O Estoico Sustentável

Por Kai Whiting

Esse artigo apareceu originalmente no jornal Eidolon. O artigo foi traduzido por Gustavo Vechin de Matos.

 

Eu sou um Estoico vegetariano. Eu também sou um entusiasta de bodybuilding que não precisa de carne para aumentar o bíceps. Eu só preciso treinar o meu corpo – e a minha mente.

Como qualquer rato de academia sabe, suplementos e carnes magras são necessários para o nosso estilo de vida. Mas após alguns anos de bodybuilding, comecei a pensar mais profundamente sobre a minha saúde e bem-estar geral. Eu expandi a visão limitada do marketing do que constitui o “fitness”. Considerei o meu impacto ambiental. Refleti sobre as questões éticas de comer tanta carne enquanto outras pessoas passavam fome. Eu não podia mais me distanciar do dever evidente que todos temos em relação aos seres conscientes que prendemos, engordamos e abatemos.

Voltei a pensar nessas questões quando comecei a aprender mais sobre o Estoicismo e a publicar artigos acadêmicos e posts de blog sobre como uma “vida bem vivida” se traduz em algo maior do que nossos empreendimentos pessoais. Estou convencido de que o Estoicismo é uma filosofia política e que ela definitivamente tem algo a dizer sobre a virtude de nossas escolhas alimentícias, que frequentemente são políticas. A questão, então, é se o Estoicismo especificamente encoraja o vegetarianismo.

Explorar como um Estoico contemporâneo pode comer não é um exercício filosófico trivial. Para começar, a filosofia Estoica antiga não era particularmente solidária a uma dieta vegetariana. Crísipo (conforme registrado em Sobre a Natureza dos Deuses, 2.154 – 62, de Cícero) chega a dizer que a vida foi dada a um porco, como um tipo de sal, para preservá-lo ao uso humano. Para complicar as coisas, Estoicismo e vegetarianismo são duas filosofias separadas. Um vegetariano coerente pode dizer que, quando evitável, o consumo de carne (ou de outros produtos de origem animal, no geral) é antiético por causa do prejuízo causado ao meio ambiente, a um conjunto de animais ou à saúde humana. Um Estoico, por outro lado, não pode usar este argumento se quiser ser consistente com os princípios de sua filosofia, que diz que tal prejuízo, por si próprio, não é moralmente bom ou ruim, mas sim indiferente porque depende das razões por trás dele.

Em vez disso, Estoicos devem determinar se, dentro de um conjunto específico de parâmetros, reduzir a quantidade de carne que eles comem (ou abster-se completamente dela) constitui um ato ou intenção virtuosa. Essa postura decorre da crença Estoica de que a felicidade humana depende apenas de uma coisa: seu caráter, como exemplificado pelo seu estado mental. Afinal, é a sua mente (ou seja, seus pensamentos e julgamentos) que dita sua capacidade de vício ou de virtude. Em uma situação perigosa, a virtude se chama coragem. Ao decidir o que é merecido ou justo, a virtude se chama justiça. Ao controlar o apetite por comida, bebida, dinheiro, e prazeres sexuais, a virtude se chama autocontrole. Ao julgar o que é bom, ruim, ou neutro, a virtude se chama sabedoria.

Consequentemente, como você navega no mundo reflete o seu progresso em direção à virtude ou ao vício, e determina a sua felicidade ou miséria. De acordo com os princípios Estoicos, a virtude é uma forma de conhecimento que molda toda a sua personalidade e a sua vida. Não existe num vácuo. Sua propensão a se envolver em comportamentos “bons” ou “ruins” só pode ser revelada na sua interação com outros seres vivos e com o ambiente ao seu redor. Ao aplicar esse entendimento aos alimentos, nossas escolhas são o que tornam a nossa alimentação virtuosa ou viciosa, moderada ou gulosa, justa ou injusta. Comidas (ou bebidas), por si só, não têm nenhuma relação com a ideia Estoica de felicidade. Em outras palavras, o que você escolhe comer e a maneira como você obtém a sua comida, a prepara e a serve faz uma diferença moral porque isso diz algo sobre o seu caráter.

O Estoicismo contemporâneo está longe de ser sinônimo de vegetarianismo ou ambientalismo. Outro problema é que o Estoicismo foi tomado, até certo ponto, por dois grupos de interesse barulhentos e pouco conectados: os “E$toicos” e os “Broicos”. O primeiro usa o “Estoicismo life-hack” como um meio de se obter riqueza e status pessoal ao crescer no cruel mundo corporativo. O segundo usa o “Estoicismo” como uma plataforma de defesa dos direitos masculinos e de seu status quo. Isso é algo que eu acredito que os Estoicos contemporâneos, como eu mesmo, deveriam desafiar abertamente – se quisermos permanecer firmes em nosso dever cosmopolita.

Nos últimos anos, as fileiras dos Broicos incharam como uma bolha – delicada ao toque, dolorosa quando pisada acidentalmente e totalmente explosiva quando cutucada. Muitos deles usam (erroneamente) citações Estoicas expressivas para justificar ações cruéis, especificamente aquelas ligadas à justiça. As coisas ficam particularmente feias quando eu uso os canais Estoicos nas mídias sociais para discutir questões como mudança climática, a disparidade salarial entre homens e mulheres ou educação para o cidadão global. Essa bobagem abafa o número mais silencioso, mas crescente, de vozes masculinas e femininas que lembram a todos que os Estoicos estão exclusivamente interessados na busca da virtude. Também silencia de forma efetiva a posição Estoica de optar por mais opções vegetarianas em nossa dieta, porque temos fortes evidências de que, nas circunstâncias em que nos encontramos, é a coisa mais virtuosa a se fazer. Afinal, no cenário mundial, os alimentos que compramos e onde escolhemos comprá-los têm um impacto no bem-estar social e planetário.

Parte do desafio quando se trata de defender uma “dieta Estoica” é que o que escolhemos comer é uma declaração altamente pessoal e muitas vezes politizada, como mostra a demissão de William Sitwell por comentários agressivos sobre “matar veganos”. Quando me tornei vegetariano, muitas pessoas à minha volta levaram a minha decisão para o lado pessoal, mesmo que isso não tivesse nada a ver com elas. Algumas pessoas começaram a me perguntar em um tom preocupado, “de onde você vai obter sua proteína?”, ou “de onde você vai encontrar energia para treinar?” Outras me atacaram por “tentar ser melhor que todos os outros” ou por “ir contra a Natureza” (uma acusação muito séria para um Estoico) ou até “ir contra deus”. Um casal que adotou essa última visão até me convidou para jantar, mas convenientemente “esqueceu” que eu não comia costeletas de porco.

Os julgamentos morais que cercam os alimentos tornam a dieta um assunto interessante, embora pesado, no Estoicismo. O que você decide colocar no seu prato pode expressar sua riqueza, prioridades e alianças culturais ou políticas. Então, a comida tem um papel em forjar uma identidade e pode fortalecer laços sociais. Pode até comunicar sua afiliação religiosa – e é por isso que o pai de Sêneca pediu que ele deixasse de ser vegetariano, que na época estava ligado ao Pitagorismo, uma influência não romana (Cartas a Lucílio, 108.22).

Outro elemento fundamental quando se trata de escolhas alimentares Estoicas – que vai além do simples pensamento em termos de preferências pessoais – é a importância moral de viver em harmonia com os processos naturais. De fato, “viver de acordo com a Natureza” é a única prescrição existente no Estoicismo que remonta ao seu fundador, Zenão de Cítio. É algo que evoca pensamentos e ações que reconhecem o valor de todos os elementos da comunidade da Terra e, portanto, representa a antítese da “mensagem” Broica. Esse entendimento forma a base da estrutura ética do cosmopolitismo, que promove os interesses coletivos da tribo humana universal. Também é algo representado nos “círculos de preocupação”, uma metáfora Estoica que destaca as obrigações morais que temos em relação a nós mesmos, nossa família, amigos, comunidade e toda a humanidade.

Em 2018, minha equipe e eu desenhamos um círculo adicional – o “meio ambiente” – para reconhecer nossa conexão com a Terra viva, e o fato de que ela sustenta e apoia todos os círculos precedentes. Isso implica que os Estoicos deveriam se preocupar com a existência continuada de seres vivos não-humanos e com os ecossistemas dos quais todos dependemos. Também argumentei que não podemos continuar sujeitando os animais a práticas agrícolas intensivas, se nós, como Estoicos contemporâneos, formos coerentes em nosso cosmopolitismo e no chamado para “viver de acordo com a Natureza”. Isso ocorre porque tais práticas negam a capacidade dos animais de viver de acordo com sua própria natureza. Se todos reconhecessem adequadamente seu próprio papel no apoio à separação antiética dos animais jovens de sua mãe e ao encarceramento em massa de animais em geral, as implicações para a indústria de alimentos seriam profundas.

Quando uma pessoa tem boas razões para suspeitar de práticas antiéticas por trás de sua carne, leite ou ovos, deve abster-se de comê-los se deseja ser consistente com os princípios Estoicos. O mesmo pode ser dito sobre o consumo de outros produtos de origem animal e vegetal, especialmente onde a monocultura representa uma ameaça para os ecossistemas vulneráveis (como as florestas tropicais). É aqui que os vegetarianos e veganos são frequentemente acusados de contribuir para danos ambientais. No entanto, dado que 70% da soja americana é destinada para alimentar animais, uma dieta baseada em vegetais ainda pode ser apropriada enquanto o consumidor permanecer diligente.

A mudança climática também é um excelente motivo para ser vegetariano. Do ponto de vista Estoico, o que faz com que um aumento médio de 2 a 3 °C na temperatura global seja errado é o fato de estarmos ultrapassando as fronteiras planetárias além de um limiar que pode sustentar a vida. Isso, por sua vez, dificulta nossa capacidade de cumprir nosso dever cosmopolita de cuidar de nós mesmos e dos outros. O colapso do clima também demonstra a necessidade moral de reavaliar urgentemente nosso papel e relação com a Terra. Isso porque nosso comportamento deve se alinhar ao nosso desejo racional de tornar o planeta mais hospitaleiro e propício à vida. Consequentemente, devemos considerar os fatos ambientais sobre o que e como comemos.

Ser um Estoico significa que devemos estar cientes das mais recentes dietas da moda. Devemos questionar os fundamentos morais, para não mencionar os de saúde e factuais, da dieta da carne de Mikhaila e Jordan Peterson – uma dieta Paleolítica ou cetogênica, com muita carne, na qual muitos E$toicos e Broicos confiam. Fazer isso não nos torna “falsos Estoicos”, “fraudadores climáticos” ou “idiotas Marxistas da esquerda radical”, como eles acusam.

É claro que pouquíssimas pessoas além dos fãs mais fiéis de Jordan Peterson ou dos entusiastas da dieta Paleolítica defenderão que devemos comer mais carne. No mínimo, devemos comer menos carne, pagar mais por ela, aproveitá-la ao máximo e saber de onde ela vem. Também podemos promover práticas industriais e de pesquisa que levem a fontes de alimentos potencialmente mais sustentáveis, como carne artificial ou proteína de insetos.

No momento, se queremos ser totalmente consistentes com os princípios Estoicos, então provavelmente devemos reconhecer que uma dieta vegana é a maneira mais eficaz de reduzir nosso impacto no planeta. Dito isto, o Estoicismo não é uma filosofia prescritiva nestes assuntos – então nem sempre um Estoico precisa, independentemente das circunstâncias, optar por uma dieta sem carne. As evidências, no entanto, especialmente quando combinadas ao compromisso de viver em harmonia com a Natureza, apoiam fortemente a ideia de que um Estoico contemporâneo deva, no geral, preferir uma opção vegetariana ou vegana. Isso inclui aqueles que, assim como eu, gostam tanto de musculação quanto de ler um livro!

Kai Whiting é consultor, pesquisador e professor na área de política e filosofia ambiental, economia ecológica e desenvolvimento sustentável. Doutorou-se pelo Instituto Superior Técnico, da Universidade de Lisboa, onde atua profissionalmente. Uma de suas linhas de pesquisa intitula-se “estoicismo e sustentabilidade” e parte de seu trabalho pode ser apreciado no site “Stoic Kai“(majoritariamente em inglês).

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