O que fazer diante daquele que tem opiniões com as quais não concordamos? Algumas considerações epictetianas

O que fazer diante daquele que tem opiniões com as quais não concordamos? Algumas considerações epictetianas

Aldo Dinucci

Numa época como a nossa na qual pessoas ligadas a diferentes e opostas vertentes políticas publicamente praticam violência e estão sendo efetivamente intolerantes, é bom nos lembrarmos das palavras e das ações dos estoicos, entre eles, Musônio Rufo, o Sócrates romano, que tentou, em 69 de nossa era, deter os soldados que marchavam sobre Roma, comandados por Marco Antônio Prius, general de Vespasiano, falando a eles sobre os benefícios da paz:

Musônio uniu-se às tropas, e, amplificando as bênçãos da paz e os perigos da guerra, começou a admoestar a multidão armada. Muitos o acharam ridículo; outros, cansativo; outros estavam prontos para atirá-lo ao chão e pisoteá-lo caso ele não tivesse ouvido os avisos dos mais comportados e as ameaças dos outros e cessado de exibir sua extemporânea sabedoria.  (TÁCITO, Histórias, iii, 81)

De fato, ultimamente tenho ouvido muitas vezes raciocínios como o seguinte: ‘Fulano tem a seguinte opinião (sobre política, ética etc.), então Fulano não é humano’. Estará isso certo? Efetivamente, dar assentimento a uma opinião errada retira de alguma pessoa humana sua própria humanidade?

Em primeiro lugar, é bom lembrar que raciocínios como o visto acima podem ser lidos como um sofisma. ‘Desumano’ pode ser entendido em dois sentidos: ‘como algo não-humano’ (um cão, por exemplo) ou como um atributo de um ser humano que crê em valores que são por assim dizer ‘desumanos’, como valores de supremacia racial, sexistas etc., que são ‘desumanos’ porque retiram o valor de parte da humanidade, não sendo, portanto, humanistas, já que quem os acalenta não assente à tese segundo a qual todos os humanos perfazem uma comunidade e uma irmandade.

Nesse sentido, obviamente, a pessoa que crê em valores desumanos (‘desumanistas’) se desumaniza. No entanto, e essa é a parte aparentemente difícil para muitos de nós, ainda assim continua sendo um ser humano como qualquer um ou uma de nós e, consequentemente, merecedor de tratamento humano e respeito.

Isso aparentemente é óbvio, mas infelizmente, para boa parte da humanidade, não é. Muitos massacres têm sido perpetrados em nome da tese de que certos atos ou crenças ou origens desumanizam as pessoas no sentido literal. E isso serve de fundamento para que sejam assassinados do modo mais terrível possível. Para não invocar exemplos recentes, basta nos lembrar das mulheres acusadas de bruxaria, que eram queimadas vivas por ‘praticarem atos demoníacos’, dos judeus chacinados pelos nazistas, que não os consideravam humanos por sua origem e, em suma, todos os milhões de pessoas perseguidas, segregadas, encarceradas e assassinadas por suas opiniões e crenças.

Mas, então, cabe perguntar: que atitude devemos ter em relação a uma pessoa que nos parece assentir a uma opinião desumana?

Refletirei aqui a partir do pensamento humanista do estoico Epicteto de Hierápolis. Para isso, vejamos o que para ele é uma opinião, e qual sua relação com o ser humano.

Para Epicteto, a própria causa do agir é a opinião[1] (Diatribes 3.9.3.1). Opiniões boas ou corretas são guias adequados para a ação. Em Diatribes 2.19.10, por exemplo, Epicteto afirma que nos beneficiamos com a leitura de um texto filosófico adquirindo dele boas opiniões que possam nos guiar.

As opiniões estão, em Epicteto, estreitamente relacionadas à capacidade humana de escolha (prohairesis). Em Diatribes 1.29.3.2, Epicteto diz: ‘pois as opiniões sobre as coisas que escolhemos, se são corretas, tornam a escolha boa, mas opiniões perversas e distorcidas tornam a escolha má’. Em Diatribes 1.17.27.1, Epicteto nos diz que a capacidade de escolha não pode ser constrangida por nada senão por si mesma – quer dizer: pela opinião que ela abraça[2]. De fato, é possível obrigar alguém a dizer que concorda com certa opinião, mas é impossível, mesmo através da pior tortura, obrigá-la a concordar interiormente com uma opinião. Pense em alguém sendo ameaçado a concordar que um triângulo tem dois lados apenas, ele pode concordar apenas externamente, já que é impossível mesmo conceber a coisa triangular de dois lados. Similarmente o mesmo vale para qualquer outra opinião: se achamos que A é B, só podemos realmente mudar de opinião se formos convencidos disso, nenhuma tortura ou ameaça pode genuinamente nos fazer mudar internamente de opinião.

Por essa razão, para Epicteto, somos essencialmente capacidade escolha (prohairesis)[3], e essa capacidade de escolha é boa apenas quando abraça boas opiniões. De fato, em Diatribes 4.7.14.4, Epicteto nos diz que nossas opiniões são as nossas únicas posses reais, que carregamos para onde quer que vamos, e que ninguém pode nos tirar.[4]

Ora, se a capacidade de escolha é o que nos caracteriza enquanto pessoas humanas, e se a qualidade dessa capacidade de escolha é determinada pelas opiniões que ela abraça, e se, por fim, essa capacidade não pode ser determinada externamente (como as crianças sempre repetem: ‘ninguém manda na minha vontade’) pela violência ou outro meio de coação, resta-nos a via da persuasão. Sobre isso reflete Epicteto:

Qual é a razão de se dar assentimento a algo? Parecer que é o caso. Com efeito, não é possível dar assentimento ao que não parece ser o caso. Porque esta é a própria natureza do pensamento: inclinar-se para as coisas verdadeiras, estar descontente com as coisas falsas, suspender o juízo em relação às coisas incertas. […] Quando, portanto, alguém dá assentimento ao que é falso, sabe tu que ele não desejou [Epicteto, Diatribes 1.28.1.]

O texto de Epicteto parte da noção estoica de assentimento (synkatathesis). O assentimento é o ato que a mente humana realiza ao admitir como verdadeira uma opinião. Por exemplo, alguém vestido de gorila assusta um menino que passa pela rua. Se esse menino achar que é realmente um gorila e, consequentemente, tomar por verdadeira a aparência ou representação que tem diante de si, se assustará e fugirá. E fará isso por considerar que essa é a linha de ação a se tomar quando se tem diante de si um animal feroz. Porém, se o menino compreender que se trata de um homem como uma fantasia de gorila, não se assustará, mas rirá. Assim, a atitude do menino será determinada por sua opinião em relação àquilo que percebe diante de si e não o contrário. Dessa forma, ninguém errará ou agirá equivocadamente por querer, mas por considerar equivocadamente ser tal curso de ação o melhor. Epicteto aqui é absolutamente socrático, pois, para Sócrates, todos os humanos buscam a felicidade e, portanto, quando erram e se afastam dela, o fazem involuntariamente. Esse texto de Epicteto nos é mais precioso ainda porque a seguir ele toca num caso extremo, no de Medeia, que, segunda reza o mito, assassinou seus dois filhos para se vingar do marido que abandonara e traíra:

Como aquela que diz: ‘Agora entendo que estou a ponto de executar tais atos criminosos. É a cólera o que há de mais forte entre meus desejos?[5]‘. Por isso mesmo ela pensa que agradar à cólera e punir o homem é mais vantajoso que conservar os filhos sãos e salvos. ‘Sim, mas ela enganou-se por completo’. Mostra a ela, de modo claro, que se enganou por completo e ela não realizará o ato; <porém>, na medida em que não o demonstres, pelo que ela deixar-se-á conduzir senão pela aparência[6]? (9) […] Por que, portanto, és hostil com ela? Porque a infeliz se enganou a respeito das melhores coisas e tornou-se de ser humano em víbora? [Epicteto, Diatribes 1.28.7-9 ].

Assim, Epicteto aplica a teoria estoica ao caso da personagem Medeia: seguindo os conceitos da Filosofia do Pórtico, Medeia teria agido em nome de emoções e opiniões enganosas: ela assassinara os próprios filhos por considerar que vingar-se do marido que a abandonara era a melhor coisa a ser feita. Epicteto, também através dessa mesma reflexão, conclui que não se deve odiá-la nem hostilizá-la em razão de seu ato: sua atitude não revela maldade, mas tão somente ignorância. Efetivamente, cada qual fará inexoravelmente o que lhe parecer ser o melhor. A questão é que isto que parece o melhor muitas vezes não o é realmente.

Resumindo essas reflexões, temos que, para Epicteto, um ato ou uma crença não é capaz de retirar em sentido literal a humanidade de um ser humano. A desumanização (o ‘tornar-se víbora’ de Medeia que se deu por assassinar seus próprios filhos por vingança) se dá no sentido moral, não real. O pior dos criminosos, por isso, ainda assim é, primariamente, um ser humano, e humanamente deve ser tratado. E a única via aberta que temos para tentar fazê-lo mudar de opinião e, por assim dizer, reformá-lo, é através da persuasão, do diálogo. Fora disso, se usamos a violência, o constrangimento e a brutalidade contra outro ser humano, nada faremos senão nos desumanizar e nos igualar aos que acusamos de desumanidade.

(Foto em destaque: Hylas and the Nymphs, de JW Waterhouse )

[1] Traduzimos por ‘opinião’ o termo grego dogma, que, em Epicteto, se aplica a qualquer crença assentida pela razão, seja boa ou má, filosófica ou não. Para mais informações sobre este conceito, vejam meu artigo ‘Phantasia, phainomenon e dogma em Epicteto’, disponível na web.

[2] Cf. Diatribes 1.29.12.1.

[3] Cf. Diatribes 3.1.40-43, 3.18.1-3, 4.5.12.

[4] Cf. Diatribes 4.7.35.4. Essa é a razão pela qual a obra do filósofo é, antes de tudo, inspecionar (episkopeo) e escrutinar (exetazo) dogmata (cf. Diatribes 1.11.38.4, 2.1.32.3, 2.21.15.3, 3.1.43.1, 3.2.13.1, 3.5.42, 3.9.6.6, 3.9.8.1, 4.1.112.3, 4.1.137, 4.11.8.2). Além disso, bons dogmata devem ser exercitados (cf. Diss. 4.1.140.1, 4.6.14.2, fragmento 16).

[5] Fala de Medeia na Medeia de Eurípedes (versos 1078-79).

[6] Isto é: Senão pelo que lhe parece ser a verdade.

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