Lúcio Aneu Sêneca: Carta a Lucílio IX – Sobre Filosofia e Amizade (trad. A. Dinucci)

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O sábio se basta, dizia Sêneca, mas não é por isso que ele não vê proveito na amizade (fonte da foto)

Lúcio Aneu Sêneca: Carta a Lucílio IX Sobre Filosofia e Amizade

(Tradução: Aldo Dinucci)

Sêneca saúda seu amigo Lucílio

(1) Desejas saber se Epicuro repreende com razão os que dizem o sábio bastar-se a si mesmo e, por causa disto, não ter necessidade de amigo. Isto é objetado por Epicuro a Estilpo e àqueles pelos quais o sumo bem é visto como espírito impassível[1] (impatiens). (2) É necessário incidir em ambiguidade se quisermos exprimir apátheia por uma única palavra e dizer “impassibilidade”. Poder-se-ia compreender o contrário do que queremos significar. Nós[2] queremos dizer, por apátheia, o que afaste todo sentido de mal[3]. Mas compreende-se apátheia como o que não consegue suportar mal algum[4]. Veja então se é melhor dizer ou “espírito invulnerável” (3) ou “espírito posto além de todo sofrimento”. Isto está entre nós e aqueles[5]: nosso sábio vence certamente todas as vicissitudes, mas as sente; o sábio daqueles nem sequer as sente. Isto para nós e para eles está em comum: o sábio bastar-se-á si mesmo. Todavia, também deseja ter amigo, vizinho e companheiro, ainda que baste a si mesmo.

(4) Veja o quanto <o sábio> basta a si mesmo: algumas vezes está satisfeito com parte de si. Se ou doença ou inimigo tenha-lhe privado da mão, se o acaso tenha-lhe arrancado algum olho ou os olhos, suas partes que restam lhe bastarão e será tão contente num corpo diminuto e amputado quanto foi num íntegro. Mas, mesmo se estas partes (5) se percam, não deseja perdê-las, prefere não perdê-las. Deste modo, o sábio se basta, não para que deseje estar sem amigos, mas para que possa estar sem amigos.

E este “possa” que digo é tal: com espírito equânime suporta a perda do amigo. Sem amigo, na verdade, nunca estará. Sabe como rapidamente reparar <a perda>. Do mesmo modo que, se Fídias[6] perdeu uma estátua, logo faz outra, assim este artífice de fazer amizades dispõe outro (6) no lugar do perdido. Indagas de que modo faça rapidamente um amigo? Se estivermos de acordo, digo agora que pagarei o que estou te devendo e que ficaremos quites quanto a esta carta.

Disse Hécato[7]: “Eu te mostrarei um filtro amoroso sem droga, sem ervas, sem encantamento de feiticeira alguma: se desejas ser amado, ama”.

Por outro lado, certamente há grande prazer não somente na posse da antiga amizade, (7) mas também no início e na aquisição da nova. A diferença que há entre o agricultor fazendo a colheita e semeando, há entre aquele que obteve um amigo e aquele que está fazendo a amizade. O filósofo Atalo[8] costumava dizer ser mais agradável fazer um amigo do que <já> tê-lo, do mesmo modo que é mais agradável para o artista pintar do que <já> ter pintado.  Aquele cuidado dispensado em sua obra traz em si grande distração na própria ocupação. Não se deleita igualmente quem remove a mão da obra acabada, pois agora usufrui o fruto da arte, a mesma arte que usufruía enquanto pintava. Mais frutuosa é a adolescência dos filhos, mas a infância é mais doce.

(8) Voltemos agora ao nosso tema. O sábio, mesmo que baste a si mesmo, todavia deseja ter amigos, se por nenhuma outra razão, para que cultive a amizade e não esteja ociosa tão grande virtude, <e> não para isto que dizia Epicuro naquela mesma carta: “para que tenha quem esteja ao seu lado quando doente, para que o socorra quando lançado à prisão ou quando sem recursos”, mas para que tenha alguém a quem ele esteja ao lado quando enfermo, para que tenha alguém a quem liberte quando prisioneiro, quando esteja oprimido pelo inimigo. Quem só vê a si mesmo e, em razão disto, caminha para a amizade, nutre más intenções. Do mesmo modo que começa <a ser amigo>, assim deixa <de sê-lo>. Alguém obteve um amigo tendo em vista um auxílio para escapar à prisão; quando primeiramente a corrente crepitar, <o amigo> (9) afastar-se-á. Estas são as amizades que o povo chama de “temporárias”; quem foi tomado como amigo por causa da utilidade, agradará por quanto tempo seja útil. Por isto, uma turba de amigos senta-se à volta dos prósperos; ao redor do arruinado há solidão, e fogem os amigos daí onde são testados.

Quanto a isto, tantos crimes abomináveis são exemplos, de uns que se afastam por medo, de outros que abandonam por medo. É necessário que início e fim estejam harmonizados entre si. Quem começa a ser amigo porque é vantajoso, também deixa de sê-lo porque é vantajoso. Agradará alguma recompensa em detrimento da amizade se algo nela agrada que não ela mesma.

(10) Para que me esforço para obter um amigo? Para que eu tenha por quem eu possa morrer, para que eu tenha a quem seguir no exílio, à morte de quem eu me oponha e impeça. Isto que tu descreves, do que se aproxima em vista do que é vantajoso, do que se espera que haja algo a ganhar, é comércio, não amizade, (11). Não duvides que o amor possui algo similar à amizade: que se possa dizer aquele afeto <ser> uma amizade enlouquecida. Acaso alguém ama por causa do lucro? Acaso alguém ama por causa da ambição ou da glória? O próprio amor, por si mesmo indiferente a todas as outras coisas, inflama os espíritos para o desejo da Beleza, não sem esperança de ternura mútua.  E então? A causa do que é digno forma aliança com (12) um afeto torpe?

“Não se trata”, dizes tu, “agora <de discutir> isto, se a amizade deve ser buscada em razão de si mesma”. Pelo contrário, nada é mais necessário. Com efeito, se deve ser procurada em razão dela mesma, só pode atingi-la quem se basta. “De que modo então a atinge?” Do mesmo modo que atinge a coisa mais bela, não <sendo> atraído pelo lucro nem atemorizado pela inconstância da fortuna. Trai a majestade da amizade, quem a procura em vista de circunstâncias favoráveis.

(13) “O sábio se basta.”[9] Isto, meu Lucílio, quase todos interpretam de modo indevido; afastam o sábio de todos os cantos e o empurram para dentro de sua própria pele. É preciso distinguir o que é e o que significa aquela expressão: o sábio “se basta” para viver de modo feliz, não para viver. Para viver lhe são necessárias muitas coisas, para bem viver, somente espírito são e nobre e que despreza a fortuna.

(14) Desejo também indicar uma distinção de Crisipo[10]. Ele diz que embora de nada necessite o sábio, que precisa <ele> de muitas coisas. “O tolo – diz Crisipo – não precisa de coisa alguma; de fato, não sabe para que serve coisa alguma, mas de todas as coisas tem necessidade”. O sábio precisa tanto das mãos quanto dos olhos e das muitas coisas indispensáveis para o uso cotidiano, <mas> de nada necessita. Necessitar, com efeito, é da carência (15): nada é necessário para o sábio. Logo, ainda que baste a si mesmo, o sábio precisa de amigos. Deseja tê-los no maior número possível, não para que viva bem; com efeito, vive também de modo feliz sem amigos. O sumo bem não busca meios externos. É cultivado em casa, é totalmente gerado a partir de si mesmo. Se alguma parte busca fora de si, começa a estar sujeito à Fortuna.

(16) “Contudo, o que será do sábio se for deixado sem amigos e lançado na prisão, ou se for deixado em algum povo estrangeiro, ou se for retido em longa viagem marítima, ou atirado numa praia deserta?” Tal qual Jove[11], quando o mundo é dissolvido e os Deuses se confundem em um único, durante o curto tempo em que a Natureza pára, repousa e entrega-se aos seus pensamentos.[12] (17) O sábio faz algo semelhante: se encerra em si mesmo, consigo está. Enquanto lhe é possível ordenar suas ações com seu arbítrio, se basta e toma uma esposa, se basta e cria filhos, se basta e, todavia, não viveria se fosse para viver sem os homens. Nenhuma utilidade sua o leva à amizade, mas um estímulo natural.

De fato, assim como há um encanto inato para nós por outras coisas, assim há pela amizade. Do mesmo modo que há a aversão pela solidão e desejo de comunidade, do mesmo modo que a natureza une o homem ao homem, assim também há neste assunto um estímulo que nos faz (18) desejosos de amizades.

Entretanto, ao mesmo tempo em que seja amantíssimo dos amigos, ao mesmo tempo em que os ponha no mesmo plano, ao mesmo tempo em que muitas vezes os ponha à frente de si mesmo, conservará todo bem em si mesmo e dirá o que disse Estilpo[13], o mesmo Estilpo que Epicuro ataca em sua carta; aquele, tendo sido tomada a sua pátria, tendo perdido seus filhos, tendo perdido sua esposa, saindo do incêndio que se alastrava só e, contudo, feliz, sendo interrogado por Demétrio (cujo apelido, em razão da destruição de cidades, foi Poliórcetes[14]) se acaso tivesse perdido algo, disse: Omnia bona mecum sunt[15]. (19) Eis um homem forte e corajoso! Venceu a própria vitória de seu inimigo. “Nada – diz Estilpo – perdi”; forçou Demétrio a duvidar que tivesse vencido. “Todos os meus bens estão comigo”; isto é, ele não considera ser um bem nada que lhe possa ser retirado.

Olhamos com admiração certos animais que atravessam as chamas sem danos nos corpos; quão mais admirável é este homem que saiu ileso e indemne através de espadas, ruínas e chamas! Vês quão mais fácil seja vencer todo um povo do que um só? Ele tem esse dito em comum com os estoicos. Igualmente também este Estilpo conduz os bens intactos através de cidades reduzidas a cinzas.  O sábio basta a si mesmo. Isso, no fim, determina sua felicidade.

(20) E não penses que somente nós pronunciamos nobres palavras; também Epicuro proferiu frase similar àquela mesma que ele criticou de Estilpo. Aprova-a tu, mesmo se já tenha pago o que te devia hoje. Diz Epicuro: “Se alguém não vê seus bens como vastíssimos, pode ser senhor do mundo e, contudo, será miserável”. Ou se crês ser melhor enunciado <o dito> do seguinte modo (com efeito, deve-se fazer isto para que preservemos não as palavras, mas o sentido): “Miserável é quem não se julga (21) felicíssimo, ainda que governe o mundo”. Para que saibas ser esta ideia universal, sendo obviamente ditada pela Natureza, no poeta cômico a encontras:

Não é feliz quem não crê sê-lo.[16]

Que importa qual seja a tua condição se ela é mal vista por ti? “E então – indagas – (22) se alguém que é rico da maneira mais torpe e senhor de muitos escravos, mas escravo de muitos mais, dissesse ser feliz, seu dito o faria feliz?” Não importa o que se diga, mas o que se sinta. E não o que se sinta uma vez, mas o que se sinta continuamente. Não há razão para temer que um homem indigno atinja coisa de tamanha qualidade: só o sábio está contente com o que é seu. Toda tolice padece de repugnância por si mesma. Adeus.

NOTAS

[1] Os cínicos.

[2] Os estoicos.

[3] Em latim Qui respuat omnis mali sensum; ou seja, ‘<uma mente> que rejeita pensamento de todo mal.’

[4] Como dizem Segurado e Campos (2014, p.22, nota 19) o termo latino impatientia é ambíguo em latim, significando tanto “auseência de sofrimento” quanto “incapacidade de suportar sofrimento.”

[5] I.e., nós, os estoicos, e eles, os cínicos.

[6] Famoso escultor da antiguidade.

[7] Filósofo estoico de Rodes, aluno de Panécio. Circa 100 a.C.

[8] Filósofo estoico professor de Sêneca. Fl. 25 d.C.

[9] Se contentus est sapiens.

[10] Filósofo estoico que sucedeu Cleantes na direção do Pórtico.

[11] I.e., Júpiter, deus supremo no Panteão romano. Identificado pelos estoicos como princípio ativo do cosmos (logos).

[12] Referência à doutrina estoica da conflagração universal (ekpyrosis).

[13] Ca. 360-280 a.C. Filósofo megárico, cujos escritos de ética influenciaram os estoicos.

[14] 337-283 a.C. Demétrio I foi rei da Macedônia entre 294-288 a.C.

[15] “Todos os meus bens estão comigo.”

[16] Non est beatus, esse se qui non putat. Verso de autor desconhecido. Cf. Gummere, 2001a, p.54, nota d.

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