NICÓPOLIS ANO 130 EC

Quando cheguei à taberna, no centro de Nicópolis[1], olhei ao redor em busca de alguém que parecesse um filósofo. Sentado num canto, vi um velho de longa barba[2], sozinho, com uma caneca de barro entre as mãos. Ele olhava absorto para as garrafas atrás do balcão, enquanto, em uma mesa atrás, moças profissionais entretinham alguns veteranos como eu, sentadas em seus colos e rindo muito.

Aproximei-me do velho. Suas mãos calejadas seguravam a caneca, que, conforme percebi, espreitando, continha ainda um dedo de vinho.

Toquei levemente em seu ombro e lhe disse: ‘Acaso, filósofo, me permites pagar mais uma taça de vinho?’

Ele me retribuiu um olhar um tanto áspero, como se eu tivesse interrompendo algo muito importante, e, desviando o olhar, contemplou mais uma vez as garrafas à sua frente, me ignorando.

Antes que fosse tarde demais, me apresentei, ‘Sou Emílio, veterano da XV Apollinaris[3]. Passando pela cidade a caminho de Roma, resolvi tentar encontrar-te. Tu és Epicteto, o filósofo, não?’

Epicteto considerou desnecessário responder à minha pergunta. Como acordando de um sonho ancestral e maravilhoso, fez um supremo esforço para mover os lábios, e me respondeu: ‘Que queres de mim, escravo?’

Ouvindo a frase lapidar, não me contive e soltei uma sonora gargalhada. Epicteto me pareceu, por segundos, desconcertado, mas logo em seguida desanuviou a face e se permitiu sorrir, como fosse meu velho avô, que há tantos anos partira para o Hades, conduzido por Hermes, guia das almas.

‘Conheci um jovem grego de nome Flávio Arriano’, disse-lhe, ‘Ele me falou de ti e me deu isso’. Tirei de minha mochila um pequeno rolo. Epicteto tomou-o nas mãos, desenrolou-o com cuidado e leu o título: EPIKTETOU ENCHEIRIDION[4]. Devolveu-me imediatamente a obra sem mostrar qualquer emoção e disse: ‘Nunca escrevi coisa alguma’.

‘Eu sei’, disse lhe, ‘Flávio Arriano o escreveu o compôs… Uma síntese de seu pensamento… Não foi publicado ainda… Ele é meu amigo…’

Reinou, então, o silêncio. Um minuto. Dois minutos.

‘Mais um pouco de vinho não seria mau agora’, disse Epicteto, rompendo o silêncio. Atirei algumas moedas no balcão, e vinho nos foi servido. Epicteto levou a caneca à boca, como que sedento, mas imediatamente depôs a caneca sobre o balcão e lançou os olhos para a claridade da rua.

‘É verão’, disse ele, como que animado, ‘É a estação dos figos. Tenho em meu quintal uma bela figueira. Meu filho adotivo de quatro anos brinca aos seus pés[5]. Tens filhos?’

‘Sim’, disse eu, ‘Tenho dois’. Epicteto assentiu com a cabeça. ‘Vou visitá-los talvez em novembro. Vivem com a mãe nos arredores de Roma’.

Epicteto passou as mãos sobre o balcão, os dedos nodosos moviam-se tropegamente. O velho, com cerca de oitenta anos, pareceu-me de súbito voltar ao seu sonho ancestral, à contemplação de sabe-se lá quais imaginações. A tarde já ia alta e quente. Olhei também para a rua. Carroças repletas de verduras passavam puxadas por bois sonolentos.

Fiz menção de me levantar, mas, para minha surpresa, Epicteto me interrompeu pondo sua mão pesadamente sobre meu ombro, enquanto a outra buscava algo em seu alforje. Puxou, então, um pequeno rolo, desenrolou-o para que eu pudesse ler o título, e vi que era um tratado de lógica de Crisipo[6].

‘Toma isso e estuda. Todo o meu ensino supõe o conhecimento disso’.

Surpreso, tomei de suas mãos o rolo, e minhas mãos estavam trêmulas.

‘Que tua vida seja frutífera’, disse o velho Epicteto. Quando movi minha boca para lhe agradecer, dois jovens se aproximaram dele e começaram a tagarelar. E ele passou a ouvi-los como um bom pai ouve seus filhos pequenos.

Retirei-me em silêncio. Epicteto de Hierápolis. Então de fato o conheci.

Ao sair, pus a mão em minha mochila para me certificar que trazia comigo os dois livros, o Encheiridion de Epicteto, presente de Flávio, e o livro de lógica de Crisipo, presente de Epicteto. Aproveitei o movimento das mãos e conferi se também trazia comigo meu pugio[7] em sua bainha atada à minha cintura.

(Por Aldo Dinucci)

[1] Cidade localizada na entrada do golfo Ambrácico, na província romana de Épiro, fundada por Augusto em comemoração à sua vitória na batalha de Áccio. Em Nicópolis, Epicteto fundou uma escola de filosofia, provavelmente em sua própria casa, à qual afluía um grande número de discípulos e ouvintes.

[2] A barba era um signo distintivo dos filósofos na era romana.

[3] Legião à época estacionada em Satala (na província romana da Bitínia), atual Sadak, na Turquia.

[4] Assim se translitera do grego o título original do Manual de Epicteto. Encheiridion significa em grego simultaneamente manual e punhal.

[5] Epicteto adotou uma criança quando era já muito idoso. Era o filho de um amigo que iria abandonar a criança por sua extrema pobreza.

[6] Terceiro líder da escola estoica em Atenas. Considerado o segundo fundador do estoicismo.

[7] Punhal romano usado para proteção pessoal, em grego encheiridion.

 

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