As inscrições délficas e as quatro virtudes (Discurso)

970px-Delphi_Temple_of_Apollo (1).jpg
Ruínas do templo de Apolo na cidade grega de Delfos (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Os parágrafos a seguir baseiam-se em um discurso que fiz como paraninfo de uma turma de formandos do Ensino Médio, no dia 6 de dezembro de 2018. Adaptei alguns trechos para a compreensão dos leitores do blog, assim como, na ocasião em que o proferi, tinha precisado abreviar certas coisas para não me estender. A maior parte das informações sobre as quatro inscrições que mais tinham destaque no templo de Apolo foi colhida do bom site de John Uebersax sobre o tema. Quanto à correlação entre esses preceitos e as virtudes cardeais (que os estoicos sistematizaram e em que tanto insistiram), creio que posso dizer que foi algo que me saiu em boa medida da cabeça. Já eu então tinha trabalhado com meus estudantes terceiranistas o assunto e desejava que minhas últimas palavras se assemelhassem a uma aula. Não sei se fiz bem.

O fato é que, depois das saudações iniciais, a coisa continuava do modo como se lê a seguir. 

 

Como foi meu hábito várias vezes em sala de aula, voltemos à Grécia. Mais especificamente à cidade de Delfos. Na Antiguidade, havia ali um oráculo famoso dedicado ao deus Apolo. Ele se baseava em uma fenda na rocha dura, da qual se desprendiam vapores vulcânicos. De acordo com certos mitos, esses gases proviriam de Píton, uma gigantesca serpente que fora abatida pelas flechas de Apolo e precipitada no centro da Terra, para a segurança de deuses e humanos.

Ao longo dos séculos, erigiu-se em Delfos um complexo de edificações sagradas, das quais a mais importante era o templo de Apolo. Ali, em uma sala muito reservada, uma sacerdotisa — chamada de pitonisa ou sibila — respirava esses gases das entranhas terrenas e era por eles inspirada: entrava em um tipo de transe e respondia às perguntas de consulentes de todo o mundo conhecido. Os gregos acreditavam que era o próprio Apolo quem se expressava por meio daquela senhora de certa idade e reputação sem manchas. As respostas da pitonisa eram sempre enigmáticas, desafiando a compreensão humana. Não foram poucos os gregos e não gregos que se enganaram com as sentenças de Apolo. O deus tinha a última palavra, a qual não raro apontava para uma realidade desagradável, trágica.

Com o tempo, pareceu útil à gente de Delfos transformar o templo de Apolo em um repositório de sabedoria, municiando aqueles que para lá se dirigiam com ensinamentos que os ajudassem a entender o que os deuses desejavam dos seres humanos. Obedecer e agradar às divindades era muito difícil: boa parte da literatura do povo helênico nada foi senão um debate em torno desse tópico. Para a mentalidade grega, o pecado mais grave em que um mortal poderia incorrer era denominado húbris (ὕϐρις), palavra que significava algo como “desmesura”, “falta de medida ou de limites”, “excesso de autoimportância”, “insolência”. Para que o devoto que ia consultar o oráculo refletisse sobre sua conduta e se mantivesse na linha, as paredes do templo foram então gravadas com preceitos atribuídos aos sete sábios da Grécia. Eram mais de 140 sentenças, todas muito breves, feitas para ser memorizadas. Incluíam recomendações sensatas como “seja imparcial”, “fale com franqueza”, “escute a todos”, “não dependa da força” e — talvez a mais bizarra e desafiadora de todas — “tenha a intenção de se casar”.

Três dessas inscrições, consideradas as mais importantes, foram postadas à entrada da morada de Apolo em Delfos, em caracteres bem visíveis. Além delas, parecia haver no frontão triangular da construção um imenso épsilon dourado (letra grega idêntica a nosso E maiúsculo). Irei comentar brevemente essas inscrições e de que modo elas podem nos ajudar a entender o mundo de hoje.

Começo pela mais famosa delas, que muitos de vocês decerto conhecem: gnōthi seautón (γνῶθι σεαυτόν). A tradução mais consagrada deste preceito é “conhece-te a ti mesmo”. Trata-se de um dito muitas vezes atribuído a Quílon de Esparta, embora haja quem conjecture que a frase fosse já usada nos templos do antigo Egito. Seja como for, é citada até mesmo em filmes mais ou menos recentes como Matrix, de 1999, sendo a inscrição que a personagem o Oráculo — uma velha senhora que fuma e prepara biscoitos o dia inteiro — tem sobre a porta da cozinha.

1095px-Roman-mosaic-know-thyself.jpg
Um memento mori em um mosaico do convento de San Gregorio (Roma), com a inscrição γνῶθι σαυτόν (fonte da foto)

O que os gregos do período arcaico queriam dizer com a recomendação “conhece-te a ti mesmo” era algo bem mais simples do que a expressão veio a ser: originalmente, conhecer-se a si mesmo significaria principalmente o sujeito entender que não era um deus, que tinha os seus limites como ser humano, que era mortal. Era uma frase que exortava à mesura, à contenção de si, à humildade. Posteriormente, com Sócrates, o sentido de gnōthi seautón expandiu-se de modo considerável: examinar-se a si próprio, perscrutar o seu interior para saber o que você veio fazer no mundo, ser de uma honestidade radical consigo mesmo. No fim da Antiguidade, Agostinho de Hipona, bispo da Igreja em expansão, adotou esse princípio em chave cristã: surgiu aí a prática do exame de consciência do fiel que deseja conversar com Deus.

Mas estou falando com jovens do século XXI. Em que medida o autoconhecimento preconizado pela inscrição délfica pode ser-lhes de algum proveito? Aqui, farei a defesa de algo considerado um mal absoluto: em algum nível, a solidão é importante. (Na verdade, hoje em dia se tem proposto que o termo mais correto para o que quero dizer seria solitude.) Ficar sozinho um pouco com você mesmo, pensando na vida, contemplando o infinito, olhando as estrelas em silêncio, repassando suas memórias, escutando suas vozes interiores, tudo isso são experiências que têm valor. Você nunca saberá quais as suas potencialidades e quais as suas fraquezas se não olhar para dentro de si. Você nunca vencerá suas angústias se não procurar as respostas em si mesmo. E, sim, o excesso de conectividade propiciado pelas novas tecnologias está matando a introspecção em nosso mundo. Está mesmo ameaçando de morte qualquer possibilidade de vida interior razoavelmente saudável. Temos de lutar contra essas coisas, sob pena de nos perdermos. 

O preceito “conhece-te a ti mesmo” também tem relação estreita, a meu ver, com uma das virtudes cardeais: a justiça. Ninguém pode ser justo com outra pessoa sem, primeiramente e acima de tudo, ter aprendido a ser justo consigo mesmo. Só conseguimos entender o ponto de vista de nosso semelhante se tivermos clareza quanto ao que pensamos — e soubermos por que pensamos isso. Conhecer a si próprio é abrir-se para o conhecimento dos outros — e para o respeito a perspectivas diferentes.

A segunda inscrição não impregnou o pensamento ocidental de maneira tão rica, mas é ainda assim um conselho sábio, a que deveríamos prestar mais atenção: mēdén ágan (μηδὲν ἄγαν), “nada em excesso”. Dito atribuído ao célebre legislador ateniense Sólon, é uma das consequências lógicas do autoconhecimento: se sei quem eu sou e o que vim fazer neste mundo, se entendo que sou mortal e um indivíduo entre os mais de 7 bilhões de terráqueos, é absurdo supor que possa fazer uso das coisas do planeta como se só eu existisse. Não faz sentido comer demais, beber demais, trabalhar demais, divertir-me demais, fazer exercícios demais, ocupar-me demais da política e mesmo pensar demais. Também a língua tem de ser posta sob rédeas curtas. Tudo tem a sua mesura, a sua medida — e devemos fugir às quantidades fora das proporções humanas. A virtude cardeal a que o preceito se refere é a da temperança ou moderação.

Os gregos antigos tinham mitos que contavam como alguns mortais, tomados de um espírito de desmesura e desrespeito aos limites dados pela natureza (a húbris), acabaram colhendo os efeitos desastrosos de suas iniciativas. Tal foi o caso de Ícaro, que tentou chegar ao Sol com asas de cera. Não faltariam exemplos, em nossa época, de húbris moderna, de ausência de temperança ou moderação. Eu somente gostaria de ressaltar que, de acordo com a sabedoria dos gregos e de muitos outros povos, o desrespeito aos limites tem inevitavelmente consequências terríveis. Elas podem tardar, mas chegam.

Nenhum de nós tem de ser um Sólon para entender que nosso padrão de consumo é totalmente irrazoável. E insustentável a longo prazo. O que é problemático é que construímos sociedades que se baseiam na acumulação indefinida de bens — como se a Terra fosse infinita. O bom cidadão contemporâneo é um consumista: ele sustenta a atividade econômica comprando, comprando sem parar muitas coisas de que não necessita. E descartando, como inúteis, outras tantas. Será que de fato precisamos de tantos dispositivos eletrônicos, de tantas peças de roupa, de tantas identidades digitais e mesmo de tantos livros? Nossos antepassados viveram com muito menos. É uma questão que deixo a cada um de vocês.

A terceira inscrição tem algo de enigma e foi interpretada de maneiras variadas ao longo do tempo. Trata-se de engúa pára d’átē (ἐγγύα πάρα δ᾽ἄτη): quase uma charada. Literalmente poderia ser traduzida como “uma caução, depois a ruína” ou “fia, e depois a ruína”. Seu autor suposto foi Tales de Mileto, que nossos estudantes conhecem da geometria, mas que foi, além do mais, um sábio. Em um primeiro sentido, mais concreto e comezinho, o que esse preceito délfico parece nos dizer é que, quando entramos de fiadores de uma pessoa ou damos garantias em nome de outrem, a ruína não demora a chegar. Pois é, desde o século VI a.C. ser fiador de alguém pode ser uma grande roubada. Uma correspondência bíblica interessante está no livro dos Provérbios, 11: 15: “Decerto sofrerá severamente aquele que fica por fiador do estranho, mas o que evita a fiança estará seguro”. Terá sido Tales um dos primeiros analistas de risco da história?

Vendo as coisas mais de perto, notamos que o substantivo átē ou áta (ἄτη ou ἄτα) era usado em circunstâncias bastante sérias: como um flagelo dos deuses, uma grande calamidade. O que se abateu sobre Troia, por exemplo, que foi completamente destruída por seus inimigos, foi uma átē. A deusa grega da ruína e dos acontecimentos funestos chamava-se, por isso, Ate. Mas por que um professor está falando de calamidade e ruína justo agora? Que espécie de pirado menciona isso em uma cerimônia de formatura?

Bem, talvez não seja piração minha. O fato é que queremos evitar essas coisas, queremos estar ao abrigo das infelicidades. Isso nem sempre é possível, claro, mas podemos minorar as chances de que algo mau nos aconteça. E é aqui que entra a frase enigmática de Tales, mas em sentido mais largo: não devemos nos fiar naqueles e naquilo que não conhecemos, temos de antecipar os riscos envolvidos em uma ação, devemos tomar cuidado com as falsas certezas, temos de escolher nossos amigos. Há um uso inteligente da dúvida e da sensação de perigo e de conveniência que caracteriza uma das virtudes cardeais, a prudência ou sabedoria prática. É algo que costuma vir com a experiência de vida: quando e somente quando nos dispomos a aprender com a vida.

Ilustrando as inscrições délficas, falamos da justiça, da temperança e da prudência. São três virtudes cardeais. Está faltando uma. Qual é? A coragem. Então, de algum modo, o par coragem-fortaleza, que mais ou menos traduz o termo grego andreía (ἀνδρεία), deverá estar expresso naquele gigantesco épsilon que encimava o templo do oráculo de Apolo. Épsilon é a quinta letra do alfabeto grego e também representava o número cinco. Aquele épsilon de ouro era tão antigo que seu sentido, segundo alguns autores, perdia-se na noite dos tempos. O que apresento aqui é, portanto, uma conjectura. Ela está livremente baseada em certas informações trazidas pelo historiador romano de língua grega Lúcio Méstrio Plutarco. 

Plutarco, que foi sacerdote de Apolo, diz que a pronúncia correta da misteriosa letra era um ditongo, “EI” (épsilon + iota), que coincide com a forma do indicativo presente, segunda pessoa do singular, do verbo eimí (εἰμί: “ser” ou “existir”). Portanto, quereria dizer “és”/”existes”, “tu és”/”tu existes” — ou ainda “você é”/”você existe”. Em uma de suas obras, Plutarco tratou do tema, especulando que esse “tu és” seria uma saudação que os devotos estariam obrigados a fazer ao deus do oráculo quando adentravam o Templo: “tu és, Apolo”. Com efeito, em outra tradição, a hebraica, temos o deus bíblico respondendo, por meio da sarça ardente, a Moisés: “eu sou o que sou”. E isto é tudo o que eu digo sobre teologia comparada.

Uma possibilidade mais interessante para o “tu és” de Delfos é aquela que, sem deixar de lado a afirmação da existência absoluta do deus, dirige-se ao que entra no templo. De fato, todas as inscrições se voltam para os seres humanos; o épsilon dourado devia também estar endereçado a cada um de nós: tu és, tu existes. Você é, você existe: de maneira não absoluta, no tempo e no espaço, mas existe. E, se minha interpretação não for aberrante, ao afirmar a existência de cada ser humano, a sabedoria inscrita no templo de Apolo nos chama a atenção para o fato de que temos responsabilidades. Não somos deuses, mas somos alguma coisa. E essa “alguma coisa” é preciosa.

E aqui entra a questão da virtude cardeal da coragem ou fortaleza. Você é. Cada um de vocês é, existe. Por isso, você deve ter coragem de ser aquilo que verdadeiramente é. Deve ter coragem de lutar pelo que acha certo, coragem de amar, coragem de escutar, coragem de divergir, coragem de perdoar. E deve ser forte para manter-se firme sob os golpes que a vida dá. Você é alguma coisa. Não um deus, nem tampouco Deus com maiúscula — mas, ainda assim, alguma coisa. E em cada um de nós, em cada um de nós sendo o que é, vive também uma centelha da divindade, uma parcela do todo. Há no interior de cada um de nós um princípio superior: podemos dar-lhe o nome de Deus, lógos, brahman ou dao. Tenhamos a coragem de ser, de ser esse princípio, de nos reconhecermos nele.

E termino com alguns versos do grande escritor norte-americano Ralph Waldo Emerson, extraídos do poema “Gnothi seauton”:

Se tu podes suportar

um duro bocado de verdade simples,

se tu ousas as minhas palavras comparar

ao que suspeitas na juventude livre de minha alma,

então toma este fato para a tua:

Deus habita em ti.

Não é metáfora nem parábola,

é coisa desconhecida para milhares e para ti;

ainda assim, existe Deus.

 

Esta é a razão pela qual reconheces

estas coisas ora reveladas, pela primeira vez,

porque em ti reside

o Espírito, em todos vivente;

e podes aprender as leis da natureza

porque o autor delas está latente no teu peito.

 

Devo pedir riqueza ou poder a Deus, que deu

uma imagem de si mesmo para ser minha alma?

Assim como o mar revolto pode pedir uma onda,

ou o firmamento estrelado uma brasa que se esvai,

pois aquilo que está em mim vive no todo.

 

Muito obrigado pela atenção e sobretudo pela paciência. Tenham uma vida da qual possam se orgulhar.

___________________

Donato Ferrara é professor e administrador escolar.

Um comentário sobre “As inscrições délficas e as quatro virtudes (Discurso)

Deixe uma resposta para Aldo Dinucci Cancelar resposta

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s