. Maura Iglésias e o Dr. Fernando Rodrigues (IFCS/UFRJ) na PUC do Rio.

Nesses últimos vinte anos, li o Manual literalmente centenas de vezes, tanto para memorizar e aplicar seus ensinamentos quanto para aperfeiçoar a tradução.

O título da obra em grego é Epictetou Encheirídion, Encheirídion de Epicteto. O termo Encheirídion em grego significa “punhal, arma portátil ou livro portátil, Manual”. Nesse sentido, pode ser considerado uma arma de defesa para que o seguidor do Estoicismo tenha sempre ao alcance da mão os princípios para enfrentar as dificuldades da vida e vencê-las.

A Filosofia, desde Sócrates e através daqueles que, como Epicteto, o seguiram, adquire o sentido de uma busca por uma sabedoria de vida através da razão – sabedoria de vida esta que nos possibilita bem viver ou viver de modo pleno e feliz.

Para Sócrates, a Filosofia tem como tarefa construir moralmente o ser humano através do bem pensar e da ação que concorde com esse bem pensar.  Epicteto segue essa noção de Filosofia como Arquitetura de Viver, deixando isso claro em várias passagens do Encheirídion. Assim, em XLVI, Epicteto afirma que não devemos alardear nossos conhecimentos filosóficos, mas sim agir em conformidade com eles. Em XLIX, observa que o que há de louvável no estudo da Filosofia não é o mero ato de interpretar e compreender um texto filosófico, mas o ato de pôr em prática esse conhecimento adquirido. Em LI, Epicteto conclama o leitor a pôr em prática seus conhecimentos e efetuar a correção de si mesmo. Em LII, insiste em que o objetivo da Filosofia é a formação de um homem integralmente forte e não de um homem que fale bem, mas que não aja em conformidade com suas próprias palavras. 

E, para que sintetizemos e tenhamos sempre à mão os diversos conteúdos do Encheirídion, Epicteto nos oferece vários comandos para serem memorizados (I,5; IV; XVI; XVIII e LIII) – comandos que nos servirão para que relembremos, sempre que precisarmos e quisermos, os raciocínios que eles encerram.

Convido a todos para a leitura de nossa tradução feita direto do grego para o português.

Prof. Dr. Aldo Dinucci

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