O estoicismo e a lógica como caminho para a felicidade

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Por meio da lógica estoica, entendemos a realidade e podemos afastar reações emocionais desagradáveis (fonte da foto)

Por Guilherme Galanti

Todos nós estamos vivos, isto é um fato inegável para qualquer um. Do mesmo modo, todos iremos morrer; este, por decorrência do primeiro, também é um fato inegável. Entre os extremos, temos o curto tempo de nossa vida, no qual podemos contemplar e experimentar o ato de estarmos vivos.

A experiência de viver é muito confusa para nossa mente, e a necessidade de morrer é mordaz pela sua inflexibilidade, levando a uma enxurrada de questionamentos sobre a existência e seu objetivo. Estes questionamentos, assim como possíveis respostas, são o coração pulsante de qualquer religião ou filosofia de vida.

Na busca de sentido na vida, assim como o objetivo ultimo de viver, criamos diversas divindades e mundos fabulosos, mas não tangíveis ao homem comum. Esses mundos só podem ser acessados por determinadas pessoas, chamadas de escolhidos, com objetivo de guiar os demais.

Sem dúvida é um caminho válido, como se provou por milhares de anos, mas causa certo inquietamento para os mais materialistas. Perguntas sobre a veracidade desses mundos não visíveis são abundantes, assim como a necessidade de provar a legitimidade do escolhido, o que acarreta céticos.

Foi no notável desamparo pelo divino que alguns filósofos gregos, ao verem o caos tomando conta de seu dia a dia, resolveram buscar a felicidade dentro de si em vez de no mundo. Assim nasceu o estoicismo, no século III AEC (Antes da Era Comum), fundado por Zenão de Cítio.

O estoicismo tem como base a lógica, sendo a calma estoica alcançada por meio desta. Quando racionalizamos as emoções destrutivas, vemos que elas se estabelecem em bases ilógicas. O treinamento correto da aplicação da lógica em nossos processos mentais nos permitirá a felicidade genuína e estável.

Podemos notar que isto é uma verdade em nosso cotidiano: quando uma pessoa anda devagar em nossa frente, sentimos raiva; quando temos que fazer uma prova, sentimos ansiedade. Note que em ambos os exemplos não existe um motivo real de tais sentimentos, pois se alguém andar devagar, posso muito bem esperar alguns segundos a mais para chegar ao meu destino, ou posso alterar minha rota para ultrapassar a pessoa; se tenho que realizar uma prova, ficar preocupado não vai deixá-la mais fácil, mas estudar aumenta minhas chances de me sair melhor.

Observe que, nos exemplos anteriores, o caminho que leva à tranquilidade está em meu poder, cabendo a mim reagir ao estímulo externo de maneira sábia e tranquila. Este é um grande ensinamento estoico, presente no Encheirídion de Epicteto, resumido na frase: Cuide do que você pode controlar, não se preocupe com o que não pode controlar.

Geralmente, a parte de não se preocupar com o que não podemos controlar gera estranheza, pois estamos acostumados a pensar que controlamos as coisas. O significado deste trecho, de modo exemplificado e moldado em nosso cotidiano, é: não fique com raiva da chuva, ela continuará a cair de qualquer forma.

Com o auxílio da lógica, podemos tentar responder a perguntas fundamentais, tais como: Qual nosso motivo de existência? Existe algum sentido na vida? A resposta da primeira é simples, sendo o motivo de existência apenas existir. Isto decorre de que todos os outros motivos de existência, para acontecerem, requerem existir. A segunda pergunta possui uma resposta igualmente simples, sendo o sentido da vida as coisas que fazemos em nosso cotidiano, pois, se não for este, qual seria? Se o sentido da vida não for o rumo que tomo, ele será um motivo fantasioso.

As reflexões anteriores nos levam a outra lasca de sabedoria estoica: Eu estou fazendo exatamente o que tinha que estar fazendo; as coisas acontecem exatamente da forma como deveriam acontecer. Esta maneira de encarar a vida remete à crença dos estoicos no logos, que nada mais é do que a lógica por trás do universo, onde, desta forma, nada acontece por acaso. Ora, se estou vivendo a vida destinada a mim, que medos poderiam tirar minha tranquilidade?

Outro pensamento recorrente no estoicismo é o da morte. Diz-se que, na Roma antiga, existia uma pessoa paga para sussurrar “lembre-se de que você é pó” no ouvido dos imperadores, afastando, assim, a falsa sensação de superioridade para com os demais.

Refletir sobre a morte é uma boa maneira de agirmos de forma correta e virtuosa, como destacado no livro Meditações de Marco Aurélio: “Enquanto vives, enquanto é possível, sê virtuoso”. Pois, se todos retornaremos ao pó, e tudo o que possuímos é temporário, inexiste uma necessidade de sofrimento auto infligido. Se eu posso escolher entre ser virtuoso e viver bem, ou não ser virtuoso e viver mal, por qual motivo não iríamos querer viver bem? A reflexão sobre a morte expressa de forma clara o que é a calma estoica, pois, se uma doença mortal acomete um estoico, ele não se abala com a sentença de morte: ele iria morrer de qualquer forma mesmo, escolher como e quando não cabe a ele.

Praticar estes ensinamentos é uma tarefa árdua e contínua, mas os frutos são doces e abundantes. Com o tempo de prática, deixamos de focar nossa atenção aos infortúnios e tendemos a apreciar os momentos felizes de nossa vida, o que, sem dúvida, é o caminho para a felicidade genuína.

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Guilherme Galanti é estudante de física médica. Tem grande amor pelas artes, matemática e filosofia. Passa o tempo livre questionando a existência.

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