Vergonha e culpa no estoicismo

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A vergonha e a culpa são desafios a qualquer vida guiada por exigências éticas (fonte da foto)

Por João Leite Ribeiro

“Amarga é a punição nascida da vergonha” — Sêneca.

Como lidar com grandes vergonhas ou grandes culpas?

Entendo que a vergonha seja nossa culpa vista pelos outros, e a culpa é aquela que é vista por nós mesmos.

“Quem peca, contra si peca” — Marco Aurélio.

Ou seja, ter a consciência tranquila é importante, não apenas escapar dos maus julgamentos dos outros. Já me disseram que na Grécia havia mais vergonha do que culpa, mas acredito que a responsabilidade era fundamental no estoicismo, e portanto o sentimento de culpa. Acredito que ambos os sentimentos eram difíceis.

“São encargos nossos o juízo, o impulso, o desejo, a repulsa”, como diz Epicteto. E se cometemos falhas graves? Se não cumprimos com o que era encargo nosso?

Vamos supor uma pessoa que tenha torturado outra. Ela não teve autocontrole, não controlou seus impulsos e a sua repulsa de modo algum. Essa pessoa chegou a extremos de ação contrária ao estoicismo.

Quando Epicteto fala sobre nossos encargos, ele espera que nós os cumpramos, e portanto que nos sintamos mal por os não cumprir. Isso serve para o nosso dia a dia. Imagine para uma pessoa que tenha torturado outra! Acredito que o estoicismo peça que essa pessoa se sinta mal.

Sabemos da noção de humanidade dos estoicos, da noção de sermos solidários. E, no caso dessa pessoa que torturou, vamos supor que estude o estoicismo. Encontrará inúmeras referências à solidariedade. Por exemplo: “aquilo que não é útil ao enxame, não é útil à abelha” em Marco Aurélio. Essa pessoa, se quiser seguir realmente o estoicismo, vai começar a ter uma grande dificuldade; ela vai sentir culpa, ou se preferir, vergonha de si mesma.

Acredito que surgirá um paradoxo na vida dessa pessoa. O estoicismo deveria lhe trazer paz, mas o sentimento de culpa não a deixará em paz.

Como os antigos estoicos responderiam a esse paradoxo? Não sei. Mas especulo que apontariam um erro no meu texto. Uma pessoa que tortura não estudaria estoicismo.

Eu nunca torturei ninguém. Mas cometi na vida muitas coisas das quais me arrependo. Como lidar com isso?

Há uns trinta anos tentei o suicídio. Eu tinha dezenove anos. E meus irmãos eram bem mais jovens do que eu. Nosso relacionamento era muito próximo, eles eram tudo pra mim, eu era tudo pra eles. Pra mim, é difícil até imaginar como foi pra eles saber o que tinha acontecido.

“Enquanto vives, enquanto podes, torna-te um bom”, diz Marco Aurélio. Sim, é a melhor resposta. Deus tem caminhos que o homem desconhece. Quis o destino que eu chegasse a esse extremo. Mas talvez tenha sido para que hoje eu fosse uma pessoa melhor.

Amor fati é um conceito que a maioria dos que estudam estoicismo conhece. Acredito que ele valha também para quem tem culpa. Lide com isso, e aprecie a chance que isso lhe deu de ser melhor hoje.

No Cristianismo existe a confissão. Se você rezar, seus pecados estão perdoados. Não sigo isso, não creio que seja uma boa política. A política de hoje ser bom é melhor.

Mas creio que não se pode negar a dificuldade de lidarmos com nossas culpas. Enquanto conseguimos diminuir nossa ansiedade, nosso lamento, nossa preocupação, o estoicismo vai muito bem, cada dia melhor. Mas quando surge a culpa é um desafio mais complexo. Tenho um amigo cujo filho se suicidou. É inevitável ele repassar a vida e achar que errou aqui e ali. O que posso dizer para ele?

Pensei sobre o assunto. Ele fez o que pôde, o que era encargo dele, então não deveria se lamentar tanto. Mas não tive coragem de dizer isso para ele. Na verdade, não encontrei palavras nem no estoicismo, nem em outros pensamentos, que eu pudesse lhe dizer. Cheguei à conclusão de que dizer “lamento, não tenho palavras” era o melhor.

O leitor percebe aonde quero chegar? A culpa é complicada para todos, inclusive para o estoico.

Ela vai perturbar. Ao ponto de que, se você foi realmente mau, isso será um impeditivo para que você se torne um estoico. É o que penso.

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João Leite Ribeiro conviveu com delírios sua vida adulta inteira, sendo mesmo diagnosticado com esquizofrenia. Aprendeu a superá-los por meio do estudo de alguns filósofos. Hoje é um homem feliz. É autor do livro Memórias de um estoico, que breve estará nas livrarias.

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