AZAR, um poema

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Cartas do tarô de Rider-Waite-Smith, com destaque para a Roda da Fortuna (fonte da foto)

Por Donato Ferrara

Eis um poema livremente inspirado em certas ideias estoicas.

Espero que os versos divirtam os leitores deste blog. Para mim, compô-los foi prazeroso como a montagem de um quebra-cabeça. Contudo, se vocês não gostarem deles ou lhes faltar a paciência de atravessá-los, não haverá melindre da parte deste que lhes escreve.

Nesse caso e aliás, terá sido um azar meu. Quem me mandou correr tais riscos?

AZAR

em torno da voragem
sem atulhá-la
nem fugir
S. Mallarmé

Azar se falta vista
Às coisas que nos fogem,
E se nos restam sombras
Incertas, que ressurgem
A cada triste engano
De nossas consciências,
Que nada mais divisam
Além das formas turvas
Do medo, que nos tenta,
Com olhos de Medusa,
Tomar todos os gestos
De tal paralisia,
Que mesmo a face avessa
Dos mortos de Pompeia
Seria surpreendida
Por nossas mãos cinzentas,
Imóveis, implorando
Às vastidões silentes
Sinal de divindade,
Moeda que nos pague
As horas sem sentido,
Clamor que em nós dissipe
Angústias, pesadelos,
Na morna luz do dia,
Que já desconhecemos.

Azar, que a vida é guerra
E exílio em terra estranha:
Por veleidades tortas,
Por fumear de glória,
Nos areais de Troia
Os homens se entrematam,
Se medem pelo fogo,
Se imolam para os deuses,
Não poupam os que tombam
De avidezes torpes,
E quando, em pleno Hades,
No espelho frio do Letes,
Só miram vagas sombras,
Invejam ao ser vivo
O sopro que o sustenta —
E a imortalidade,
Que até ao rei de Ítaca,
Sustando, pesaroso,
O passo em meio à relva
Da ilha de Calipso,
Menor lhe pareceu
Que os braços de Penélope:
Pois não se talha o homem
Pra morte ou para a vida,
Senão em movimento.

“Azar” não será nome
Equívoco que damos
Ao rosto mais funesto
Da velha fiandeira,
Que desde a eternidade
Nos colhe entre meadas
De possibilidades
Jamais concretizadas,
E lavra, indiferente,
As ditas e as desditas,
Tecendo trama espessa
De causas e efeitos,
Que ainda desafiam
As mentes confundidas
De tolos e de sábios,
Pois nossa vã ciência
Não sabe deslindar
As leis que não se alteram,
Em filigrana ocultas:
O acaso não será,
Por mau que nos pareça,
Acaso um dos disfarces,
Esplêndidos, discordes,
Da ordem que nos rege
Em proporções perfeitas?

Azar tem o que vive
Sem ter sentido o peso
Do tédio, em pés de grifo,
Pousado sobre os ombros,
Que o mundo não suportam
(Que tal não nos é dado),
Mas ínfimo existir;
Sem ter jamais lançado
Ao túmulo uma rosa,
Palavra nunca dita;
Ao âmago um desejo,
Por gasto e inconfesso;
Aos porcos tantas pérolas
A saciar sultões:
Azar, eu digo, azar!
De si jamais provando
Da fonte do infortúnio,
Não sabe o ser humano
A força que se esconde
Numa alma, em pé disposta:
Que na felicidade
Não vê falta de males,
Mas pôr-se para fora
Dos dados ou dos dardos
Jogados pela sorte.

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Donato Ferrara é professor e administrador escolar.

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