A tese estoica da irmandade de todos os humanos

 

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Pelos círculos concêntricos de Hiérocles, reconhecemo-nos como parte de uma grande família humana (fonte da foto)

Por Aldo Dinucci*

Eu sonho que um dia, nos montes vermelhos da Georgia, os filhos de antigos escravos e os filhos de antigos donos de escravos serão capazes de sentar-se juntos à mesa da irmandade. (Martin Luther King)[1]

Devemos viver juntos como irmãos ou morrer juntos como tolos[2]. (Martin Luther King)

Após 1989, ano da queda do Muro de Berlim, fato que precedeu o fim da União Soviética e da Guerra Fria, era comum ouvir que “vivemos em uma aldeia global”. A tese da “aldeia global”, hoje superada pela pós-modernidade e caída no esquecimento, nos faz lembrar os ideais cosmopolitas dos estoicos. Para estes, vivemos em uma grande cidade cósmica, habitada por Deuses e humanos. Como nos diz o estoico Epicteto: “Não és tu humano? Parte da cidade: da primeira, dos Deuses e dos humanos, depois desta que é dita a mais próxima, que é uma pequena imitação da totalidade” (Diatribes 2.5.27[3]). A tese da irmandade de todos os humanos se desenrola com simplicidade a partir daí: se vivemos numa grande cidade universal dirigida pelos Deuses, e se os humanos são filhos dos Deuses, então os humanos são todos irmãos.

Cícero, no Dos fins, afirma que, para os estoicos[4], a comunidade entre os humanos tem sua origem na afeição, criada pela natureza, dos pais pelos filhos[5], o que pode ser constatado pela observação de que os corpos humanos são naturalmente constituídos para a procriação e, consequentemente, para a criação amorosa dos filhos, fato que pode ser constatado mesmo em outros animais que criam seus filhotes. Após dizer isso, Cícero dispõe os impulsos para o estabelecimento de laços afetivos e para a comunidade no mesmo âmbito de nossa repulsa à dor: “do mesmo modo que, por natureza, temos aversão à dor, assim parece sermos impulsionados pela própria natureza para amarmos aqueles que geramos”[6].

Um famoso fragmento que nos chegou de Hiérocles, preservado por Estobeu[7], fala dos círculos concêntricos da afetividade humana: o primeiro é aquele do nosso próprio pensamento, do nosso corpo e de tudo que lhe é útil; o segundo é aquele que circunscreve nossos pais, irmãos, esposa e filhos; o terceiro, aquele de nossos tios e tias, avôs e avós, sobrinhos e primos; o quarto, aquele que agrega nossos demais parentes; o quinto, o relativo aos habitantes de uma cidade; o sexto, o da etnia ou da nação; o sétimo, o que engloba todos os humanos.

Hiérocles observa que é preciso um esforço para que a apropriação siga até o último círculo, pois, por natureza, a apropriação por afeição é mais intensa até o segundo círculo, perdendo força gradativamente. Mas, podemos indagar, que esforço seria esse? Hiérocles recomenda que se chamem tios e tias de “pais” e “mães”, primos e primas de “irmãos” e “irmãs”, para que o uso do nome desperte e intensifique a empatia. De fato, nos meios religiosos, é comum que todos se chamem de “irmãos” e “irmãs”, buscando esse efeito, mas como fazer para que a empatia de um indivíduo alcance a humanidade como um todo? Não seria esse um privilégio de humanos especiais, como Cristo, Buda, Gandhi ou Luther King? Como fazer para que o humano comum atinja ao menos parte disso?

Epicteto, nas Diatribes, nos diz que gostaria de crer na tese da irmandade de todos os humanos ainda que ela fosse falsa. Parece que Epicteto quer nos dizer que a questão aqui vai além da razão, que é preciso um esforço educacional que envolva não só argumentos e teoria, mas também — e principalmente — uma práxis que reúna os humanos de diversas etnias, para que, vivendo em comunhão e em comunidade, desenvolvam laços afetivos entre si desde a mais tenra infância e, consequentemente, vivam irmanados. Talvez esse fosse o anseio de Martin Luther King, ao dizer (conforme lemos na epígrafe deste artigo) que sonhava com um dia em que crianças negras e brancas estariam de mãos dadas. Mas isso, é claro, não pode ocorrer sem que a justiça social se realize e a inclusão ocorra. Sem isso, a tese da irmandade de todos os humanos será sempre um simples ideal compreendido e vivido por muito poucos.

irmandade
Nesta foto, na feitura coletiva do gnocchi comemorativo do V Seminário Viva Vox, em outubro de 2017, temos, ao fundo, Marcelo Barreto; à esquerda, de boné, Aldo Dinucci; à direita, Nara Oliveira; e, em primeiro plano, Antonio Carlos Tarquínio.

(*) Doutor em Filosofia, Professor da Universidade Federal de Sergipe, Tradutor do Manual de Epicteto

[1] “I have a dream that one day on the red hills of Georgia the sons of former slaves and the sons of former slave owners will be able to sit down together at the table of brotherhood. I have a dream that one day on the red hills of Georgia the sons of former slaves and the sons of former slave owners will be able to sit down together at the table of brotherhood” (Frase do famoso discurso de Martin Luther King Jr.”I Have a Dream”, proferido em 28 de agosto de 1963 durante a Marcha sobre Washington por emprego e liberdade. Cf. William, 1992).

[2] “We must live together as brothers or perish together as fools”. (Frase de discurso de Martin Luther King proferido em 22 de março de 1964 em Saint Louis).

[3] Todas as traduções das diatribes ao longo de deste trabalho são minhas. Para a lista completa das diatribes que traduzi até o momento, ver aqui.

[4] Para maiores detalhes sobre a doutrina estoica que mencionamos a seguir, leiam meu artigo intitulado “Koinonia cósmica e antropológica em Epicteto”, disponível para download aqui..

[5] Cícero, Dos fins, 3.19.62.

[6] Cícero, Dos fins, 3.19.62.

[7] Estobeu, Antologia, 4.84.23. Cf. 4.27.23 = 4.671.3 – 673.18 Wachsmuth e Hense. Trata-se de fragmento do tratado intitulado Como devemos nos comportar em relação aos nossos parentes?

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