Reflexões pessoais acerca do uso prático do estoicismo epictetiano na pandemia do coronavírus (Por Renato Diniz)

Por RENATO DINIZ*

…Não importa quão estreita seja a passagem,

Quão carregada de punição a sentença.

Eu sou o mestre do meu destino:

Eu sou o comandante de minha alma.

                                     (Willian E. Henley – INVICTUS- trad. Aldo Dinucci)

 

Nesta pandemia de corona vírus que estamos passando, tenho notado muita ansiedade, aflição e medo das pessoas de serem contaminadas, e o possível desenvolvimento da doença COVID-19, que pode ser letal. Sabemos que é preciso sermos cuidadosos, executando todos os procedimentos para evitar o contágio, tais como: lavar as mãos, usar álcool em gel, ou 70%, usar máscaras, manter o distanciamento social e evitar aglomerações. Imaginando o pior cenário, isto é, de contaminação e agravamento da enfermidade, podendo levar-nos, inclusive, à morte, recorro aos ensinamentos de nosso filósofo Epicteto:

Diatribe 2.1 – Que Intrepidez não Conflita com Cautela – Trad. Aldo Dinucci. (6) Pois se o mal está na má escolha, apenas da escolha se deve fazer uso com cautela. Mas se as coisas que não são passíveis de escolha, e não estão sob o nosso encargo, nada são em relação a nós, dessas é preciso fazer uso com intrepidez. (12) Mas se buscar ser cauteloso quanto às coisas que não estão sob o nosso encargo e que não são passíveis de escolha, necessariamente, terá medo, ficará confuso e inquieto. Pois, não são terríveis – a morte ou o sofrimento, mas é terrível temer o sofrimento e a morte. Por isso, elogiamos aquele que diz: NÃO É, POIS, TERRÍVEL FENECER, MAS SIM, DE MODO INFAME.

Encherídion 5.a – Trad. Aldo Dinucci – “As coisas não inquietam os homens, mas as opiniões sobre as coisas. Por exemplo: a morte nada tem de terrível, ou também a Sócrates teria se afigurado assim, mas é a opinião a respeito da morte de que ela é terrível – que é terrível! Então, quando se nos apresentarem entraves, ou nos inquietarmos, ou nos afligirmos, jamais consideremos outra coisa à causa, senão nós mesmos – isto é: as nossas próprias opiniões”.

Diatribe 1.6 – Sobre a Providência – Trad. Aldo Dinucci. (37) “Traz agora, ó Zeus, a dificuldade que quiseres: pois possuo a constituição que me foi dada por ti e os recursos (caráter magnânimo – MEGALOPSYCHIA, ‘virilidade’, ‘coragem’ – ANDREIA, ‘paciente perseverança’ – KARTERIA). Para me manter em ordem, em meio ao que ocorrer”. (38) “Mas não: permaneceis sentados, tremendo de medo pelo que não ocorreu, lamentando, chorando e gemendo diante dos acontecimentos”…

Diatribe 2.5 – Como Conciliar Grandeza de Alma e Cuidado – Trad. Aldo Dinucci – “As coisas externas são indiferentes, mas o uso que fazemos delas não são indiferentes”. (7) “Mas devo fazer <uso das coisas exteriores> simultaneamente, com cuidado, porque o uso não é indiferente, e com equilíbrio e sem agitação, porque a matéria é indiferente”. (9) “É difícil conciliar e combinar estas coisas: o cuidado de quem se devota aos materiais e o equilíbrio de quem é indiferente a eles, mas, não é impossível”. (10) “Do contrário, a felicidade seria impossível”…

Em entrevista a Donato Ferrara, Aldo Dinucci enfatiza “que o princípio mais importante para ele, de aplicação em nosso cotidiano é a distinção feita por Epicteto, entre as coisas que estão sob nosso encargo, (eph’hemin) e as coisas que não estão sob o nosso encargo, (ouk eph’hemin)”. Estou inteiramente de acordo com ele. “Segundo este princípio, as coisas externas, aquelas que não se identificam com as operações básicas do pensamento, não são por si mesmas boas ou más, são, outrossim, materiais para a nossa ação, dos quais podemos fazer bom ou mau uso. Há materiais mais difíceis de lidar, outros mais fáceis, mas todos podem ser utilizados por nós, de uma boa maneira”…

Sou um ser humano, tenho sentimentos, alegrias, tristezas, raiva, enfim todas as emoções humanas. Mas, trabalho firmemente, incansavelmente para interiorizar ou internalizar a filosofia epictetiana, em minha vida, não sem dificuldades, mas com o maior prazer! Sei que as pessoas tornam-se insuperáveis, quando elas não estão sujeitas às adversidades do cotidiano, ou seja, quando elas, independentemente de suas escolhas, conseguem lidar da melhor maneira possível, em todas as situações. É isso: Sou um ser humano, faço parte do Cosmos, e todas as coisas que me ocorrem, sejam elas boas ou ruins, fazem parte do todo. Creio que podemos ter uma vida tranquila, serena, sem sermos atormentados pelo medo, encarando a vida como um desafio a ser vivido a toda hora, diariamente, com prudência, equilíbrio, alegria e coragem. Finalizo, citando novamente, William E. Henley, em INVICTUS, tradução de Aldo Dinucci:

…Para além deste lugar de cólera e lágrimas

Nada se insinua, senão o Horror da sombra,

                       E, apesar da ameaça dos anos,

             Encontra-me e haverá de encontrar-me destemido”.

 

* Renato Diniz é músico, vive em Belo Horizonte e é seguidor de Epicteto 

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