Epicteto, Diatribes 1.12: Sobre seguir os Acontecimentos e Amor fati

Epicteto, Diatribes 1.12: Sobre seguir os Acontecimentos e Amor fati

(7) Portanto, o <ser humano> bom e justo, tendo considerado em seu pensamento todas essas coisas, segue aquele que administra a totalidade, do mesmo modo que os cidadãos <seguem> a lei da cidade-Estado. (8) Aquele que se instruiu deve comportar-se a respeito da instrução com o seguinte propósito[1]: como eu poderia seguir os Deuses em todas as circunstâncias? Como eu poderia me comprazer[2] com a divina administração? E como eu poderia me tornar livre?

(9) Pois é livre aquele a quem todas as coisas acontecem segundo sua escolha e a quem nada faz impedimento. (10) E então? A liberdade é insanidade[3]? De modo algum! Loucura[4] e liberdade não caminham na mesma direção. (11) ‘Eu, porém, desejo que tudo que me pareça <bom> ocorra, e do modo que me pareça <bom>‘. (12) Estás louco, deliras[5]. Não percebes que a liberdade é algo bom e valioso[6]. Desejar que ocorra não importa o que me pareça <bom>[7], isso pode não só não ser bom, mas também pode ser a pior de todas as coisas. (13) Como agimos em relação às letras? Desejo escrever como quiser o nome ‘Bíon’? Não. Mas aprendo a querer escrever como é devido. E sobre a música? Do mesmo modo. (14) E, em geral, onde há alguma arte ou ciência. Caso contrário, se cada coisa se ajustasse aos desejos, nenhum valor teria saber algo. (15) Então é só aí, sobre o que é maior e principal, a liberdade, que me é permitido desejar ao acaso? De modo algum. Ser instruído, porém, é aprender a desejar cada coisa como ocorre[8]. E como ocorre? Como ordenou aquele que ordena[9]. (16) Ordenou haver verão e inverno, abundância e escassez, virtude e vício e todas as contrariedades tais para a harmonia[10] da totalidade. E deu a cada um de nós corpo, partes do corpo, posses e companheiros. (17) Assim, lembrando-nos dessa disposição, devemos buscar instrução, não para alterar as hipóteses[11] (já que isso nem nos é dado, nem é o melhor), mas para que, sendo como são e como foram naturalmente geradas as coisas ao nosso redor, tenhamos o pensamento a respeito delas em conformidade[12] com os acontecimentos.

 

Tradução do grego: Prof. Aldo Dinucci

 

[1] Epibole: concepção, noção, propósito.

[2] Kai pos an euarestoien tei theiai dioikesei.

[3] Aponoia.

[4] Mania.

[5] Paraphroneis: 2ª do singular do presente indicativo ativo de paraphroneo.

[6] Axiologos: digno de menção, notável. Escolhi ‘valiosa’ pela relação do termo com o conceito de axia (‘valor’), central em Epicteto.

[7] To d’os etychen me boulesthai ta os etychen doxanta ginesthai: Arriano inspirou-se nessa passagem para compor o capítulo 8 do Encheiridion.

[8] Cf. MARCO AURÉLIO, 4.23.

[9] O verbo diatasso significa primariamente ‘nomear, ordenar, dispor’.

[10] Symphonia. Cf. AULO GÉLIO, Noites áticas, 4.1 (em que Gélio cita passo do Da providência, de Crisipo: ‘Nada é mais tolo que as opiniões daqueles que pensam que o bem poderia existir sem o mal’); Simplício, Comentário ao Encheiridion de Epicteto, 13.8; 34.27; E 27.

[11] Hypotheseis. GEORGE LONG traduz o termo por ‘constituition of things’, conjecturando com o que vem a seguir. Entretanto, seguimos aqui DOBBIN.

[12] Synermosmenen: particípio perfeito passivo de synarmozo, que significa primariamente ‘combinar-se, conformar-se, encaixar-se’.

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