Dois sonetos

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Detalhe de baixo-relevo celebrando um triunfo de M. Aurélio; sobre a cabeça do imperador, vê-se seu “espírito guardião” (fonte da foto)

Tenho trabalhado em alguns textos de maior complexidade e que virão a lume, volente Fortuna, aqui no “De vita stoica” nas próximas semanas.

Enquanto isso, deixo meus leitores e minhas leitoras com dois sonetos não tão recentes: o primeiro deles, “Do ofício de homem”, já o tinha eu divulgado aos amigos da minha então conta de Facebook (já falecida e devidamente sepultada). Quanto ao segundo, “Teologia”, não o tinha mostrado a praticamente ninguém, com duas exceções — para mim muito caras.

Os que estiverem familiarizados com Marco Aurélio Antonino decerto se lembrarão da noção de “ofício” ou “trabalho” próprio do ser humano (anthrōpou érgon, ἀνθρώπου ἔργον), com que o imperador-filósofo persuadia e exortava-se a si mesmo a permanecer no caminho reto, ainda que as circunstâncias fossem as mais difíceis. O tom cético relativamente à filosofia, que se nota no início do poema, deve ser entendido à luz de uma visão mais “essencialista” da vida: estamos aqui para praticar o bem, ainda que frágeis de corpo e de entendimento. É como se o que restasse da vida fosse uma nota de resistência, e mesmo de garbo — apesar de tudo.

Quanto aos catorze versos de “Teologia”, não têm tanta importância a profissão de fé de agnosticismo radical que ali inscrevi, nem a aparente indecisão quanto à existência de Deus ou de deuses: uso os argumentos e as noções metafísicas de outrem para ilustrar como, em meu modo de ver as coisas, tudo, por inessencial, acaba equivalendo-se. Como já o escreveu o nosso Antonino, havendo Providência ou átomos, nossa responsabilidade ética não se altera (veja, por exemplo, Meditações, IV, 3; VI, 44; IX, 39).

Porém, deixo o leitor eventual com uma perplexidade: não entendo por que muitos dos que não duvidam, nem por um momento!, de que Deus exista não derivam daí uma grande, inabalável, profícua incerteza a respeito de si mesmos e de suas próprias motivações. Um “Deus” que seja um estandarte com que desfilamos para nossos iguais e alvejamos as cabeças dos diferentes ou ainda um tabique por detrás do qual escondemos o que é vergonhoso em nós não vale a pena. Se há Deus, penso, só pode ser uma divindade que nos leve a duvidar — mas será boa esta minha noção?

Já estou eu explicando-me demais, o que é sempre fatal para quem escreve versos, bons ou maus. Vamos à leitura.

DO OFÍCIO DE HOMEM

 

Homem, não busques na filosofia
remédio para o teu destino escuro:
para a morte jamais estás maduro,
conquanto te exercites noite e dia.

A carne cede, calcina-se, atrofia,
e a dor é para ti jugo tão duro
que nem podes dizer, com Epicuro,
que o prazer reina, mesmo na agonia.

Porém, se a dor, a morte, o desengano,
te enredam nesta estranha condição,
e as coisas que consolam se consomem;

há algo para o teu cotidiano:
o bem que vive em ti não é ficção,
é o teu império, o teu ofício de homem.

(23/11/2016)

 

TEOLOGIA

 

Que há para além das trevas insondáveis:
imóvel quietude ou fogo eterno
que transmite o fulgor do céu superno,
em centelhas, aos astros incontáveis?

Vêm donde estes anseios incuráveis
que me estilhaçam o rigor interno?
Não moro em mim, questiono e mal discerno
os porquês que me assaltam, implacáveis.

É Deus a solidão de todos nós
ou aquilo que a transcende, que a desfaz?
Será compensação ao medo atroz

da sem-razão de tudo, pertinaz?
Não sei. Porém, se não estamos sós,
é Ele quem mais dúvidas me traz.

(14/02/2017)

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Donato Ferrara é professor e administrador escolar.

 

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