O Estoicismo, a tortura e Stockdale

João Leite Ribeiro

 

Tempos atrás, quando Cuba ainda era a maior glória do comunismo mundial, fui ao Ibirapuera aqui em São Paulo ver Cuba versus Brasil, no basquete.

Os dois times eram bons e o jogo foi tornando-se eletrizante. A torcida brasileira, sabidamente a mais barulhenta do mundo, vaiava os ataques da equipe cubana a alturas que provavelmente os cubanos jamais tinham ouvido.

O time cubano sentia. Dava pra ver na atitude do técnico junto à quadra tentando entusiasmar os jogadores. Porém não todos. Tinha um negro, cujo nome não me lembro, que parecia jogar cada vez melhor. Arriscava de longe e a bola caía. No final, para a alegria dos esquerdistas no ginásio, Cuba ganhou. Muito por causa desse jogador.

O raciocínio estoico aqui é evidente. As vaias não são ruins, as vaias são boas, uma vez que me propiciam a oportunidade de exercitar minha coragem.

Tem gente assim. Será que é assim que surgem aquelas raras exceções que não delatam ninguém sob tortura?

Posso imaginar o raciocínio de um daqueles religiosos dos anos setenta engajados na luta armada. “Quanto mais me torturas, mais para perto de Deus me levas”.

Pela minha experiência de vida, tendo a achar a tortura intransponível. Me deram uma vez uma droga chamada Rauvolfia. Aquilo me derrotou totalmente. Não dava nem para tentar fazer qualquer raciocínio, muito menos perceber que eu estava sofrendo só porque fazia uma opinião negativa da Rauvolfia.

Porém, especulo que talvez um pensamento não caro aos estoicos ocorra nesses heróis. Quando o exército persa cercou Babilônia, teve dificuldade para entrar. Então usaram uma espécie de cavalo de Troia. Ele disse estar fugindo dos persas, que o teriam torturado, pelo que não tinha mais língua.  Na verdade, ele concordara com que lhe tirassem a língua para essa missão. Uma vez lá dentro, facilitou a entrada na cidade do exército persa. Depois como prêmio ganhou o posto de prefeito da cidade.

Desejar a glória não é estoico, mas também move montanhas.

Li o breve relato de Stockdale sobre seu cativeiro no Vietnã.

Havia não só nele, mas em outros prisioneiros um grande desejo de resistir. Os vietnamitas, pelo que sei, tinham nos prisioneiros americanos uma grande moeda de troca, ou seja, eles valiam mais vivos do que mortos. E talvez, se enlouquecessem, só dificultariam a administração do campo de prisioneiros. Não sei. Realmente é um palpite. O que me parece é que formas extremas de tortura não foram usadas.

Mas é interessante observar que aquilo era outro mundo. Lá dentro não valia mais nada do que se viveu fora. Sua posição, o que o exército tinha te ensinado, o que tinha ouvido sobre tortura, nada mais servia. Mesmo em suas amizades algo estranho acontecia, ele queria fazer amizade com qualquer um que fosse. Só Epicteto continuava fazendo sentido.

Eu vejo nele uma luta de muitos sofredores. Não só a minha, como a de pessoas que conheci e autores que li.

Mergulhamos mesmo num outro mundo. Tudo se perde. E uma luta torna-se primordial: Não deixar que tomem posse de nós.

No meu caso, por exemplo, um psiquiatra me dizia que a razão da vida eram os prazeres sensórios. Minha opinião era diferente e eu não podia deixar que a opinião dele se tornasse a minha. Parece a um leigo meio estranho, mas, como disse, essas situações são de outro mundo, um mundo onde essa opinião do psiquiatra lhe penetra o cérebro. Por mais errada que seja.

Sair com a sensação de ter mantido em sua alma algo intacto foi a grande vitória de Stockdale.

Talvez nunca a palavra ‘externo’, tão usada pelos estoicos, seja tão apropriada. O torturador tem que ser mantido externo.

Guimarães Rosa termina seu livro mais famoso com a palavra ‘travessia’. Só atravessa quem mantém algo igual do início ao fim do percurso. Se o torturador consegue te modificar em sua essência ele ganha.

O estoicismo nos ajuda nisso. Somos despojados, dificultando o ataque do inimigo, e tornando a recuperação mais rápida.

É só lembrar que nossa habilidade de pensar ainda está lá, que é isso que queremos, que nos põe em contato com o cosmos. Não conseguiram fazer com que perdêssemos o controle, que tenhamos esquecido nosso ideal de desapego.

A virtude do estoicismo é não ser um prédio alto. Um prédio alto facilmente se derruba, a derrubada é trágica, e para erguer de novo demora muito. Isso é para investidores norte-americanos. Nosso prédio é baixinho. Os tiros passam por cima. E quando é preciso reerguer é rápido.

Referências:

Coragem sob Fogo: Testando as Doutrinas de Epicteto num Laboratório Comportamental Humano, de James B. Stockdale Tradução de Aldo Dinucci e Joelson Nascimento. São Cristóvão: Universidade Federal de Sergipe, 2009, 40 pp.

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