O Estoicismo é a língua universal

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Reproduzido com a permissão do autor (texto original).

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O Estoicismo foi provavelmente a primeira corrente filosófica que reconheceu a igualdade entre todas as pessoas (fonte da foto)

Por Paula Trindade e Kai Whiting

O Estoicismo foi provavelmente a primeira corrente filosófica que reconheceu a igualdade entre todas as pessoas. Para os antigos estoicos, o caminho para a felicidade estaria aberto a todos, pelo simples facto de se ser um humano. Não dependia do género, da origem ou da cidadania. Mais ainda, os estoicos defenderam que qualquer pessoa poderia aceder ao bem-estar, inclusivamente se não possuísse saúde, riqueza ou um elevado nível de educação. Estas teorias ainda formam a base do conceito estoico de cosmopolitismo, assim como o da construção dos “círculos de preocupação”, concebidos pelo filósofo Hiérocles. O círculo interior representa o “eu”, ou seja, a si próprio. Os seguintes as ligações mais próximas, como a “família” e os “amigos”. Depois, chegamos aos círculos mais afastados, até atingirmos toda a humanidade. O que se pretende é uma reflexão sobre cada círculo até que se converta no primeiro, de que cada um faz parte. Ao fazê-lo, damos espaço para reconhecer toda a humanidade em nós próprios e a nós mesmos na humanidade inteira. Ao atuarmos desta forma, as diferenças entre as pessoas desaparecem, ao mesmo tempo que ganham força as características que temos em comum.

No século XXI vemo-nos perante um paradoxo. Estamos ligados a pessoas que fisicamente se encontram cada vez mais distantes de nós, mas, por outro lado, votamos em políticos que espalham uma mensagem de separatismo (seja regional ou nacional). E enquanto agimos desta forma, a internet vai troçando das barreiras geográficas e geopolíticas. Através dela podemos verificar que, embora não falemos a mesma língua ou sigamos a mesma religião, em temas que tocam o comércio ou os movimentos sociais, como o #metoo (#eutambem), partilhamos tanto as crises económicas como as revoluções culturais. Ou seja, apesar da retórica divisionista de Trump e Bolsonaro, somos capazes de chegar ao cerne do ser humano. Segundo os estoicos, esta essência é o raciocínio e o desejo de nos sentirmos bem. Como evoluímos (ou fomos criados) como animais sociais, sentimo-nos bem quando formamos parte de grupos e cuidamos dos outros membros da comunidade, esperando que, quando nos tornemos velhos ou fiquemos doentes, outros, por sua vez, cuidem de nós. Esta verdade muito humana reflete os princípios do Estoicismo, os quais reconhecem que a expressão mais elevada de se cuidar a si mesmo é atingida quando cuidamos dos demais.

Falar diferentes línguas é uma das maiores diferenças que existem entre o ser humano e o resto dos animais sociais. De facto, a capacidade de falar e construir uma linguagem é uma caraterística própria do ser humano. As línguas dão-nos a possibilidade de expressar os nossos sentimentos mais profundos. Da mesma maneira, as palavras que proferimos têm o poder de iniciar e terminar uma guerra, de proclamar ódio ou declarar amor.

Além disso, as línguas que falamos não só ditam a maneira como nos expressamos, como também a nossa forma de pensar. Esta observação é a base do conceito conhecido como relativismo linguístico ou hipótese de Sapir-Whorf. Ao não existir um consenso sobre os detalhes, a hipótese postula que a estrutura linguística afeta tanto a (nossa) percepção como a cognição do mundo. Ou seja, que as pessoas vivem em universos mentais criados e necessariamente limitados, ou pelo menos influenciados, pela língua que falam.

Um exemplo frequentemente utilizado para explicar o efeito desta realidade é o facto de que os falantes hispânicos não identificam com facilidade quem praticou uma determinada ação — por exemplo, quem parte um vaso, porque o verbo “romper” (“partir”) é reflexo. Pelo contrário, os ingleses não têm nenhum problema em contar quem foi, sentindo mesmo uma grande necessidade de o saber.

Para os estoicos modernos, esta informação é da máxima importância, uma vez que demonstra que a capacidade que temos de falar outra língua, além da materna, não só nos ajudará a comunicar melhor com a comunidade que fala o idioma “X”, como também nos abrirá a mente e alinhará os nossos pensamentos com os das outras pessoas. Consequentemente, compreenderemos a realidade desde outras perspetivas para além da nossa experiência.

Em resumo, esforçar-se na aprendizagem duma língua é um ato real de vivência do cosmopolitismo e de como atingir os círculos mais afastados de si próprio. Por esta razão, sentimos que os princípios do Estoicismo nos impelem a falar e a escrever sobre essa linha filosófica em mais línguas do que a inglesa. Ou não queremos que as pessoas não anglófonas tenham a possibilidade de pensar e de formar as suas próprias ideias baseadas no Estoicismo, de maneira a combater para vencer os desafios do século XXI? Afinal de contas, as mentes que geram os problemas podem não ser necessariamente as mais capacitadas para os resolver.

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Paula Trindade é professora de línguas.

Kai Whiting é consultor, pesquisador e professor na área de política e filosofia ambiental, economia ecológica e desenvolvimento sustentável. Doutorou-se pelo Instituto Superior Técnico, da Universidade de Lisboa, onde atua profissionalmente. Uma de suas linhas de pesquisa intitula-se “estoicismo e sustentabilidade” e parte de seu trabalho pode ser apreciado no site “Stoic Kai“(majoritariamente em inglês).

Publicado originalmente em 29/10/2018 em “Stoic Kai”.

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