A FILOSOFIA COMO MEIO DE EXPERIMENTAR OS ESPAÇOS DA PÓLIS:

OS EXEMPLOS DA ATENAS ANTIGA (SEC. IV – III A.C.)

 

Luiz Henrique Silva Moreira[1]

 

A imagem acima[2] reproduz os espaços que as escolas filosóficas ocuparam em Atenas durante a antiguidade. Através desta é possível visualizar as quatro principais escolas de pensamento no mundo antigo, a Academia de Platão, o Liceu de Aristóteles, o Pórtico Pintado de Zenão e o Jardim de Epicuro.

Por mais que se trate de um simples esquema topográfico, este possibilita a reflexão sobre como os espaços que as filosofias antigas ocuparam se refletem em suas “doutrinas”, mas também o movimento contrário no qual o próprio espaço é fruto dessa doutrina. Ao passo que adentra-se em uma discussão acerca da filosofia e os locais onde buscaram florescer, há a possibilidade de compreender como estas tomaram para si a missão de dar continuidade à filosofia Socrática, a ponto de destas filosofias supracitadas, durante o período helenístico e após a morte de Sócrates, se identificarem como Socráticas mas diferirem entre si. Ou seja, partindo da figura de Sócrates como um filósofo que pretendia ocupar todos os espaços das Pólis, há a possibilidade de compreender como estas tomaram para si a doutrina socrática e atualizaram a mesma perante o mundo turbulento do Reinado Macedônico e das Dinastias dos Sucessores.

Tomando como exemplo a Academia de Platão, que ao que tudo indica foi fundado nas primeiras décadas do século IV a.C., Platão parece ter adquirido o terreno após o seu regresso da Sicília. Através da Carta VII há a possibilidade de compreender como no momento em questão o filósofo ainda se encontrava marcado pela morte de Sócrates e sua viagem à Siracusa, onde havia sido feito escravo.

 

O jardim de Akademos é o protótipo mítico dos paraísos terrenos: um mundo vegetal que se auto-regenera, por oposição à pedra da cidade e às suas ruínas. Daí a sua ilusão de imortalidade, embora uma imortalidade construída sobre a morte, desde logo a de Sócrates. O jardim de Akademos não é a cidade, não é o bosque, está entre a arte e a natureza bruta, na medida em que a arte pode respeitar a natureza ao mesmo tempo que se afasta da artificialidade e da bestialidade, por vezes as duas (como tinha descoberto Sócrates) tão próximas.  (MALATO, 2009, p. 7)

 

Partindo de tal, pode-se questionar acerca das intenções de Platão quanto a escolha do local para a fundação da Academia, Academia essa que pretendia dar continuidade ao pensamento socrático, mas não mais como este que interpelava à todos nas vielas da Pólis, mas exigindo daquele que deseja obter a instrução um deslocamento, uma jornada que exigia que o aluno transpassasse os portões da Pólis, quase como uma analogia para transpassar o limite da caverna.

 

Por estas razões, o jardim de Akademos contém, do ponto de vista simbólico, um estado de ambiguidade e indeterminação que é favorável às suas intenções sociais e filosóficas. Teria Platão tido consciência destes fatores? Talvez. Seria difícil permanecer-lhes indiferente ao escolher o sítio da sua escola: qualquer escola nos arredores do burgo é estranha aos seus propósitos mais óbvios: estar perto de quem quer ensinar. O jardim de Akademos é, por ser um jardim e por se encontrar nos arredores da cidade, uma estratégia discreta. Mas não uma estratégia de fuga ou de simples refúgio. Esta primeira academia, ao contrário das academias reais que são criadas a partir do século XVII, é uma ―academia espontânea, isto é, surge da vontade do poder civil e não do poder político. E olha o poder político com interesse e desconfiança, evitando a provocação tanto quanto a indiferença. O jardim coloca-se em frente da cidade (e, etimologicamente, contra ela, face a ela), olhos nos olhos. (MALATO, Idem)

 

Fruto direto do jardim de Akademos, o Liceu de Aristóteles parece ter funcionado entre 335 a.C. e 323 a.C., se tratava de um bosque dedicado a Apolo Lício onde era comum o mestre passear e ensinar dentre as árvores, motivo pelo qual a escola ficou conhecida como Perípato (Peripatos) e seus discípulos peripatéticos (peripatoí). Wermann e Machado (2016) apontam para a diferença entre a Academia e o Liceu quanto à forma de produção de conhecimento, sendo a primeira mais dialética e a segunda mais instrutiva, visto que Aristóteles compreendia que o conhecimento filosófico “não era o resultado de um processo dialético, mas das contribuições individuais e tarefas compartilhadas”[3]. Através de Consoante Höffe[4], os pesquisadores supracitados apontam para como as limitações de Aristóteles enquanto estrangeiro se refletiam em sua instituição de ensino, pois a este era vedada a aquisição de bens duradouros, fato que justificaria a estrutura física ser bem menor que a Academia. Para além disso, também há a possibilidade de ler a menor atuação política dos peripatéticos e maior dedicação ao conhecimento empírico e sistemático, como resultado da atuação política limitada que Aristóteles detinha devido à sua condição de estrangeiro.

Mas isso não significa necessariamente um declínio da atuação política da filosofia ateniense pós-Sócrates, observando a imagem exposta anteriormente, torna-se possível perceber que o Pórtico Pintado (Stoa Poikíle) se encontrava ao lado da Ágora, local onde os homens que eram tidos como cidadãos debatiam a situação política da Pólis. Acredita-se não ser possível tomar por mera coincidência a escolha de tal local, por Zenão de Cítio, aproximadamente em 301 a.C., como local destinado para debater e propagar o pensamento filosófico, que por causa da própria Stoa ficaria conhecido Estoicismo, doutrina essa que se tornaria pedra angular dos pensadores romanos. Mesmo sendo notável dentre os Latinos, não se deve desconsiderar os feitos da filosófica estoica em Atenas. Max Pohlenz diz que “graças a Zenão e Crísipo, obscureceu a Academia Platônica e o Liceu Aristotélico”[5].

Tal atitude se deriva do princípio estoico que preza por uma vida que não seja conduzida em torno de um saber individual, mas em torno da noção onde o cuidado de si e o cuidado do outro são equivalentes. É em tal percepção perante a sociedade que o estoicismo grego mais se aproxima de Sócrates, pois tendo em mente que havia a necessidade de construir um espaço próprio de atuação do humano, buscavam separar o ser da limitação imposta pela natureza. Esta separação seria alcançada através do bom controle racional, que possibilitaria um atento exame do cotidiano perante as coisas que são possíveis de serem controladas pelo humano. Foi nesse movimento de busca pela vida pautada na investigação que os estoicos se tornaram educares sociais em um mundo em expansão cultural, científica e social[6].

Ambas as escolas preservaram e prezaram por políticas de acessibilidade que permitissem que todos aqueles que tivessem acesso à Pólis, independente de linhagem ou raiz familiar, de condição social ou de serem ou não gregos. Mas a que melhor cumpriu esse papel de se colocar à disposição de todos foi o Jardim de Epicuro.

Perante o domínio macedônico, Epicuro propôs uma abstenção da vida pública e da vida política, por considerá-la a causa da infelicidade e a doença de seu tempo. E talvez a posição do Jardim seja sintomático dessa atitude, não se trata de sair da Pólis, mas de uma tentativa de compreender seus limites e como cada um se insere na mesma.

 

Este discurso tornava todos os homens iguais, pois a felicidade não dependia de bens ou títulos, pois para ser feliz era necessário apenas estar vivo. Enquanto outros filósofos ensinavam nas academias e nas praças públicas, onde se encontravam os homens importantes da cidade, Epicuro ensinava no seu jardim, onde todos poderiam ter acesso aos ensinamentos do mestre: nobres, escravos, ricos, pobres, homens e mulheres. (BORDIN; VALIM, 2008, p, 3)

 

Para além da premissa de ser seguidoras de Sócrates, o elemento que une as doutrinas é o entendimento de que a filosofia é um modo de vida. Não se trata de tomar a filosofia como fim, mas como meio pelo qual se torna possível alcançar a sabedoria e por isso essa se reflete nos locais onde se atua na Pólis, seja na Antiguidade ou na Contemporaneidade, pois partia-se do entendimento de que a sabedoria era a capacidade de compreender, mas principalmente ocupar espaços.

 

Referências Bibliográficas

 

BORDIN, Reginaldo A.; VALIM, Diogo A. Epicuro: A ética e o prazer, os caminhos da felicidade. In: VII Jornada de Estudos Antigos e Medievais VI Ciclo de Estudos Antigos e Medievais do PR e SC: Educação, Política e Religiosidade. 2008, Maringá. Anais… (on-line) Maringá, 2008. p. 1-13.

 

CAPELLE, Wilhelm. Historia de la Filosofia Griega. Madrid: Editorial Gredos, 1976.

 

DUHOT, Jean-Jöel. Epicteto e a Sabedoria Estoica. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

 

LONG, A. A.; SEDLEY, D.N. The Hellenistic philosopher: Translations of the principal sources with philosophical commentary. v.1. Cambridge/UK: Cambridge University Press, 2012.

 

MACHADO, Fabrício F.; WERMANN, José A. Uma aproximação entre a Academia de Platão, o Liceu de Aristóteles e as universidades. Theoria, Pouso Alegre, v. VIII, 2016. p. 1-17.

 

MALATO, Maria Luísa. A Academia de Platão e a Matriz das Academias Modernas. Notandum, Porto/Portugal, v. 19, 2009. p. 5-16.

[1] Licenciado em História pela Universidade Estadual do Paraná (UNESPAR), Campus União da Vitória. Atualmente é aluno do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Paraná (UFPR), pela linha de pesquisa Cultura e Poder. E-mail para contato: lhs.moreira@outlook.com

[2] (LONG, A. A.; SEDLEY, D.N. The Hellenistic philosophers. Cambridge: Cambridge University Press, 2012. p. 3.)

 

[3] LYNCH Apud MACHADO, F. F.; WERMANN, J. A.. Uma aproximação entre a Academia de Platão, o Liceu de Aristóteles e as universidades. Theoria, Pouso Alegre, v. VIII, 2016. p. 12. Citação Original: “[…] was not the result of […] a dialectical process but of individual contributions and shared tasks”. Cf: LYNCH, John Patrick. Aristotle’s School: a Study of a Greek Educational Institution. Los Angeles: University of California Press, 1972.

[4] Cf: HÖFFE, Otfried. Aristóteles. Porto Alegre: Artmed, 2008.

[5] Apud CAPELLE, Wilhelm. Historia de la Filosofia Griega. Madrid: Editorial Gredos, 1976. p. 413. Citação original: “la Stoa, gracías a Zenón y a Crisipo, oscureció la Academia platónica y el Liceo aristotélico”.

[6] DUHOT, Jean-Jöel. Epicteto e a Sabedoria Estoica. São Paulo: Edições Loyola, 2006.

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