Musônio Rufo:”Que as mulheres também devem filosofar” (Diatribe III)

 

Tradução de Aldo Dinucci[i]

 

[3.1] Quando alguém indagou se também as mulheres devem filosofar, [Musônio] começou a ensinar mais ou menos assim que elas devem filosofar:

“As mulheres receberam <da parte> dos Deuses a mesma razão que os homens, razão que usamos uns com os outros e segundo a qual julgamos, acerca de cada coisa, [3.5] se é boa ou má, e <se> é certa ou errada.

Semelhantemente também o feminino possui os mesmos sentidos que o masculino: visão, audição, olfato e os demais. Semelhantemente também pertencem a cada um as mesmas partes do corpo, e nada em maior número possuem um mais que o outro.

Ainda, o desejo natural pela virtude[1]não corre somente nos homens, mas também nas mulheres[2]. [3.10] Pois elas não menos que os homens são naturalmente dispostas para se satisfazer com ações corretas e justas e rejeitar as contrárias dessas.

Assim sendo, por que, então, caberia aos homens buscar e investigar como viverão corretamente, que é o filosofar, mas às mulheres não?

[3.15] Será que é porque cabe aos homens ser bons, mas às mulheres não?

Investiguemos também cada uma das coisas apropriadas à mulher para se tornar boa. Pois é evidente que cada uma dessas resultaria para ela sobretudo pela filosofia. Por exemplo, é preciso administrar a casa, ser hábil em avaliar as coisas vantajosas para a casa e comandar os criados.

[3.20] Eu digo que essas coisas pertencem sobretudo àquela que filosofa. Já que cada uma dessas coisas é parte da vida, e já que a filosofia não é outra coisa senão ciência sobre a vida, então o filósofo, como dizia Sócrates[3], segue investigando isto: “que bem e que mal entram em sua casa”[4]. [3.25] Mas é preciso também que a mulher tenha autocontrole, que também <precisa> estar livre de desejos sexuais ilícitos, estar livre de incontinência quanto aos demais prazeres, não ser escrava de desejos, nem ser briguenta, nem perdulária, nem coquete.

[3.30] Essas são ações do <humano> com autocontrole. E ainda, além dessas coisas, as seguintes ações: dominar a ira, não ser dominado pela dor, ser superior a toda paixão.

Essas coisas o discurso filosófico promete. Para mim, quem aprende e pratica essas coisas parece tornar-se mais ordenado, seja homem, seja mulher. E então? Sendo as coisas assim, não seria justa a mulher que filosofa? Não seria parceira irrepreensível na vida[5]? Não seria boa ajudante da concórdia? [3.35] Não seria cuidadosa guardiã do homem e das crianças?  Não seria totalmente livre de ganância e cupidez? E quem, mais que tal filósofa, tornar-se-ia tal de modo absolutamente necessário, já que seria por total necessidade filósofa[6]de verdade; julgaria pior ser injusta que sofrer injustiça[7], assim como mais vergonhoso; suporia melhor tomar a menor parte que a maior ao partilhar; [3.40] e ainda amar os filhos mais que a própria vida? Sendo ela assim, quem seria uma mulher mais justa que ela?

E certamente também cabe ser mulher mais corajosa a educada que a ignorante, e a filósofa que a sem instrução. Como nem por medo da morte nem por hesitação diante da dor suportar algo vergonhoso, [3.45] nem se curvar a ninguém porque é de nobre estirpe, ou porque é poderoso, ou porque é mais rico, ou porque, por Zeus, é tirano.

Pois é assim por ter praticado ter pensamentos elevados e crer a morte não ser um mal, a vida não ser um bem. Igualmente também não se desviar do trabalho árduo, de modo algum buscar a inatividade[8], donde ser plausível que a mesma mulher seja tanto industriosa quanto laboriosa, [3.50] e que alimentaria aqueles que ela gerou com seu próprio seio, serviria o homem com suas próprias mãos, e as coisas que alguns julgam servis, estas ela faria prontamente. [3.55] Então não seria tal mulher uma grande vantagem para o cônjuge, ornamento para os parentes consanguíneos e útil exemplo para os que a conhecem?

Mas, por Zeus, dizem alguns que as mulheres que se acercam dos filósofos são necessariamente arrogantes e, na maior parte das vezes, impudentes, quando, ao abandonarem os cuidados da casa, permanecem em meio aos homens, praticam argumentos, estudam sofismas, analisam silogismos, quando é preciso que permaneçam em casa e fiem a lã.

[3.60] Mas eu não julgaria desse modo as mulheres que filosofam, não mais que os homens que evitam as ações apropriadas para somente se ocupar de argumentos. Eu digo que os quantos que manuseiam argumentos devem manuseá-los em vista das ações. Assim como não há nenhum benefício no discurso médico se não levar à saúde do corpo humano, [3.65] do mesmo modo, se o filósofo tem ou ensina algum argumento, não há nenhum benefício nele se não levar à virtude da alma humana.

Antes de tudo, é preciso investigar o argumento que julgamos que as que filosofam seguem. Se pode torná-las arrogantes o argumento que mostra que o maior bem é o decoro[9]. Se pode habituar a viver com mais impudência o argumento que indica o caminho para uma maior modéstia. [3.70] Se não ensina a ter autocontrole o argumento que mostra ser mal extremo a licenciosidade. Se não exorta à administração da casa o argumento que estabeleceu que a administração da casa é uma excelência[10]. O argumento dos filósofos encoraja a mulher a ser industriosa e autossuficiente”[11].

[i]Esta diatribe se encontra em Estobeu 2.31.123. Cf. Lactâncio Inst. Div.III 25. Clemens Al. Strom.IV 8. Tradução baseada no texto de Hense. Divergências serão notadas (exceto as de pontuação, se cosméticas).

 

[1]Literalmente: o desejo e a apropriação por natureza para a virtude. Quanto à doutrina estoica da apropriação (oikeiosis), ver A. Dinucci, Koinonia cósmica e antropológica em Epicteto(2016). Referência completa do artigo?

[2]Cf. Arriano, As diatribes de Epicteto, 4.1.63; Sêneca, Consolação a Márcia, 16.

[3]Diógenes Laércio, Vida e Opiniões dos Filósofos Ilustres,II 21. Cf. Sexto Empírico, Contra os Professores,XI 74.

[4]Homero, Odisseia, IV.382.

[5]Cf. Clemente de Alexandria, Protréptico,VI 61.

[6]O termo grego não tem forma feminina.

[7]Platão, Górgias,509 c; Sêneca, Cartas,95 52; Musônio, Diatribe4 (ver abaixo).

[9]Aidos.

[10]Cf. Platão, Mênon,73 a-b.

[11]Há uma lacuna no texto aqui, que, porém, não impede de captar o sentido da frase.

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