Por que não sou cético

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Do que podemos ter certeza em nossa busca pela tranquilidade? (fonte da foto)

Por João Leite Ribeiro

Diógenes Laércio dizia: “Os filósofos céticos passavam seu tempo destruindo os dogmas de outras escolas e não estabelecendo nenhum que fosse seu próprio”.

Esse ponto de vista é interessante. Transpondo da discussão filosófica para nossa vida, quantos dogmas já não criamos, os quais na verdade eram falsos? Se formos ser rigidamente lógicos, não será necessária a conclusão de que tudo é duvidoso? E , a partir daí, ao concluirmos que nada podemos concluir, não nos traria isso uma despreocupação, uma ausência de dúvidas que nos traria paz?

Pelo ceticismo chegaremos, diz Sexto Empírico “primeiro à suspensão do juízo, depois à ataraxia”.

Vamos supor que o leitor tenha um texto elogiado; isso é um fato, isso é “evidente por si mesmo”, e o fato de que pelo menos isso aparentou ocorrer é algo com que os céticos concordariam. “A dúvida, explica Sexto Empírico, recai sobre as interpretações das coisas sensíveis”. Ou seja, as construções em cima do elogio ou quais os interesses da pessoa que me elogiou — esses já são pensamentos duvidosos. Então suspendemos o juízo sobre isso, e ficamos tranquilos.

Eu fiz isso na minha vida. Enfrentei delírios, construções que fiz acerca da realidade. Cheguei a pensar que aonde quer que eu fosse havia microfones gravando o que eu falava. Se alguém me dissesse que era falso, eu simplesmente achava que era mais um chato querendo me perturbar. Porém, um dia percebi, vejam bem, não que era falso o meu delírio, mas que, como diziam os céticos, eu não poderia ter certeza dele.

Mas, sendo assim tudo incerto, como agiam os céticos no seu dia a dia? Os céticos seguiam os costumes locais, além das aparências. Eles dividiam os pensamentos em voluntários e involuntários. Os costumes locais e as aparências nos vêm à mente involuntariamente. E são um bom guia para as ações. Os pensamentos voluntários, devemos abandonar.

É aí que eu divirjo. “Há o que depende de nós e o que não depende de nós”, dizia Epicteto. Para fazer esse pensamento, Epicteto se aventurou por ramos pelos quais os céticos não se aventuravam: esse pensamento é claramente voluntário. E também são voluntárias suas consequências, “se tomas por livres coisas naturalmente servas (…) conhecerás contrariedade, aflição, perturbação”. Para raciocinar sobre o que é nosso encargo, até onde vai nossa liberdade, e onde começa o imprevisível , o incontrolável, fazemos pensamentos voluntários.

Eu vou mais além. Baseio minha vida em pensamentos voluntários. Além de gostar do estoicismo, aprecio outros filósofos como o indiano Shânkara. Shânkara fala em Brahma, algo anterior ao universo. Nenhum cético se aventuraria a dizer isso. Mas eu tenho paz ao pensar dessa maneira.

Esse é o ponto sensível. Tenho paz em certos pensamentos voluntários. Os céticos diziam ser isso impossível. Portanto, pode ser que os céticos tivessem paz, mas eu também tenho; eles erram ao dizer que uma pessoa como eu não pode ter paz.

___________________

João Leite Ribeiro conviveu com delírios sua vida adulta inteira, sendo mesmo diagnosticado com esquizofrenia. Aprendeu a superá-los por meio do estudo de alguns filósofos. Hoje é um homem feliz. É autor do livro Memórias de um estoico, que breve estará nas livrarias.

2 comentários sobre “Por que não sou cético

    1. Pois é, Gisela. Uma das primeiras tradutoras de Epicteto em língua inglesa foi uma mulher, Elizabeth Carter, a quem a ode cujo trecho você cita é dedicada. Até hoje, é uma belíssima tradução.

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