Sócrates, a lógica e o estoicismo

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Estátua de Sócrates à entrada da Moderna Academia de Atenas, obra de Drosis e Piccarelli (fonte da foto)

Por João Leite Ribeiro

Acredito que a leitura das Diatribes de Epicteto possa levar a enganos quanto ao estoicismo. Leva a uma supervalorização da coragem e, a seguir, a um caminho não estoico para obtê-la.

Me parece que a ideia central é manter a calma, sempre. O que é bom, mas esse sempre, sabemos que é privilégio do sábio. Epicteto era um homem de grande coragem (acredito que coragem para ele não era audácia, e sim fazer o melhor diante do perigo), e não é possível, para a maioria de nós, por meio de qualquer estudo que façamos, atingir a coragem dele.

De um modo geral a coragem pregada nas Diatribes me parece exagerada, tanto pelo fato de Epicteto ser muito viril, como pelo fato de ele me parecer um pouco eufórico.

E o texto pode ser ilusório.

Vejo praticantes do estoicismo se esforçando para tomar banhos gelados. Eles podem aumentar a resistência ao desconforto. Mas resistir à dor depende de todo o seu passado. Se você nasceu numa maloca indígena e desde os dois meses de idade foi picado por insetos, teve que enfrentar dor de dente sem ajuda de dentista, pedra nos rins sem analgésico, todos os espinhos e insetos que há no mato, é inevitável que você terá um limiar de dor muito mais alto do que quem não viveu assim. Ou seja, o seu limiar de dor não é sinônimo de sua virtude, ele depende de seu passado, e talvez até de sua genética.

Parece, a um leitor incauto, que existe uma coragem pela coragem: tenho que aguentar vou me desdobrar e vou aguentar. Dá a impressão de que a força de vontade resolve tudo. É verdade que havia uma máxima estoica de que quem tem uma virtude tem todas. Mas vejo bandidos com grande coragem. Gostaria de entender isso. Me parece que simplesmente minimizar a importância da dor física ou psicológica, só pensar que vamos aguentar isso, é um tanto simplório. Acredito que o próprio Epicteto concordaria comigo. O primeiro passo é ver o que está em nossas mãos e o que não está. Não tomar banhos frios.

É fácil ficar obcecado pela coragem. É fácil querer ser mais corajoso que o próximo. E isso gera euforia.

Vejo muitos aspirantes do estoicismo se focando nisso. A cultura romana era uma de aguentar a dor e a morte. “Vou aguentar ambos. E para chegar lá vou começar acordando todos os dias às quatro da manhã.”

Muita gente vê o estoicismo como uma espécie de serviço militar.

Depois, tem a questão dos prazeres. Isso já é mais sutil. Todo prazer é transitório e se vejo assim vou ser mais resistente. Nisso acredito mais do que no banho frio.

Se me repetir sempre que posso perder o que tenho, se de fato perder, não me incomodarei tanto. Melhor, não vou viver preocupado em perder o que tenho.

Mas quero chegar a um outro ponto: Sócrates. Sócrates era um homem corajoso, pelo menos Alcibíades diz tê-lo visto em batalha e constatado isso.

Mas Sócrates não fica obcecado pela coragem. “Vou aguentar” não é o que ele tem em mente. Esse é o ponto desse artigo. Esse “vou aguentar”.

Sócrates quer conversar, exercitar sua lógica. É isso que ele gosta de fazer. Não ficar pensando em como enfrentar a tortura.

O que se passa? Imagine o leitor que esteja conversando com alguém. Há uma ampla variedade de coisas em que o leitor possa estar prestando atenção. A roupa da pessoa, o cabelo, a linguagem, e, o pior, e que acontece sempre, o leitor pode começar a se comparar ao seu interlocutor. E depois, quando começa a falar, o leitor vai ver que vai estar obcecado em verificar se o que diz está na moda ou não, se está exibindo cultura ou não, vai pensar no que seu interlocutor vai dizer de você para terceiros, um monte de coisas lhe passam pela cabeça.

A lição de Sócrates é simples: foque-se na lógica. Esqueça todas essas bobagens.

Ao longo dos anos, sempre se focando na lógica, Sócrates abandonou a fogueira das vaidades. Se tornou desapegado. E é aí que surge sua força. Sua tranquilidade.

Acredito que Sócrates se habituou a ficar tranquilo. Ele se treinou em ficar tranquilo. Ao não comparar-se, ao não ficar obcecado em estar na moda, ele sentiu confiança, calma.

Esse hábito de estar tranquilo é que foi a mágica. Porque acredito que foi através desse hábito que ele ficou tranquilo na batalha, foi através desse hábito que ele ficou calmo diante da morte.

Quando você toma um banho frio pode até habituar-se a ficar tranquilo diante da água fria. Mas o focar-se na lógica é muito mais poderoso. O ser humano é um ser social, sua preocupação é a diplomacia, é isso que aflige esse bípede pensante. Então, quando seu foco é na lógica, você está lidando com aquilo que é a principal preocupação humana e é mais poderoso do que o banho frio.

Na minha opinião, passar a vida dizendo “vou aguentar qualquer adversidade” não é estoico, não é feliz. Até porque há um grande risco de você começar a comparar sua resistência com a resistência dos outros. E aí toda a sua tranquilidade vai por água abaixo.

O estoicismo é de fato uma tentativa de cruzar bem este curto tempo que temos neste planeta. Em vez de ficar se afligindo com mil males que lhe possam acontecer, é melhor apreciar o que se tem.

Vemos muitos estoicos falando (como os budistas) na transitoriedade de tudo. De fato, posso perder tudo que tenho. Mas veja o leitor uma coisa interessante: a lógica é incorpórea. Uma coisa incorpórea é por definição indestrutível. Ou seja, a lógica não é transitória. O leitor talvez passe sua vida inteira com a possibilidade de se ater à lógica.

E daí deriva algo realmente interessante. Sócrates tinha sempre boa vontade. Porque todo mundo tem alguma lógica, e ele era sempre um bom companheiro para se partilhar nossos pensamentos. Esse Sócrates solidário, honesto, bom, deriva dessa lógica. Ficar tomando banho frio não vai levar você a ser mais solidário. Ser lógico, sim.

Esta vida é sobre ser bom. Dizer “aguento tudo” não vai levar você a ser bom.

Vi o vídeo de um pensador estoico moderno, A. A. Long. Ele deixou para o fim a consideração mais importante. O fato de tudo estar interconectado. Seu pertencimento ao cosmos.

Amigo, dizendo “aguento tudo”, você não vai sentir-se parte disso tudo. Mas, se você for lógico, sim. Existe uma coisa interessante a respeito da lógica. Ao contrário da crença popular, quem se foca na lógica não pensa mais, pensa menos. Veja-se a máxima socrática: sei que nada sei. Ou seja, ele tinha a mente vazia. Os céticos aqui vibrariam, porque de fato Sócrates não tinha dogmas. Esse estilo de não ter dogmas o levava a pensar menos, a ter a mente vazia, e aberta à humanidade, ao universo. Estar aberto ao universo é muito, muito mais importante, do que “aguentar tudo”, tomar banhos frios, etc.

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João Leite Ribeiro conviveu com delírios sua vida adulta inteira, sendo mesmo diagnosticado com esquizofrenia. Aprendeu a superá-los por meio do estudo de alguns filósofos. Hoje é um homem feliz. É autor do livro Memórias de um estoico, já publicado.

 

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