A Superação dos Medos em Epicteto

Escrevo este texto em diálogo com João Leite Ribeiro, notadamente sobre o que nosso nobre estoico diz no texto intitulado Sócrates, a lógica e o estoicismo , publicado recentemente neste blog.

Em Epicteto, o termo grego andreia (coragem, em grego) ocorre, nas Diatribes, apenas quatro vezes, e nenhuma vez no Manual[1]. De fato, as virtudes enfatizadas por Epicteto diferem da taxonomia estoica ortodoxa das virtudes, que tem como principais as virtudes cardeais tradicionais do pensamento grego: sabedoria ou prudência (phonesis), coragem (andreia), justiça (dikaiosyne) e  temperança (sophrosyne). Não nos deteremos aqui em investigar a razão disso, mas antes a natureza dessas virtudes em Epicteto.

Para o estoicismo, as virtudes, em sua maioria, são conhecimentos. Epicteto coloca, como conhecimento principal a partir do qual as virtudes se constituem, a célebre distinção entre coisas que estão sob nosso encargo (comumente ditas ‘sob nosso controle’) e coisas que não estão sob nosso encargo (comumente ditas ‘não sob nosso controle’). A expressão grega eph’hemin não deve, segundo penso, ser vertida por ‘sob nosso controle’, porque elas não estão necessariamente sob nosso controle, mas elas podem estar caso filosofemos com Epicteto e consigamos fazer uma triagem quanto aos nossos juízos, negando assentimento aos falsos, dando assentimento aos verdadeiros e suspendendo nossos juízo aos incertos (o que, em termos concretos, significa nos livrar de falsas concepções, suposições e opiniões que mantemos sobre os outros, nós mesmos e o mundo) para, a partir daí reorientar nossos desejos e suavizar nossos impulsos (tornando nossos instintos socialmente adequados).

Nesse sentido, em termos concretos, aplicar a distinção entre coisas sob nosso encargo e coisas que não estão sob nosso encargo (que chamamos por simplicidade de Teorema Ontológico[2]) significa perceber que as coisas ditas boas ou más estão sob nossa responsabilidade e podem estar sob nosso controle. Em outros termos, nosso bem e nosso mal dependem apenas de nós, se reduzindo ao manejo dos nossos juízos, desejos e impulsos, enquanto as coisas externas, que nos acontecem, que nos rodeiam, não são boas nem más, mas materiais para a nossa capacidade de escolha. Dito de forma simples, qualquer coisa que ocorra, por pior que pareça, pode ser bem utilizada, podemos fazer bom uso dela, embora, evidentemente, haja graus de dificuldade, pois umas coisas são bem mais difíceis de lidar que outras. Mas potencialmente, e essa é a aposta do estoicismo, qualquer acontecimento pode ser enfrentado. Michael J. Fox, que há anos convive com o Alzheimer, teria dito que ‘Aceitação não significa resignação. Significa compreender que algo é o que é e que deve haver um meio para atravessá-lo’. Não podíamos encontrar melhor definição para a atitude que Epicteto recomenda diante de revezes exteriores.

Nesse sentido, voltando ao tema da coragem, depois de milhares de anos de predomínio do platonismo, tendemos a pensar que Epicteto pretende oferecer algum conhecimento de caráter metafísico que capacite as pessoas a serem corajosas. Esse, evidentemente, não é o caso. Primeiro, porque Epicteto reconhece que cada um nasce com suas limitações em termos de capacidades e virtudes (porque para o estoicismo virtudes –aretai– são primariamente capacidades – dynameis), como podemos ver pelo capítulo 29 do Manual:

 

Alguns, ao contemplarem e ouvirem um filósofo (um desses que falam bem como Sócrates – e, de fato, quem é capaz de falar como ele?), querem também eles próprios ser filósofos. Homem! Examina primeiro de que qualidade é a coisa, depois observa a tua própria natureza para saber se a podes suportar. Desejas ser pentatleta ou lutador? Olha teus braços e coxas. Observa teus flancos, (6) pois cada um nasceu para uma coisa. (Tradução: Aldo Dinucci e Alfredo Julien)

 

Entretanto, embora em alguma medida estejamos limitados por nossa própria natureza, embora não possamos, por exemplo, ser corajosos como Sócrates nas batalhas, podemos sim, através de um processo de autoconhecimento e prática de certos conhecimentos gradativamente eliminar ou atenuar muitos de nossos medos. Epicteto nos diz expressamente isso na diatribe 2.5, intitulada ‘Que a intrepidez não conflita com cautela’. Intrepidez traduz o termo grego o verbo tarseo (ou tarreo), que significa primariamente ‘ter boa coragem’, ‘não temer’, ‘ter confiança’, ‘ser resoluto’, ‘ser intrépido’.  E nessa diatribe[3] Epicteto nos diz que o primeiro passo para a intrepidez é conhecer e se habituar a aplicar o teorema ontológico e aceitar as coisas como são buscando o meio acertado para lidar com as vicissitudes.

 

Agora por que é importante este pensamento sobre as vicissitudes? Não seria isso uma coisa desagradável e odiosa pensar em ‘males que nos possam ocorrer?’ A questão é que se não pensarmos sobre essas coisas, o medo que temos delas permanece, se amplifica e acaba por contaminar nossa vida, impedindo-nos de vivê-la e percebê-la como Epicteto a vê, como um festival:

 

Não queres, então, pelo tempo que é dado, contemplar a solene procissão e o festival e, então, quando saíres, ir-te sendo obediente e sendo grato pelo que ouviste e viste? <…> Talvez também em Olímpia outros atletas lutem, mas a solene procissão tem seu fim: sai, partindo da vida como um <homem grato>, como um homem que tem senso de pudor, dá espaço a outro. É preciso também que os outros nasçam, do mesmo modo que tu nasceste, e os que nascem precisam de terra e de casas.   (Epicteto, Diatribes 4.1.105- 106, minha tradução)

 

Então é preciso ter confiança de que as vicissitudes que se apresentarem poderão ser enfrentadas. Sem isso, seremos escravos do medo e não poderemos contemplar o belo espetáculo ao qual fomos apresentados pela Divindade, que no estoicismo é o próprio mundo, que é visto como um grande ser vivente racional. Nisso podemos progredir. A isso podemos nos habituar. Após isso, pelo autoconhecimento, podemos identificar nossos principais temores. Lembre-se: sem identificar nossos temores e desconfortos, eles continuarão nos fazendo sofrer difusamente. A suposta estratégia do avestruz de esconder a cabeça quando surge um predador de nada nos adianta aqui. Se os medos não forem enfrentados, eles nos arrastarão, e não poderemos contemplar o belo espetáculo que a vida é.

 

Isso, entretanto, não significa, como bem notou Epicteto, que devamos nos submeter a exercícios físicos perigosos, como ele nos deixa claro na diatribe 3.12:

 

Não devemos nos exercitar de modos contrários à natureza… pois é difícil mesmo andar sobre uma corda; e não apenas difícil, mas também perigoso. Devemos, por essa razão praticar andar em cordas, subir em palmeiras ou abraçar estátuas? De modo algum. Tudo que é difícil e perigoso não é adequado para a prática (vertido do inglês a partir da tradução de George Long).

 

Portanto, Epicteto claramente desaprova exercícios perigosos e extremos. A verdadeira prática estoica consiste em se habituar a ver as coisas sob o prisma do teorema ontológico para, a partir daí, identificar nossos medos, nossas angústias e as fontes de nossas infelicidades, de modo a encontrar meios de superar isso tudo paulatinamente. Hoje em dia as pessoas pensam sempre em imediatismo, mas o exercício filosófico antigo supõe um longo trabalho, de anos. E os medos, as angústias e infelicidades devem ser enfrentados caso a caso, de modo similar ao que muitas correntes psicológicas recomendam hoje, com técnicas que nos possibilitam, por exemplo, superar ou minimizar o medo de voar de avião, o medo de falar em público, a timidez excessiva etc. O prêmio disso é uma crescente tranquilidade, a ausência de perturbação e ter alma livre de medos, angústias e infelicidades para vivenciar a vida plenamente.

[1] Cf. Epicteto, Diatribes, 1.6.28; 1.6.43; 2.16.14; 4.1.109.

[2] Antonio Carlos Tarquínio me chamou a atenção quanto ao caráter ontológico desta distinção, remetendo-me a Hadot, que a percebera inicialmente.

[3] Que traduzimos e puiblicamos aqui: https://seer.ufs.br/index.php/prometeus/article/view/11258/8707

 

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